agenda cultural de 4 a 10 de Junho de 2012

 

 

 

 

por Rui Oliveira

 

 

 

Destaques diários

 

 

Caro leitor :  Neste progressivo término de temporada com estertor final nesta ou na próxima semana, os eventos a destacar são quase os únicos existentes. Façamos pois esse exercício.

 

 

                            

   Na Segunda-feira 4 de Junho toca no Pequeno Auditório da Culturgest o trio Malus composto pelos americanos Nate Wooley  (trompete) e Chris Corsano (bateria) e pelo contrabaixista português Hugo Antunes, radicado em Bruxelas que, como membro destacado de várias formações, se tem evidenciado na cena europeia do jazz editando em 2010 o álbum Roll Call (Clean Feed).

   Este seu “trio americano” actual vota-se inteiramente à composição em tempo real, pelo que «cada concerto é um acto único de expressão artística». Se Antunes é dos poucos contrabaixistas que na actualidade recorrem a preparações (colocação de objectos nas cordas para alteração da sonoridade), Wooley tem dado um importantíssimo contributo na radical transformação das capacidades do trompete e Corsano deve o seu estatuto a um diferente entendimento da bateria numa grande variedade de situações, indo estas desde a livre-improvisação  ao rock alternativo.

   Um trio semelhante (com Marek Patrman no lugar de Chris Corsano) foi ensaiado em Maio de 2011 em Bruges (Bélgica) como se escuta neste vídeo (um resultado mais longo do encontro há dias, Maio de 2012, já entre os três “maltusianos” pode ouvir-se aqui) :

 

 

 

 

 

 

   Na Terça-feira 5 de Junho (repetindo a 6), às 21h30 no Grande Auditório da Culturgest, dança-se En Atendant, uma coreografia de Anne Teresa De Keersmaeker (Artista na Cidade de Lisboa) estreada em 2010 no Festival d’Avignon no Cloître des Célestins e mais um espectáculo integrado no Alkantara Festival 2012.

   Partindo da Ars Subtilior, uma forma complexa e altamente refinada de música polifónica do século XIV, a dança controlada e ondulante de En Atendant evoca e homenageia a natureza pura mas estratificada da música e a dissonância e contrastes pouco comuns que a caracterizam. “Diferentes constelações de corpos vão-se desenvolvendo no espaço e no tempo. Os bailarinos esperam à volta do palco vazio, andam, dançam para o centro e para fora do centro. As delicadas transformações da música são espelhadas não apenas pela subtileza e precisão da coreografia mas também pelas mudanças que o espaço físico despojado vai sofrendo”  − enuncia-se no programa onde também se reflecte que – “ tal como a Ars Subtilior se desenvolveu quando começavam a ruir os pilares sociais, políticos e religiosos da baixa Idade Média, também à luz da crescente complexidade do mundo pós-moderno, questões como mortalidade e fisicalidade são discutidas e podem ser vistas sob novos olhares em En Atendant.

   Criada e dançada por Bostjan Antoncic, Carlos Garbin, Cynthia Loemij, Mark Lorimer, Mikael Marklund, Chrysa Parkinson, Sandy Williams, Sue-Yeon Youn, esta produção da Rosas tem o som de árias da Ars Subtilior  [“ …L(élek)zem…” de Istvan Matuz; “En Atendant, souffrir m’estuet” (balada) de Filippo de Caserta; “Estampie En Atendant 2” (2010) de Bart Coen; “Sus un’ Fontayne “(virelai) de Johannes Ciconia; “Je prens d’amour noriture” (virelai ), anónimo; “Esperance, ki en mon coeur”, anónimo ], tocadas por Michael Schmid flauta, Ensemble Cour et Coeur com direcção musical de Bart Coen flauta de bisel, Birgit Goris viela e Els Van Laethem canto.

   Este é apenas um breve relance sobre a brilhante criação de ATDK :

 

 

 

 

 

 

 

 

   Na Quarta-feira 6 de Junho, há um concerto de entrada livre em colaboração com a Antena 2 no Auditório da Reitoria da Universidade Nova de Lisboa em que intervêm a Banda Sinfónica da Guarda Nacional Republicana, tendo como solista a jovem pianista Ana Telles. A direcção da Orquestra (oriunda da sua Banda Sinfónica há poucos anos) estará a cargo de Jean Sébastien Bereau, maestro que foi  responsável pelas três orquestras do Conservatório Nacional Superior de Música de Paris, titular das Orquestras de Metz e Rouen, bem como dos Cantores de Sto. Eustáquio (em Paris) e da “Chorale Strasbourgeoise” (em Estrasburgo) e colaborador de Pierre Boulez e Leonard Bernstein.

