DIÁRIO DE BORDO, 25 de Maio de 2012

 

Ao procurar navegar nestes mares difíceis, a bordo da nossa Argos, recebemos mensagens dos céus, dos infernos ou de outros mundos, que lemos no voo das aves, nos céus, nas nuvens, ou, mais simplesmente, no jornal ou na internet (não é que esta também tem algo de sobrenatural?). Algumas dessas mensagens devem ser mencionadas como trazendo algo à navegação, porque contêm elementos novos, ou ajudam a  nossa compreensão das coisas, mesmo das coisas difíceis que nos oprimem. E a compreensão é o primeiro passo para abrir caminho à mudança.


No boletim de ontem do site Carta Maior (www.cartamaior.com.br) encontramos um artigo de Alejandro Nadal (http://nadal.com.mx, ou em La Jornada) Keen versus Krugman: capitalismo, instabilidade e crise, o qual, sumariamente, nos diz que o debate entre aqueles dois académicos, o segundo dos quais até já foi Prémio Nobel da Economia, serve para atrair a atenção sobre um fato fundamental que permanece escondido (em parte pela estupidez e cumplicidade de boa parte da comunidade académica): a criação monetária não é poder privativo do banco central, mas está nas mãos dos banqueiros. A eles convém o endividamento crescente (seus lucros aumentam paralelamente). O argonauta Júlio Marques Mota já nos tinha explicado esta situação, aqui n’A Viagem dos Argonautas. Contudo o artigo de Nadal, referenciando o debate Keen/Krugman ajuda a pôr muito esquematicamente a situação, e evidenciar qual o papel dos bancos nesta crise. De notar como Nadal classifica Krugman entre os economistas neoclássicos.


Outra mensagem deixou-nos o historiador Manuel Loff no Público de ontem (página 45). Num texto intitulado Fim de regime, na coluna Pelo Contrário, faz uma síntese dos sintomas da crise profunda que subjuga Portugal e a Europa, estabelecendo paralelos com os períodos de antes e depois da II Guerra Mundial. Assinala nomeadamente a ilegalidade em que vivem os poderosos, segundo a ideia de que nenhuma norma legal se cumpre se a crise não a permitir cumprir. E que desde os tempos do cavaquismo que em Portugal se tem legislado sempre em nome dos empregadores, apresentando os seus interesses como sendo os da Economia, contra o direito à retribuição do trabalho… Resume os antecedentes desta crise instalada, explicando a génese do sistema que lhe deu origem. Quase ao fim diz clara e certeiramente: Um sistema assim atrai todo o oportunista e arrivista que percebe as potencialidades de um ambiente de vale tudo.

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