A Peste Sionista – Paulo de Castro

 

 

Paulo de Castro  A Peste Sionista

 

Professor, escritor e jornalista, Paulo de Castro 

foi um amigo de sempre do povo judeu

desde as jornadas na Espanha Republicana

até aos campos de concentração fascistas

durante a última guerra mundial

 

 

Paulo de Castro

 

 

 

 

do colonialismo de

                  ISRAEL

       à libertação da

            PALESTINA

 

 

Todos se lembram daquela famosa página de Antonin Artaud sobre a peste.

 

O que era virtuoso torna-se um imoral, o que seguia uma tabela de valores rigorosa torna-se um libertino, o que amava a paz e a concórdia dedica-se à pilhagem e à morte e uma febre de carnagem e de aproveitamento de todas as misérias apodera-se de uma sociedade dominada pela peste.

 

A peste que assolou uma parte do mundo judeu é o sionismo e o espetáculo que oferece faria, por certo, chorar de desespero e piedade os judeus que alimentaram no seu coração puro um amor infinito por todos os homens, e os judeus que viveram através dos séculos no mundo árabe, protegidos, glorificados, como irmãos de raça e de sentimen­tos.

 

A peste assolou uma parte do mundo judeu e tornou-o irreconhecível. Imaginem Spinoza violando prisioneiras como fizeram os israelenses na Síria, pilhando e roubando as economias dos pobres na Cisjordânia, torturando em Je­rusalém como fizeram os nazistas em Berlim e digam-me: o que tem isto a ver com o povo judeu? Devemos em face do sionismo reexaminar as nossas concepções sobre o povo ju­deu e considerar que tudo quanto aprendemos dos seus profetas, filósofos, dos seus poetas, é um mal-entendido gro­tesco?

 

Povo impregnado da Unidade, de certo modo e histo­ricamente guardião da Unidade e da paz, mestre do hu­manismo, devemos acreditar que tudo era apenas uma más­cara e que a dilaceração, a guerra, a crueldade, o maniqueísmo sionista foi desde sempre o fundo de um pensamento oculto? Devemos acreditar que Spinoza mentiu quando pre­tendia defender Jean de Witt e Martin Buber quando so­fria perante o cortejo dos refugiados árabes?

 

Que farei de Uriel da Costa, que nasceu bem perto da minha casa e foi levado ao suicídio na Holanda, vítima do fanatismo da Sinagoga e do fanatismo cristão? Que fazer deste alto exemplar de vida humana? Mentiu também?

 

Em verdade não creio. Considero que o povo judeu atravessa a sua maior crise, talvez a única que o pode ani­quilar na consciência de todos os homens, sem lhe garan­tir por isso qualquer espécie de paz, em qualquer canto do mundo, em qualquer gueto armado. Essa crise foi provoca­da pelo sionismo, a peste do mundo judeu, que levou um dos seus importantes segmentos à perda de valores, ao nau­frágio de qualquer tipo de moral na conduta, ao assassínio, à impiedade, à arrogância, à guerra de conquista e ao exter­mínio de populações, à ética da viscosidade, desprezando toda a evolução prodigiosa realizada depois do genocídio dos cananeus como se todo o judaísmo histórico fosse um equívoco, uma aparência ou uma ironia de sabor trágico.

 

Tudo é mais simples, embora desta vez na realidade trágico e sem ironia.

 

Da mesma forma que a Inquisição foi a peste do catoli­cismo, o stalinismo a peste do marxismo, o sionismo é a peste do judaísmo.

 

Apoderando-se de desesperos, de frustrações do cre­púsculo momentâneo de valores luminosos, em favor de li­nhas obscuras antes sempre dominadas pelo jorrar a tempo da luz solar, servindo as forças mais primitivas e ambicio­sas, ligadas a outras forças primitivas e ambiciosas no mun­do, o sionismo é a peste que tritura os valores do judaísmo e se apresenta em toda a sua nudez imoral, num espasmo de bestialidade com afluentes de sangue que vão correndo em todos os territórios árabes ocupados.

 

Recuso-me a considerar que uma peste seja uma salva­ção, um delírio um ato racional, uma guerra de conquista um ato de defesa e o expansionismo colonial uma demons­tração de generosidade,

 

A peste sionista alastra-se pela agressão no Oriente Médio, pelo contágio da mistificação, no resto do mundo.

 

Mas se a nossa concepção do povo judeu, a concepção de sempre, corresponde à verdade histórica e à verdade da nossa consciência, a peste sionista será dominada por um movimento interno que virá a combinar-se com a resistência dos palestinos, heróicos e invencíveis. Quando a peste desa­parecer, a reconciliação, numa Palestina ressuscitada e dignificada, será um grande momento para todos os homens.

 

(in Paulo de Castro, Do colonialismo de Israel à libertação da Palestina, Forum Editora, Rio de Janeiro, 1969)

 

(esta acção da juventude palestiniana em prol da sua cultura é um sinal promissor de que aquele povo não desiste de recuperar o que lhe pertence: a terra e a identidade)

 

 

Leave a Reply