   Do programa do concerto constam as obras de Igor Stravinsky (1882 – 1971) O Pássaro de Fogo, o Concerto para Piano e Instrumentos de Sopro (com Ana Telles no piano) e  A Sagração da Primavera (orquestração de Bruno Peterschmidt).

   Por não haver registo de anterior execução destas obras, mostramos-lhe o encontro em 2011 entre a Banda Sinfónica dirigida por J.S. Bereau e Ana Telles como uma das solistas na estreia da composição de Bereau  sobre o poema de Eugénio de Andrade “Tu és a esperança, a madrugada” :

 

 

 

 

 

 

   Na Quinta-feira 7 de Junho uma aposta possível será ir à galeria Zé dos Bois (ZBD), às 22h, ouvir a “estreia absoluta” do seu novo disco “Through This Looking Glass” onde Joana Sá estabelece um duo com  Luís José Martins (guitarra acústica).

   Aí, segundo aquele palco musical, revelar-se-á “uma pianista e compositora ímpar no panorama musical nacional, tecnicamente irrepreensível, arrebatadoramente inventiva e sofisticada, evocando  (a música de Joana Sá) uma profunda sensibilidade  autoral”.

   Sobre a obra da pianista, colaboradora ao longo dos últimos anos de forma intensiva no colectivo Power Trio, elaborou Daniel Neves um filme a preto e branco que pretende capturar os seus sons experimentais e surrealmente oníricos :    

 

 

 

   Como alternativa, e porque este poderá ser o dia terminal da sua exibição, chamávamos (de novo) a atenção para o polémico filme da britânica Andrea Arnold, a quarta adaptação do romance gótico de Emily Brontë – após Wyler (1939), Buñuel (1954) e Rivette (1985) – “O Monte dos Vendavais”.

   Interpretada centralmente por Kaya Scodelario (Catherine) e Shannon Beer (como Catherine jóvem), James Howson (Heathcliff) e Solomon Glave (como Heathcliff jóvem), Lee Shaw (Hindley Earnshaw), Amy Wren (Frances Earnshaw), Paul Hilton (Mr. Earnshaw) e James Northcote (Edgar Linton), é verdade, como diz um crítico (VBM) que Arnold “se destaca pela rudeza de um olhar naturalista e sensualista o qual encontra na exploração dos décors o melhor modo de libertar as personagens da literatura”. Aí, tanto a filmagem de câmara na mão (que  “privilegia os enquadramentos cerrados para sublinhar a clausura emocional dos amantes”) como a insistência “nos selvagens e infindáveis campos de Yorkshire (como espelho de uma paixão obcessiva que recusa pontos de fuga)”, são características dominantes do projecto, talvez mais bem sucedido na primeira parte onde “a sexualidade difusa das crianças se relaciona bem com o sensualismo da paisagem” do que na segunda, já na idade adulta, onde o comportamento das personagens é mais opaco.

   De qualquer forma um filme a ver, de que mostramos algumas imagens :  

 

 

 

 

 

 

   Na Sexta-feira 8 de Junho o Jardim de Inverno do Teatro São Luiz recebe, às 23h30, a estreia mundial  da peça “Mademoiselle Else” (“Fräulein Else”) de Arthur Schnitzler encenada pela companhia belga tg STAN com Frank Vercruyssen que partilha o palco com Alma Palacios, estudante na P.A.R.T.S.

   Tema : Else, 19 anos, filha da burguesia vienense, está de férias com a tia num spa nos Alpes. Passa os seus dias despreocupados com alguma apatia impaciente, até receber um telegrama da mãe: o seu pai está com problemas financeiros. A mãe instiga Else a aproximar-se de Mr Von Dorsday, um negociador de arte abastado, e a pedir-lhe, de uma forma amigável mas insistente, para acudir ao seu pai. Von Dorsday aceita, se lhe for permitido ver Else nua…

   Escrita como um monologue intérieur, “Mademoiselle Else” está intimamente ligada ao pensamento psicanalítico de Freud e nela Schnitzler “apresenta, de uma maneira delicada e elegante, uma Else frívola e sensual, determinada, mimada, caprichosa e egocêntrica, mas que é também uma rapariga intelectual e emocionalmente solitária, que deve descobrir a sua sexualidade por conta própria e que tem de definir o seu lugar num mundo de modos sociais asfixiantes e de mesquinhez moral”.

   Só para comparação, veja-se a dramatização que da mesma peça fez Cilla Back com o Det Norske Teatret de Oslo (Noruega) em Janeiro de 2011 com a actriz Ingrid Bolsø Berdal :

 

 

 

 

 

 

   No Sábado 9 de Junho, o espectáculo “Cesena” de ATDK, representado na véspera 8 (Sexta) no CCB às 21h, é apresentado no Teatro Camões (no Parque das Nações) às 21h30.

