A poesia é necessária (Uma memória do Professor Luís de Albuquerque)? Por Carlos Loures

Este texto foi publicado no Estrolabio em 28 de Agosto de 2010

 

 

 

Há vinte anos, em 1990, estava envolvido num projecto editorial, cuja direcção científica era conduzida pelo Professor Luís de Albuquerque, professor catedrático da Universidade de Coimbra, doutor honoris causa pela de Lisboa, figura cimeira na investigação histórica do período dos Descobrimentos, enfim, um grande intelectual, um cidadão exemplar e um homem bom. Foram três anos de convívio intenso, com reuniões todas as quartas-feiras pela manhã, Combinávamos o início do trabalho para as sete da manhã, pois o professor tinha reunião, salvo erro no Palácio Vale Flor, às 9:30 e às 9:15 em ponto vinha um motorista para o transportar. Chegávamos ambos mais cedo, seis e meia, sete menos um quarto. De noite ainda, nos meses de Inverno. Se eu chegava, por exemplo, às sete menos vinte e ele já estava na entrada à minha espera, era recebido com um chocarreiro: -«Então isto é que são horas?»

 

 

 

 

 

 

Nesse ano de 1990, publiquei um livro de poemas «O Cárcere e o Prado Luminoso» e, naturalmente, ofereci-lhe um exemplar dedicado. Era com um longo Poema ecologista (podendo também servir de prefácio) que abria a colectânea. Ironicamente (tentando adoptar o ponto de vista do capitalismo), punha em causa a existência do poeta como elemento útil e acabava propondo que fosse reconvertido e transformado em copyrighter… Pois Luís de Albuquerque escreveu uma réplica a este poema que hoje vos apresento. Guardo ciosamente o original escrito pelo punho do Professor e hoje compartilho convosco a leitura desse texto. Luís de Albuquerque, em plena actividade, presidindo à Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos, foi ceifado por um acidente cardiovascular e faleceu em Janeiro de 1992. Aqui vos deixo a parte inicial do meu poema e, em baixo, o valioso «contraditório» de Luís de Albuquerque., do qual tenho muita saudade.

 

Poema ecologista

 

Vítima de uma certa e cruel

forma de poluição,

de um desgaste acelerado

dos meios naturais,

tal como o bisonte, o castor,

o lince, a cabra selvagem,

o poeta é hoje

um bicho ameaçado de extinção.

A destruição indiscriminada

de elementos essenciais

ao equilíbrio da vida,

a água contaminada, a voragem

que destrói a floresta,

a natureza consumida,

põem em perigo

a existência de muitos animais.

O poeta não se extingue porém

com a dramática violência

da baleia: a fúria utilitária

que se apossou das sociedades,

a súbita transformação

dos cafés em bancos comerciais,

roubaram-lhe o habitat

e ameaçam-lhe a sobrevivência.

Não flutua morto como o peixe

na albufeira da barragem,

entre o pneu velho, o preservativo,

a embalagem perdida,

as garrafas de plástico,

os detritos industriais:

não obedecendo já ao mote,

busca o spot, a «mensagem»

que ajude o pesticida

a matar o peixe e a vender mais

a margarina,

a «promover» o cancerígeno sumo:

aparece uma manhã a boiar

na secretária da agência,

morto heroicamente

ao serviço do consumo.

 

E a resposta de Luís de Albuquerque.

 

Não meu Amigo

O poeta não está em vias de extinção.

O lince, o castor, a foca, o homem

não vão resistir

ao fumo fétido das celuloses

suecas,

aos rios contaminados dos detritos das celuloses

suecas,

aos verdes plásticos

que alastram por prados artificiais,

ao crude.

que faz todo o mar negro, negro.

Mas salvam-se as cabras de Cabo Verde

que se riem dos plásticos

e comem-nos.

E com elas salvam-se os poetas

que sabem viver a angústia

de não haver mais amigos nos cafés, nos jardins, na noite,

e são capazes de fazer poemas de tudo,

mesmo dos plásticos.

E a poesia, meu amigo,

não é nada um péssimo produto;

é o único produto

que anda por aí

e não se adultera.

Para a poesia não é necessária a inspecção,

nem a defesa do consumidor.

Cada um consome a poesia que quer

e se ninguém a quer

a poesia morre e não deixa despojos deletérios.

Por isso,

Os poetas não são bichos em extinção

enquanto a poesia circular,

mesmo que seja em meios pútridos,

enquanto houver alguém que a sorva

como sorve o ar ignorado

de cada manhã irrepetível.

 

Luís de Albuquerque

 

1990.04.05

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