Diário de Bordo de 25 de Junho de 2012

Saber e não saber, ter uma sensação de total sinceridade ao dizer laboriosamente arquitectadas, defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo que são contraditórias e apesar disso acreditando em ambas; usar a  lógica contra a lógica, recusar a moralidade em nome da moralidade, acrditar na impossibilidade da Democracia e que o Partido é o único guardião da Democracia; esquecer tudo quanto for necessário esquecer, trazê-lo à memória prontamente no momento preciso, e depois voltar a esquecer; e acima de tudo, aplicar o próprio processo ao processo. Esta é as uprema subtileza: induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do acto de hipnose que se acaba de realizar. Até para compreender a palavra “duplipensar” se torna necessário usar o duplipensar. (George Orwell – 1984)

 

Hoje, passa mais um aniversário sobre o nascimento de George Orwell (que, na realidade, se chamava Eric Arthur Blair e que nasceu em 25 de Junho de 1903). Temos falado aqui do seu romance 1984, escrito em 1948, e que decorria num mundo de pesadelo em que pensar era duplipensar, e usar expressões que não pertencessem à novilíngua, constituía delito grave. Recordar não era conveniente, pois o passado era todos os dias reconstituído e ajustado aos desígnios do Grande Irmão. Um mundo de pesadelo para milhões de seres humanos – figurantes no sonho do Grande Irmão e seus apaniguados.

 

 

Já aqui dissemos que as utopias sonhadas pelos ditadores, os seus conceitos de perfeição, eram os pesadelos de milhões de pessoas – por exemplo, o Holocausto fazia parte do sonho de uma raça ariana pura. Gestapo. KGB, CIA, Pide, mais não foram do que a tentativa de melhorar o homem, de corrigir os seus desvios, de o castigar por não querer compartilhar o sonho… Estes “argumentos” talvez andassem pela cabeça dos maníacos – todos sabemos que por detrás dos maníacos e das suas utopias, havia homens “pragmáticos” e que usavam a loucura dos caudilhos para fazer o seu negócio.

 

Foi James Truslow Adams, um escritor norte-americano, quem em 1931, quando o furor da depressão económica atingia em cheio os Estados Unidos e na Europa abria caminho a ditaduras e ao horror da guerra, verbalizou o sentimento de optimismo que se queria transmitir a multidões deprimidas pelo desemprego, por uma penúria extrema nunca antes experimentada – The american dream. Face ao pesadelo, restava sonhar. Usou a expressão na sua obra The Epic of America (1931) e logo houve quem a agarrasse como síntese perfeita da filosofia que sustenta o sistema político – plena igualdade de oportunidades que faz depender da determinação, e da competência que cada um atingir, o seu êxito. Todos podem atingir os seus objectivos, todos podem ser ricos, todos podem ser famosos…

Passos Coelho, quando diz que perder o emprego não é necessariamente um mal, por constituir uma oportunidade para mudar de vida, está a embarcar nessa teoria. Porque de uma teoria se trata. A probabilidade estatística de um desempregado vir a ser multimilionário, não será maior do que a de ganhar o primeiro prémio do euromilhões gastando dois euros. O sonho americano foi alastrando pelo mundo.

Os governos dos Estados Unidos, no entanto, não confiam na sorte e, com a ajuda de agências de informação e de organizações humanitárias (por exemplo), vão dando corpo ao sonho através da criação de um pesadelo mundial. O sonho americano ganha forma – a Europa governada por máfias, como na Rússia, ou por bandos de imbecis corruptos, como em Portugal. Sobre este tema, chamamos a atenção para o texto do Professor Viriato Soromenho-Marques que publicanos às 14 horas – “Sonho alheio, nosso pesadelo”.

 

Leave a Reply