Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
Onde a Suiça lava mais branco e os europeus ricos querem estar mais limpos – II
(continuação)
- Inquérito UBS –Série Negra
Branquear, de pai para filho
Em 2005, Hansruedi Schumacher deixou o UBS. Os seus gabinetes estão localizados no 32 do Gartenstrasse, a cerca de dez minutos a pé da praça Paradeplatz. O seu novo empregador é o discreto Neue Zürcher Bank (NZB), criado há cinco anos antes. Na sua carteira de clientes está um americano, J. E., cuja mãe mantém, à época, contas no UBS e no NZB. Para recuperar esses fundos, sem levantar suspeitas do fisco, Hansruedi Schumacher propõe a transferência do dinheiro em nome do seu próprio pai…! Cinicamente, só tinha que esperar pela morte do pai Schumacher para repatriar os activos na forma de legados concedidos a JE e a outros membros da família. Nem visto nem conhecido, e mais importante, sem multas, nem impostos. O branqueamento é total.
Mas, mesmo antes de morrer, o pai de Hansruedi Schumacher ainda pode servir. O seu filho, com a ajuda de Matthias Rickenbach, um advogado com um escritório com o mesmo nome, criou uma fundação chamada “Klaerly”. Uma empresa falsa, é o que diz a justiça americana, para a qual J. E. transferiu, em 2005, 7 milhões de dólares. Dois anos depois, foi a vez do pai de Matthias Rickenbach, fundador do estudo e advogado reconhecido em Zurique, dar um impulso a J.E., entregando-lhe 5.000 dólares em dinheiro no aeroporto John F. Kennedy, New York.
Por todo o seu trabalho, Hansruedi Schumacher e Matthias Rickenbach são agora acusados, inter alia, de conspiração contra o Estado norte-americano. Eles podem apanhar até cinco anos de prisão. Porque a acusação descreve outros casos para além deste e bem mais complexos que envolvem outros bancos, como o Julius Baer.
Um perfume na hierarquia
Isto é o que mostra a direcção encurralada agora pelo sistema de justiça dos EUA, apertando os consultores dos clientes dos bancos suíços – UBS e não só – assim como os seus advogados. Não é por acaso que esta peça de acusação foi publicada a 20 de Agosto de 2009, um dia após a conclusão do acordo judicial por Berna para a entrega de 4.450 nomes de clientes do UBS ao fisco americano, o IRS.
O caso Schumacher-Rickenbach também revela que o banco UBS, no verão de 2000, pelo menos na gestão de fortunas para contornar as novas regras QI a serem brevemente impostas criou um grande problema e de tal modo que a instituição pode estar a filtrar com a ilegalidade. A tal ponto que o gestor Schumacher considera o seu banco muito exposto. Desde 2001, ele dirige os seus clientes para o NZB com o argumento de que um banco sem balcões nos Estados Unidos não tem nenhuma chance de ver o IRS andar à sua volta a investigar. A sua atitude cautelosa é reforçada pelo facto de que um rumor estava na altura a circular internamente na UBS. Em suma, corria o rumor de que os analistas do fisco americano estariam na Suíça, para testar a compatibilidade dos bancos locais com os regulamentos americanos QI. Em suma, tudo isto cheira mal. Tempo para o banqueiro Schumacher deixar a venerável instituição e passar a ser, em 2002, o chefe de gestão de activos do NZB. Um cargo que deixou em Julho passado. Depois, como o outro ex-UBS, Raoul Weil, ele prepara agora a sua defesa.
Dentro do banco privado UBS, as nuvens são bem visíveis no horizonte. O alerta soa mesmo ao nível mais elevado. Como o revelou Hassig Lukas Der UBS-Crash (Canoe & Hoffmann, 2009), os sinais de fumaça atingem já em Novembro de 2001 um certo Marcel Rohner, sucessor de Georges Gagnebin à frente da gestão de activos e futuro CEO do UBS (2007-2009).
A 9 de Janeiro de 2002, Marcel Rohner e Georges Gagnebin recebem ainda um outro sinal. Dirigida a Walter Stürzinger, então chefe do departamento avaliação de risco, uma carta adverte: ” muitos serviços que têm sido oferecidos pelos gestores de fortunas aos cidadãos dos EUA a partir da Suíça são problemáticos devido à leitura muito restritiva feita pelo regulador. (…) O banco é potencialmente QI não-conforme para os clientes norte-americanos em questão “, escreveu Franz Zimmermann, um advogado do banco. Mais à frente, fala de discussões futuras sobre um “novo modelo de negócio” para a gestão de fortunas.
Marcel Rohner, também ex-chefe do risco no banco UBS. É impossível não ter percebido o significado das palavras de Franz Zimmermann. E o mesmo raciocínio para uma infinidade de quadros que recebem este aviso, entre os quais três dirigentes bem conhecidos: John Cusack, Martin Liechti e Hansruedi Schumacher.
Permanece um mistério. O advogado-chefe do banco, Peter Kurer, terá ele sabido desta missiva difundida nos diversos andares do UBS? Até agora, nenhum documento há que o certifique. Mas é difícil de acreditar que, dada a sua posição, este perito do direito dos negócios, ex-sócio da empresa Baker & McKenzie e depois membro do gabinete Homburger não tenha sabido destes comentários.
(continua)
