Um Café na Internet
Quando me tritura o trabalho chato, surge-me sempre o Anjo vestido de preto, camisa e calças. É o Pavia, é o Manuel Ribeiro de Pavia! Retorno aos meus 20 anos. Ele já tem mais de 40 e entra no Café Chiado, tudo se repete.
– Manel, abanca aí!
Senta-se. Abre as capas de cartolina, mostra a sua última gravura, outra ceifeira alentejana, redonda, verdes e vermelhos, à espera de quem a faça mãe, encantamento.
Chega o criado de mesa, peço duas bicas. E o Anjo acrescenta:
– E uma torrada, se faz favor.
Para ele se permitir o luxo de uma torrada, certamente conseguiu vender uma gravura. Quanto mais fome tem, mais a pena lhe arredonda seios e ancas das ceifeiras.
Amigos quiseram arranjar-lhe um emprego numa agência de publicidade. Foi, ouviu o que pediam do seu traço, ficou um dia, virou costas.
– Filhos da puta!
– Mas ó Manel…
– Não me dobro.
– Mas ó Pavia…
– Antes quebrar que torcer.
Quebrou, morreu de fome. Não é metáfora, eu vi acontecer.
Mas ó Manel, ó Manel Ribeiro de Pavia! Para matar a fome faz-se tudo, vale tudo. Quando eles poisarem, tens de ter força para arriar a cacetada! Estás a perceber, ó meu Anjinho? Abanca aí, toma uma bica…
E o Anjo da minha perturbação acrescenta:
– E uma torrada, se faz favor…
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