A caminhada rumo à fronteira, só atingida ao fim de vinte e dois dias de marcha, onde as canseiras, a dor e o sofrimento lhe causavam bem menor mágoa que o sentimento de culpa, o profundo abatimento e a vergonha de se sentir prisioneiro. A esse angustiante estado de alma se aliava o enorme desconforto motivado pelo receio do desconhecido, agudizado pela incerteza do futuro.
Só, inacreditavelmente só, como nunca se tinha sentido, possuído por uma tristeza mais negra que a pele dos próprios captores que o conduziam, caminhava como se fosse um autómato. Da fronteira para Conacri, o transporte em viatura, a entrevista com o próprio Amílcar Cabral, a recusa em ler para a rádio Argel, onde alguns compatriotas então brilhavam, fosse o que fosse contra Portugal, a clausura numa prisão, num antigo forte colonial Francês, na cidade de Kindia, cerca de uma centena de quilómetros a nordeste de Conacri.
Aí, onde sob o enorme portão fronteiriço se podia ler Maison de Force de Kindia foi encontrar o 1. ° Sargento Piloto-aviador Sousa Lobato, primeiro militar português que o PAIGC aprisionou quando, no sul da província, teve de efectuar uma aterragem de emergência numa bolanha, corria o ano de 1963.
Permaneceu em cativeiro, trinta longos meses. Foi libertado num gesto de boa-vontade, em 1968 e entregue à Cruz Vermelha Internacional que o fez chegar a Lisboa.
Não esqueceu os tempos maus que por lá passou mas nunca foi alvo de procedimentos vexatórios ou de maus-tratos. Era um prisioneiro de guerra, assim foi considerado e como tal tratado. Nesse aspecto e unicamente reportando-me à Guiné, se alguém teve razões de queixa, não foi seguramente a tropa portuguesa. O próprio Amílcar Cabral nunca se cansou de afirmar que a luta era contra o Regime Colonialista que então detinha o poder em Portugal e nunca contra o povo português.
Entretanto em Fulacunda, procedia-se ao rescaldo da operação. Formadas as Companhias já a meio da tarde, quando se começou a recear que mais ninguém conseguisse regressar, contavam-se os efectivos.
− Seis! Faltavam seis homens! Dois da 1420 (o Alferes Vasco Cardoso e o Soldado-telefonista n.º 1020/64 Armando Leite Marinho) e quatro da 1423 (o 1.° Cabo Fernando de Jesus Alves e os Soldados José Ferreira Araújo, Armando Santos e José Vieira Lauro. (…)
1. Excerto do livro de memórias Rumo a Fulacunda, de Rui Alexandrino Ferreira (2003), pp. 37/40.
2. Comentário do editor L.G.:
Rumo a Fulacunda era o grito de guerra, muito pouco guerreiro, da Companhia de Caçadores 1420, em cujas fileiras ingressou o Alferes Miliciano Rui Ferreira, substituindo um camarada desaparecido em combate, o Vasco Cardoso, nado e criado em Angola, como o Rui.
Neste episódio o Rui reconstitui, com maestria e grande tensão narrativa, as trágicas circunstâncias em que o Alferes Miliciano Vasco Cardoso, à frente de um pequeno grupo de homens, perseguidos durante três dias por um numeroso grupo IN, morreu, depois de ver morrer mais quatro homens… O sexto elemento, o soldado Lauro, rendeu-se e foi feito prisioneiro. Foi o único do grupo que restou, para nos contar esta, que é uma das mais trágicas estórias da guerra da Guiné.
Nota de L.G.:
In Memoriam: Ieró Embaló, o desaparecimento dum Homem de Verdade (Rui A. Ferreira)
Morreu hoje, dia 24 de Novembro de 2009, num Hospital da região da grande Lisboa, onde dias antes fora internado de urgência com problemas cardiovasculares, Ieró Embalo, meu soldado, meu amigo, meu irmão sobre quem um dia escrevi o que se segue destinado aos autos mandados instaurar pelo Ministro da Defesa Nacional de Portugal, no seguimento duma carta em que lhe expunha a situação em que se encontrava com vistas à recuperação na nacionalidade portuguesa que nunca ninguém lhe perguntou se a queria deixar de ter e à atribuição das pensões que lhe eram devidas por ser condecorado com uma da Cruz de Guerra e por ter sido feito prisioneiro de guerra.
Depoimento daquele que foi o primeiro comandante da C.C. 18.
Tomei contacto pela primeira vez com o então soldado Ieró Embaló quando na minha segunda comissão na Guiné, então também Portuguesa, fui, após três meses de permanência na província e no comando da Companhia de Caçadores 2586 do Batalhão 2884, rendido naquela e nomeado por escolha pessoal do também então Governador e comandante-chefe daquele território, General António de Spínola, para ir comandar a Companhia de Caçadores n.º 18, do recrutamento local e da etnia fula na sua quase totalidade, que se encontrava em fase de pré-constituição no Centro de Instrução Militar, em Bolama.
Passava assim certamente por algum mérito próprio mas muito mais pela actuação que tinha tido na anterior comissão onde circunstancias várias que aqui não importa referir mas que me tinham levado ao cometimento de algumas acções de extremo valor operacional que estiveram na base de alguns louvores, citações e inclusivamente ao Prémio Governador da Guiné e à condecoração com a Cruz de Guerra de 1.ª classe, mas que serviram também para que aquele carismático, controverso, mediático, autoritário e incontestado chefe militar em questão logicamente tivesse pensado e decidido dever eu passar a integrar a elite das forças de intervenção da Guiné. Assim eram tidas as tropas africanas, que de certa maneira as compensava pelo redobrar de sacrifícios, suor e sangue, que os mutilados e mortos em combate eram em muito maior escala que a tropa normal oriunda da metrópole, vulgarmente conhecida como a tropa macaca, bem o atestavam.
