A tontice pesporrente de Passos Coelho é ilimitada – agora vem dizer que os portugueses já não estão à beira do abismo – claro, é imediata a conclusão – estávamos à beira do abismo e demos um passo em frente… E disse também que a reforma estrutural é a mais profunda dos últimos cinquenta anos. Será. E isso é que nos preocupa. Há cinquenta anos, Salazar, perante as contrariedades que enfrentava, procedia a reformas que lhe permitissem contrariar «os ventos da História». Mas para além destas banalidades há pequenas turbulências à superfície do charco.
Depois de uma gaffe monumental, preconizando que fosse vedada a hemodiálise aos insuficientes renais com mais de 70 anos e que não possam pagar esse recurso, Manuela Ferreira Leite vem juntar a sua voz à das que do lado das oposições condenam as medidas tomadas por este executivo para consolidar as contas públicas. Diz a ex-ministra das Finanças que esta terapêutica tem o risco de poder matar o doente. Um tratamento mais lento para não matar o doente como aconteceria aos insuficientes renais por falta de tratamento.
Costuma dizer-se que as sondagens valem o que valem e não podemos não acreditar nelas quando não coincidem com a nossa análise e referi-las como se fossem infalíveis quando nos convêm. É à luz deste princípio de prudência que lemos os resultados do barómetro realizado pela Universidade Católica – a duas semanas de completar o primeiro ano de mandato, as intenções de voto no PSD caíram drasticamente, e colocam os “social-democratas” em empate técnico com o PS. Más notícias para Passos Coelho, boas notícias para Seguro, péssimas notícias para os portugueses, prisioneiros de um sistema que os leva a votar num dos dois partidos do chamado bloco central – a um Passos Coelho subserviente e incapaz, seguir-se-á como tudo indica um Seguro incapaz e subserviente.
Segundo este barómetro, em eleições realizadas agora, o PSD teria a maioria com 36%, o PS ficaria perto, mas a maioria seria de uma esquerda unida – valendo o que valem estas sondagens, Partido Comunista Português, Bloco de Esquerda e Socialistas sobreviventes dentro do PS, deveriam tirar as devidas ilacções – arrumar os seus manuais de instruções na gaveta e justificar a sua existência unindo-se em torno da defesa dos direitos dos trabalhadores e da Democracia. Perante a maior reforma estrutural de há cinquenta anos a esta parte, como ameaça Passos Coelho, justificar-se-ia organizar um Congresso Republicano e preparar a resistência a uma reforma que poderá, por exemplo, incluir a criação de uma polícia política.

