A propósito de uma série que vai ser suspensa, a propósito de uma serie que há-de voltar.

Por Júlio Marques Mota

 

 

Aos leitores de A  VIAGEM DOS ARGONAUTAS, aos passageiros que por estas águas límpidas procuram andar para depois poderem descortinar os fundos dos mares da Democracia, que agora estão extremamente poluídos, informamos que vamos temporariamente deixar de editar textos sobre a Desindustrialização e Globalização. Fechamos assim com Michel Spence, prémio Nobel da Economia, o quarto capítulo da quarta série sobre este tema. A razão para esta suspensão temporária é muito simples. Estamos a falar de uma série que vem a ser editada quase que diariamente desde final de Novembro de 2011, o que nos parece ser quase que único na Blogo-esfera em Portugal. Por esta série passaram dos nomes mais prestigiados de Economia Internacional, como Paul Samuelson, Bourguinat, Baumol, David Ricardo, Robert Craigs, Ralph Gomory, Paul Palley, por aqui passaram os economistas de OFCE, entre muitos outros. Outros se seguirão quando retomarmos a série, como Sapir, como Rodrik, por aqui irão passar estudos de Senado francês, de China Labor Watch, do Economic Policy Institute, onde procuraremos ver a desindustrialização tomando como referência três polos: a China, a Europa e a América. E terminá-la-emos com artigos de nível teórico de Dani  Rodrik e de Sapir, entre outros. Voltaremos portanto.


A suspensão da edição é devida a uma razão bem simples. Em plena crise queremos agora centramo-nos por um lado na banca, pois os exemplos recentes de JP Morgan e de Stanley Morgan com Facebook, mostram, para quem tem dúvidas, que nos mercados financeiros, afinal, tudo continua tudo na mesma. A regulação continua por fazer ou a que foi feita deixou tantos buracos que na prática é como se não existisse, e por outro lado, queremos também centrarmo-nos nas questões do quotidiano, pois estamos certos de que a crise vai ainda acelerar mais e queremos continuar críticos ao que diariamente se vai fazendo. Os assassinos e ladrões, politicamente afirmados e legalizados, continuam a dar cabo dos nossos países e desta Europa também, que em muitos aspectos já se assemelha à Europa dos anos trinta, à Europa que antecedeu a tomada do poder, legal, de Hitler, por exemplo. Nem será por acaso que na Hungria já se a retomar e a honrar as figuras políticas que se colocaram ao lado de Hitler. Mais perto de nós, veja-se o verdadeiro atentado, crime contra a sociedade portuguesa, que se está a fazer contra o Sistema Nacional de Saúde, colocando tudo em saldo, até as carreiras médicas que agora devem ser, também elas, de remunerações low-cost. Se isto não é crime colectivamente organizado, o que é então? Aparentemente elegante o argumento, não temos dinheiro, é a partir dele e com ele que podemos claramente afirmar que dentro de anos não teremos médicos de qualidade em Portugal, porque estes ir-se-ão sistemática e continuadamente embora. Ir-se-ão embora pois terão lugar condignamente em qualquer sítio do mundo, menos nos domínios dos nossos ignorantes do que é futuro como Passos Coelho ou o actual ministro da saúde. Este último terá sempre dinheiro para se tratar bem ou será que foi um funcionário continuadamente pago a low-cost? Quem me sabe dizer?  

   

Em forma de despedida mas com um até muito em breve da série, deixamos aqui uma entrevista dada por Arnaud Montebourg ao jornal Le Monde. Vale a pena lê-la, vale a pena confrontá-la com as posições que se tem vindo a assumir ao longo desta série.

 

E boa leitura

 

Coimbra, 6 de Junho de 2012   

 

 

 

 

Arnaud Montebourg : “Salvar os empregos que podem ser salvos”

 

Entrevista a Arnaud Montebourg feita por  Jean-Baptiste Chastand, Dominique Gallois e Thomas Wieder

 

Numa entrevista ao Le Monde, o Ministro do redressement productif, da recuperação e desenvolvimento industrial,  Arnaud Montebourg, descreve o seu método para salvar  empregos e os projectos para a indústria francesa.

 

Está no governo há duas semanas e será que sabe já o que é a querer endireita a indústria francesa?

