Diário de bordo de 23 de Junho de 2012

 

Há num livro de Henry Miller uma personagem, um homem afectado pelo problema da ejaculação precoce. Para se defender, nos momentos culminantes, evoca a recordação pungente do dia em que lhe bateram à porta para lhe fazer entrega do cadáver da mãe. Os gatos pingados, o caixão, toda essa panóplia de imagens dolorosas, concedem-lhe mais uns minutos até ao clímax, iludindo o ejaculatio praecox e devolvendo-lhe o controlo voluntário sobre o corpo.  “Aplicando el cuento”, quando nos sentirmos optimistas, sabendo-se que neste momento todo o optimismo é sinal de patetice, basta recordarmos o ar de cangalheiro com que o ministro das Finanças nos comunica as más notícias, para a alegria se esvair e a lucidez regressar.

 

A mediocridade desta equipa, assume com Vítor Gaspar a sua face mais risível (se gostarmos de nos rir da nossa infelicidade, claro). O ministro da Finanças veio ontem, com a arrogância pomposa que lhe é peculiar, avisar-nos de que os ensinamentos de Milton Friedman, estão a revelar-se um fracasso. Qualquer leigo perceberia que, numa economia de mercado, cortando subsídios que funcionavam como balões de oxigénio de orçamentos modestos, provocando um efeito de dominó que arrastou milhares de empresas para a falência e aumentou exponencialmente o desemprego, as coisas só podiam poiorar. Qualquer pessoa veria, mas o senhor ministro não viu.

 

A derrapagem nas metas orçamentais ontem por ele anunciada com o ar compungido de quem nos traz a notícia da morte de um ente querido, a quebra da receita fiscal detectada até a 31 de Maio, o aviso de que  “a nossa posição é que não tomaremos a iniciativa de pedir nem mais tempo ou mais dinheiro”, não augura nada de bom.

 

Este governo orgulhoso, não quer dar parte de fraco. Vêm aí mais medidas de austeridade. 

 

Afirma Gaspar: Portugal “está a cumprir todos os objectivos do programa”, a despesa “está sob controlo” e as remunerações estão a cair “mais que o previsto”. Este “triunfo” da terapia do choque, faz lembrar o cirurgião que após uma operação dá uma conferência de imprensa: « Esta intervenção cirúrgica constitui um marco na história das ciências médicas. Infelizmente o paciente morreu».

 

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