EM COMBATE – 74 – por José Brandão

DORMIR EM OPERAÇÕES

 

Era assim que dormíamos durante as operações: Pano de tenda por baixo a servir de colchão e o poncho ou cartucheiras a servir de travesseira. As calças introduzidas nas botas para evitar a “bicharada” e assim se passavam as noites. Por cima as copas das árvores ou o céu estrelado. Obviamente a G3 sempre ao lado, não fosse o “diabo” tecê-las…

 

Lembro-me de uma operação que fizemos junto do rio M’bridge. Ao cair da noite e vendo um espaço extremamente limpo quase feito de propósito para acampar, decidi mesmo pernoitar aí. No dia seguinte acordei com as partes “fracas” infestadas de carraças. Passei quase uma hora a libertar-me delas e vários dias a pensar na respectiva “febre” que esperava que aparecesse.

 

Tratava-se do lugar, como o “guia” depois esclareceu, muito provavelmente utilizado por elefantes para descansar… mas se servia para os elefantes, porque razão não haveria de servir para nós?
E havia também as “matacanhas” que se introduziam nos pés criando “bolsas” onde se reproduziam e que tinham de ser retiradas sem rebentar… felizmente só me aconteceu uma vez e também felizmente, os militares angolanos que a partir de determinada fase da guerra passaram a ser incorporados juntamente com os camaradas da “metrópole”, eram especialistas em as retirar.

 

G3 E WALTHER

Foram estas as armas que durante os cerca de 28 messes de comissão em Angola me acompanharam: A G3, que por acaso era extremamente certeira, a Walther e o cinturão com os quatro carregadores (quando íamos em operações cada um de nós levava cerca de cem balas) as granadas ofensivas e o dilagarma.

É impossível, a alguém que não fez a guerra colonial, imaginar a segurança que estas armas nos davam “na mata”. Faziam parte da nossa vida diária e acompanhavam-nos sempre. Sem elas eram como se andássemos despidos. Com elas sentíamo-nos como uma “espécie” de “super heróis” capazes de afrontar todos os perigos.

Penso que a G3 ainda foi recebida na metrópole e depois acompanhou-nos até ao dia do regresso.

 

Um episódio que revela a fiabilidade das G3 aconteceu ainda em Lamego. Depois de tirar a curso de Operações Especiais, vulgo “Ranger”, fiquei como instrutor de tiro do curso que nos seguiu em Lamego e que terá sido o do 3º curso de 1971. Acontece que estava na “carreira de tiro” a dar mais uma lição de tiro, quando correndo chegou perto de nós um dos cabos que prestava serviço no quartel, na época sedeado em Penude. Ofegante gritou para mim “meu Aspirante” numa das árvores junto do quartel está “um pássaro enorme”. Sim, então e depois? retorqui eu. “Meu Aspirante” vá lá matá-lo respondeu o Cabo. Depois de olhar para ele, avaliando se não estaria a ser gozado, pedi uma G3 a um dos formandos que estava a acertar razoavelmente no alvo e lá fui eu em direcção ao quartel. De facto numa das árvores, bastante altas que na altura circundavam as casernas, lá estava um pombo bravo de dimensões muito apreciáveis. Com quase toda a Companhia a observar, incluindo o capitão “Comando” Reis Moura, digo eu com imensa curiosidade e com a esperança de ver o “Oficial de Tiro” a passar por uma situação menos agradável, lá apontei a G3, à semelhança do que fazia na Beira Alta quando caçava com a pressão de ar e disparei os dois tiros rápidos da ordem. O pombo bravo apanhado em cheio caíu redondo na parada. Senti que nessa hora, “virei” para aqueles futuros Oficiais e Sargentos “Rangeres” uma espécie de ídolo.

 

O pombo serviu de jantar para o Oficial que naquele dia estava de serviço e que no dia seguinte se “queixou” de que o pombo estava bom mas um pouco duro… pudera, a ajuizar pelo tamanho devia ter alguns anos de idade…para mim ficou para sempre a certeza de que a G3 estaria sempre ali para demonstrar a sua eficácia, como por diversas vezes o veio a demonstrar em situações menos agradáveis do que a que acabo de descrever.

 

Já em Angola, quando estávamos no Loge, recebi uma lição que não mais esqueci durante a presença em Angola. Numa qualquer sessão de caça, descobri que a “minha eficiente G3” não dava um tiro que não encravasse de seguida. Teria sido catastrófico se isso tem acontecido numa qualquer cena de guerra. Acontece que por vezes esquecíamo-nos de as limpar… isso terá sido a causa de inúmeras situações desagradáveis para muitos outros camaradas durante a guerra.

 

A partir desse dia passou a haver, todas as semanas, uma sessão de limpeza das armas, sendo que isso passou a ser feito, sempre, depois de qualquer coluna em que o pó das picadas nos deixava irreconhecíveis…

 

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