Mas se muitas foram as ocasiões e as oportunidades que ao longo de dois anos de intensa actividade operacional permitiram reconhece-lo como um dos melhores combatentes que o solo da Guiné jamais conheceu, duas acções me parecem de especial relevo. A primeira durante a operação “oxigono” em que dois grupos de combate da companhia em missão de contra-penetração emboscavam os itinerários que o PAIGC utilizava para do território da Guiné-Conacri introduzir o armamento, o remuniciamento e os reabastecimentos de que as suas bases operacionais no interior da nossa Guiné necessitavam, se viram confrontados com uma coluna inimiga cujo efectivo excedia em larga escala o número dos que a emboscavam, dispondo de melhor armamento, foi dos primeiros elementos que de pé os afrontou, desnorteou e com absoluto desprezo pela vida se lançou ao assalto, conseguindo com a sua extraordinária coragem, sangue frio, destemor e determinação servir de exemplo e contagiar os seus camaradas que empolgados transformaram o que se poderias ter saldado por uma imensa tragédia para as nossas tropas numa jornada de glória, em que foi capturado um precioso espólio em armamento, no qual se incluíram pela primeira vez na Guiné três foguetões de 122 mm, conhecidos como Órgãos de Staline, RPG´s, e armamento individual, um lote muito valioso de munições das mais variadas armas produzindo ainda pesadas baixas entre a coluna inimiga.
Foi ainda eliminado um importante chefe militar da região. Ainda referente a esta operação é de salientar que foi graças ao seu conhecimento sobre a forma de actuar do inimigo que fazia percorrer no sentido inverso ao que a coluna ia fazer, dois ou mais batedores com a missão de verificar se este percurso estava livre de perigos pela inexistência de tropas emboscadas. Foi assim que estiveram parados a poucos metros da emboscada que montávamos dois guerrilheiros que se sentaram escassos metros à nossa frente num morro de baga-baga, fumaram os seus cachimbos, conversaram e riram sem que da nossa parte tenha ocorrido o mínimo barulho ou qualquer gesto denunciador no que terão constituído seguramente os mais angustiantes e prolongados minutos da minha vida.
A segunda ocasião que me apraz aqui citar aconteceu durante a operação “Muralha Quimérica” onde entre as forças operacionais especiais e de elite da então província da Guiné, comandos metropolitanos e africanos, fuzileiros e pára-quedistas, a Companhia de Caçadores nº 18 teve uma intervenção de extremo valor opondo-se com total firmeza e determinação à passagem do escalão avançado do PAIGC que igualmente em muito maior número, melhor armamento e fortes motivações morais para tudo superar pois faziam a guarda aos investigadores da ONU que na sequência da unilateral proclamação de independência da Guiné reconheciam as zonas que o movimento independentista proclamava como regiões libertadas.
