O ANJO – por Fernando Correia da Silva

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Quando me tritura o trabalho chato, surge-me sempre o Anjo vestido de preto, camisa e calças. É o Pavia, é o Manuel Ribeiro de Pavia! Retorno aos meus 20 anos. Ele já tem mais de 40 e entra no Café Chiado, tudo se repete.
 – Manel, abanca aí!
 Senta-se. Abre as capas de cartolina, mostra a sua última gravura, outra ceifeira alentejana, redonda, verdes e vermelhos, à espera de quem a faça mãe, encantamento.
 Chega o criado de mesa, peço duas bicas. E o Anjo acrescenta:
 – E uma torrada, se faz favor.
 Para ele se permitir o luxo de uma torrada, certamente conseguiu vender uma gravura. Quanto mais fome tem, mais a pena lhe arredonda seios e ancas das ceifeiras.
 Amigos quiseram arranjar-lhe um emprego numa agência de publicidade. Foi, ouviu o que pediam do seu traço, ficou um dia, virou costas.
 – Filhos da puta!
 – Mas ó Manel…
 – Não me dobro.
 – Mas ó Pavia…
 – Antes quebrar que torcer.
 Quebrou, morreu de fome. Não é metáfora, eu vi acontecer.
 Mas ó Manel, ó Manel Ribeiro de Pavia! Para matar a fome faz-se tudo, vale tudo. Quando eles poisarem, tens de ter força para arriar a cacetada! Estás a perceber, ó meu Anjinho? Abanca aí, toma uma bica…
 E o Anjo da minha perturbação acrescenta:
 – E uma torrada, se faz favor…
 
________________________________________

Leave a Reply