EM COMBATE – 91-por José Brandão

 

Operação Tridente – testemunho de Alpoim Calvão

 

“O meu destacamento entrou na mata para fazer reconhecimento. Tínhamos desembarcado a 14 de Janeiro e esta operação foi a 19. Levei duas secções cerca de 25 homens. Andámos entre 100 a 150 metros e tivemos um choque frontal com uma força inimiga que calculei num número de 60 a 70 homens. Foi um combate que durou 2 horas e meia. Foi um embate muito forte que me custou dois mortos e cinco feridos – cheguei a estar a dez metros de distância do inimigo. Tentei fazer um movimento de envolvimento pela direita, mas faltava-me massa de manobra. Pedi um reforço e enviaram-me um grupo de comandos – cerca de 20 homens – comandado por um extraordinário oficial, alferes Maurício Saraiva, e assim já pude fazer a manobra de envolvimento. Certo é que acabaram por retirar. Comigo estava o chefe de Estado-Maior da Defesa Marítima da Guiné, um capitão-tenente já com uma certa idade, Costa Santos. Era raro os altos comandos participarem nas operações, mas alguns iam, como era o caso deste.

 

Verificaram-se actos de extrema bravura, por exemplo quando um dos meus homens, o Botelho, foi abatido, e o cadáver, que era um troféu apreciável. Do meu lado, houve gente – o Abranches Pinto, o sargento André – que, debaixo de fogo, foi buscar o corpo.

 

O destacamento de fuzileiros comandado por Alpoim Calvão, o DF8, participa em 25 combates. Os militares portugueses, na totalidade, sofrem várias baixas – nove mortos e 47 feridos. Um avião T-6 foi abatido, tendo o piloto morrido carbonizado. As doenças foram um segundo inimigo, obrigando à evacuação de cerca de 200 homens. Do lado do PAIGC, as baixas foram muito pesadas: 76 mortos confirmados, 15 feridos e nove prisioneiros. No entanto, devido aos bombardeamentos, o número de baixas deve ter sido maior.”

 

Um outro testemunho sobre o que se passou nesta operação, é dado pelo furriel Mário Dias, dos comandos, que participou nesta operação, do qual apresentamos as conclusões:

“De tudo quanto descrevi, e que corresponde à realidade por mim vivida durante a Operação Tridente, podemos verificar que nem sempre, ou quase nunca, a história é escrita com isenção. Na verdade, tem-se especulado muito sobre o que realmente se passou no Como. Derrota para as tropas portuguesas, dizem uns, grande vitória, contrapõem outros.

 

Para mim, nem uma coisa nem outra, porque na guerra, em qualquer guerra, não há vencedores: todos são vencidos pela existência da própria guerra.

 

Porém, analisando a Operação Tridente no âmbito estritamente militar, facilmente se chega à conclusão que:

– O PAIGC dominava a Ilha do Como em 1963;

– Nas primeiras duas semanas opôs feroz resistência às NT, a quem causou baixas, não permitindo a nossa progressão pela mata onde estava fortemente instalado;

– Graças à nossa persistência no combate, favorecida pela superioridade de meios que na altura ainda tínhamos, fomos aos poucos dominando a situação;

– A partir da 3ª semana já conseguíamos entrar e progredir na mata;
– Sensivelmente na 5ª semana, já nos movimentávamos facilmente por toda a ilha e os
guerrilheiros opunham esporádica e fraca resistência;
– Começou a notar-se, a partir da 7ª semana, uma completa desagregação da
capacidade de combate dos guerrilheiros: basta ler a mensagem do Nino dirigida ao
seu pessoal e transcrita nesta crónica;
– No final da operação o PAIGC já não dominava a ilha;

 

A teoria defendida por alguns, sobretudo pelo PAIGC (mas essa não é de admirar) que as tropas portuguesas se viram forçadas a abandonar a ilha, não é verdadeira:

1) As tropas retiraram por ter terminado a operação e não se justificar a sua continuação uma vez alcançado o objectivo: o domínio da ilha pelas NT;

2) A ilha não foi abandonada pois ficou instalada em Cachil (na tal “fortaleza” de troncos de palmeira) uma companhia para patrulhar e não deixar que o IN se reorganizasse naquela região;

3) Se mais tarde se veio a verificar o recrudescer da actividade no local, isso deve-se ao facto de a Companhia que lá ficou se ter refugiado na “fortaleza”, nunca de lá saindo a não ser para ir para Catió quando era substituída por outra (Mas isso, é outra história).”

 

Em 15 de Junho o BCav 490 foi substituído no sector pelo BArt 733 (Cmdt Tenente-coronel Glória Alves), tendo recolhido a Brá, onde ficou alojado até à data de regresso à metrópole em Agosto de 1965.

 

http://destaques.com.sapo.pt/index.html

 

A seguir – Batalhão de Artilharia 733

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