Texto que, com a devida vénia, transcrevemos do jornal El País de dia 3 de Junho de 2012
A detenção do mordomo do Papa pôs a descoberto uma guerra pelo poder no Vaticano. O cardeal Bertone mandou para o exilio alguns dos mais queridos colaboradores de Bento XVI que tenta obter uma trégua. Mas a luta é encarniçada.
Nesta história plena de traição, de expedientes ínvios, de soldados do Altíssimo que lutam pelo poder com armas do demónio, um mordomo ladrão, um Papa doente e um banco que usa o nome de Deus em vão, talvez o único homem bom seja o padre George.

O secretário de Estado do Vaticano Tarcisio Bertone, ao terminar o conclave que elegeu o Papa Bento XVI em 2005. / ALESSANDRO BIANCHI (REUTERS)
George Gänswein é alemão, tem 57 anos, 1.80 de altura, corpo de atleta, cabelos louros, olhos claros. Desde há nove anos é o secretário pessoal de Joseph Ratzinger e, desde há alguns mais é o seu único antídoto contra o ar envenenado do Vaticano. Num dia não muito distante, ao seu número de fax — ao alcance de muito poucos — chegou uma carta muito comprometedora dirigida ao Papa. Depois de Bento XVI a ter lido, o monsenhor Gänswein decidiu guardá-la no seu pequeno escritório situado dentro do apartamento papal. Não convinha que aquela missiva andasse de mão em mão por um Vaticano transformado em campo de batalha. Por isso, quando o padre George a viu publicada num livro juntamente com dezenas de documentos secretos, logo percebeu que o traidor, o corvo, a toupeira, tinha que ser alguém muito próximo. Alguém da família.
Assim é designada intramuros. A família pontifícia. A familia do Papa. Os habitantes do Apartamento — é assim, com A maiúsculo, que se escreve no Vaticano— onde Joseph Ratzinger, mais caseiro do que o seu antecesor, o muito viajado Karol Wojtila, passa a maior parte do dia. Além do padre George e do outro secretário, o sacerdote maltês Alfred Xuereb, “a familia do Papa” é composta por quatro laicas consagradas — Carmela, Loredana, Cristina e Rosella —, por sóror Birgit Wansing, uma freira que o ajuda nos trabalhos de estudo e de escrita, e por um assistente de câmara, Paolo Gabriele, o seu fiel Paoletto, o primeiro, desde há seis anos a dar-lhe os bons dias, que o ajuda a vestir-se e a celebrar a missa, que o acompanha em todas as audiências públicas e privadas, lhe serve o café do pequeno-almoço, o vinho que acompanha o almoço, a infusão da tarde, que o acompanha nos seus passeios pelo jardim do terraço e, ao cair da noite, o ajuda a despir-se para se deitar.
Os cardeais acusam o secretário de Estado de ambição desmedida e de se deixar influenciar por “ambientes maçónicos”.
—Boas noites, Vossa Santidade.
Na noite de terça-feira, dia 22 de Maio é a última a última que Paolo Gabriel, de 46 anos, casado e com três filhos, dotado de dupla cidadania italiana e vaticana, acompanha o Papa. No dia seguinte, a Gendarmeria do Vaticano apresenta-se em sua casa de Via de Porta Angelica, no próprio muro que separa os dois Estados, e prende-o. O segredo é mantido por dois días. Na sexta-feira, dia 25, a noticia espalha-se: foi detido o mordomo do Papa por revelar e difundir documentos secretos. Os jornalistas procuram imagens do corvo ou traidor. Não lhes é difícil encontrá-las. Basta observar as fotos do papamóvil. Junto ao motorista, sempre com ar circunspecto, aparece Paolo Gabriel. Atrás, de pé, distribuindo bençãos, o Papa, e no último assento, sorridente, o padre George…
Segundo uma carta secreta, Bento XVI está a deixar tudo preparado para que o seu sucessor seja o arcebispo de Milão.
Se não fosse o seu aspecto físico — a revista Vanity Fair chegou a chamar-lhe monsenhor George Clooney —, o teólogo alemão sería um perfeito desconhecido. Até há uns meses, George Gänswein executava em exclusivo o seu papel de discreto ajudante de Joseph Ratzinger, a sua sombra desde que, em 1996, o então cardeal prefeito da Congregação para a Dourina da Fé, a antiga Inquisição, o chamara para junto de si. No entanto, de há um tempo a esta parte, o padre George não teve outro remédio senão desempenhar um papel mais delicado: o de “passagem secreta” para ver o Papa. Aos 85 anos, Bento XVI vive isolado no seu apartamento, encurralado pelas lutas entre os cardeais que tentam ganhar poder antes da celebração do próximo conclave. Ratzinger é um homem idoso e doente, mas é sobretudo um homem só. O seu velho amigo e teórico braço direito, Tarcisio Bertone, o secretário de Estado do Vaticano, foi-se afastando dele e com o tempo transformou-se num inimigo a abater pelos restantes cardeais italianos. Acusam-no de ter uma ambição desmedida. O seu velho amigo, de relacçõs perigosas com os altos poderes italianos, de se deixar., inclusivamente, influenciar pelos “ambientes maçónicos”.O Papa, que nos últimos tempos viu com tristeza como o cardeal Bertone despediu ou enviou para o exilio alguns dos seus colaboradores mais queridos, responde sempre com a mesma frase a quem o aconselha a mudar de secretário de Estado: “Sou um Papa já velho…”. Tenta obter uma trégua, mas o resultado é o contrário. A luta é cada vez mais encarniçada. Bertone radicaliza-se e os seus inimigos também não descansam.
Sentado junto ao fax do Apartamento, o padre George continua a receber cartas arrepiantes dirigidas a Bento XVI.
(Continua)