 

A recuperação produtiva é levantar o que está no chão. A indústria francesa está em queda livre, e estes últimos dez anos foram marcados por uma desindustrialização feita a um ritmo mais rápido do que a da Inglaterra e isto quando a Inglaterra  aceitou a ideia de viver sem a indústria . Cerca de 14% da riqueza nacional é de origem industrial, contra 25% há dez anos. O balanço do sarkozysmo é um desastre no terreno da globalização.


Além disso, uma série de decisões nas empresas têm sido adiadas por razões eleitorais e que vão agora começar a aparecer. Os planos sociais multiplicam-se no território.

 

Concorda com os números da CGT: perto de 45 000 empregos ameaçados?


Estes números reagrupam de uma certa maneira credível os valores dos meus serviços. Nós tivemos que aprofundar informações superficiais que nos tinham sido legadas pelo meu silencioso predecessor [Eric Besson], cujo nome não terá marcado  certamente a indústria francesa.

 

Qual é o seu método para responder ao afluxo dos pedidos de ajuda?

 

O nosso papel é o de tudo fazer para salvar os empregos que podem ser salvos. É por isso que nós temos de antecipar ao máximo. Apelo, portanto, aos dirigentes das nossas empresas: é melhor aplicar medidas de apoio bem antes do aparecimento das dificuldades.

 

Todos os dias, nós projectamos uma célula em forma de comando composta por quatro pessoas para se procurar responder às questões mais urgentes Trata-se do meu chefe de gabinete, Stéphane Israel, da sua adjunta, Fanny Letier, antiga secretária-geral do Comité Interministerial para a Reestruturação industrial (CIRI), Boris Vallaud, Sub-perfeito e Christophe Bejach, antigo banqueiro que se colocou ao serviço da França.

Ao nível ministerial, o CIRI trata com as empresas de mais de 400 trabalhadores. O organismo conhece o seu maior pico de actividade desde a crise de 2008. Para as empresas mais pequenas, vai ser necessário organizarem-se nas regiões e envolver as comunidades locais e os parceiros sociais em volta dos  prefeitos da região.

 

Para lá da urgência e dos processos que nos legaram os nossos antecessores, é à reconquista industrial que me vou consagrar. Nós iremos dirigir, conjuntamente com Pierre Moscovici, o banco de investimento público. E o lançamento do plano de poupança popular para mobilizar os aforradores franceses será o braço armado da recuperação . Um outro meio de intervenção será através da Agência das participações  do Estado, que nós co-gerimos. Esra terá como finalidade servir para orientar a nossa estratégia industrial, o que não foi feito até aqui.

 

É função de um ministro estar na primeira linha ?

 

Eu não procuro proteger-me, porque estar na esquiva não é boa política. Na verdade procuramos ser o mais reactivos quanto nos é possível. Por seu turno, a CFDT sugeriu ao primeiro-ministro que ressuscitasse uma missão interdepartamental: nós iremos pensamos nisso. Nós devemos multiplicar os nossos esforços, e este é o significado das estruturas regionais que pretendo implementar.

 

A Comissão Europeia defende que o problema da França é um problema de competitividade e de custo do trabalho. Será que aceita esta ideia?

 

É verdade que, nos últimos dez anos, o nosso principal parceiro comercial, a Alemanha, conduziu uma política salarial restritiva, o que lhe permitiu melhorar a sua competitividade.

Esta política tem os seus limites na própria Alemanha, uma vez que a confederação sindical  IG Metall  obteve agora um aumento salarial de 4%, que funcionários alemães foram aumentados  um pouco mais e que finalmente, a questão do salário mínimo começa a ser  discutida neste país e no seio das Instâncias Europeias. Isto vai no sentido de um melhor equilíbrio entre as situações económicas e sociais dos países europeus.

 

O seu trabalho é, portanto, esperar que a Alemanha aumente os seus salários?   

 

Não, o meu trabalho é o de avaliar a competitividade em todos os seus aspectos, incluindo os aspectos que não estão incluídos no custo. O financiamento de solidariedade e o seu custo, que pesa sobre as empresas expostas à concorrência a nível europeu e mundial, são um dos temas que poderiam ser inscritos no quadro da conferência  social.

 

(continua) 

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