   Em Cesena, Anne Teresa De Keersmaeker e a sua companhia Rosas trabalharam de perto com Björn Schmelzer e o Ensemble Graindelavoix. Enquanto que no antecedente En Atendant o crepúsculo se transforma quase imperceptivelmente em noite, Cesena anuncia o início do dia. O palco é partilhado por 19 bailarinos e cantores (Olalla Alemán, Haider Al Timimi, Bostjan Antoncic, Aron Blom, Carlos Garbin, Marie Goudot, Lieven Gouwy, David Hernandez, Matej Kejzar, Mikael Marklund, Tomàs Maxé, Julien Monty, Chrysa Parkinson, Marius Peterson, Michael Pomero, Albert Riera, Gabriel Schenker, Yves Van Handenhove e Sandy Williams) que exploram os limites das suas capacidades – os bailarinos cantam e os cantores dançam, em diálogo com as partituras recalcitrantes da Ars Subtilior. Pela terceira vez, Ann Veronica Janssens colabora com Rosas como cenógrafa, providenciando “uma escultura do tempo que flui, da transformação constante do que nos rodeia, daquilo que apenas se torna visível no decurso do tempo − começo de um novo dia, ou um novo olhar sobre um passado distante” (diz o programa).

   A sua estreia no Festival ‘Avignon em Julho passado permitiu este vídeo ilustrativo :

 

 

 

 

 

   No Domingo 10 de Junho a escolha de um destaque original é difícil.

   Fugindo aos espectáculos públicos predominantemente musicais de que o encerramento do Alkantara Festival é exemplo (ver Cordas sobresselentes), há no campo das artes plásticas (e afins) algumas mostras que convirá ver antes que encerrem.  

   Uma que encerra a 17 de Junho é a exposição de Rosário Rebello de Andrade que está patente no Museu da Electricidade (sala Cinzeiro 8) a que a Fundação EDP chamou “Cartas Celestes: Cruzamentos, largos, bifurcações”.

   A artista, que lida nos seus trabalhos com o tema da memória, apresenta nesta exposição um conjunto de pinturas e desenhos nos quais essa memória surge sob a forma de cidades projectadas em cartas celestes. Em cada continente, Rosário Rebello de Andrade escolheu uma cidade à qual tem ligações: Lisboa, Cidade do Cabo, Camberra, Nova Iorque, Quioto (ver imagem desta). Nos respectivos mapas, e respeitando escalas, assinalou cruzamentos, largos e bifurcações, dando corpo a uma teia de pontos urbanos que, em tela, surgem espelhados em campos de estrelas, como se de verdadeiras cartas celestes se tratassem.  Estas são cidades vivas, que pulsam, reflectidas em céus estrelados. E a cada uma delas, a artista faz corresponder uma ilha com a forma e o nome de um cemitério local, um território escurecido que Rosário Rebello de Andrade coloca no oceano mais próximo.

 

   Abertas até 30 de Junho, têm tido boa avaliação crítica as exposições da Galeria Zé dos Bois. A de Gonçalo Pena, intitulada “Atol: Deuses Inúteis”, não é apenas uma exposição de pintura pois o autor (segundo um crítico, CM) “submete-a a um confronto muito mais alargado, num plano cultural e simbólico, … num percurso que inclui muitos outros objectos vindos dos quatro cantos do mundo”; daí que “um dos aspectos mais interessantes (seja) o modo como uma pintura tendencialmente eurocêntrica abandona o seu lugar aurático e abdica do seu estatuto de autonomia para se misturar com uma infindável fronda de violências simbólicas, morais e estéticas”.  

                         

 

   Outra é a mostra da obra de João Maria Gusmão e Pedro Paiva a que chamaram “10.000 COISAS”. Se a fotografia e a instalação são parte integrante deste trabalho desde o início, o certo é que o método preferencial e o seu grande agregador foi sempre o trabalho realizado em película. Estão aqui criados cerca de uma dúzia de curtos filmes onde “a imagem baça de formato 16 mm induz uma estranheza visual capaz de confundir as circunstâncias temporais de cada ‘incidente’ proposto à descoberta sem chave de decifração anexa”. Começando com “Benguelino a Lançar Um Feitiço na Câmara” (2010), uma unção do próprio cinema pela magia tropical, e acabando em “Solar, o Cego a Comer Uma Papaia” , pode dizer-se (como o crítico C.M.) “ que a verdadeira matéria destes filmes (é) a manipulação do tempo, da condição da imagem e, sobretudo, o facto de cada situação trabalhada parecer viver numa espécie de parêntesis etnográfico onde tudo se torna culturalmente desancorado e instável e por isso, por paradoxal que pareça, universal”.   

                         

 

 

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