EM COMBATE – 101 – por José Brandão

Acontecimentos – Ano 1966

 

 

 

No dia 26 de Agosto, a companhia saiu de Bissau com destino a Mansoa, cidade que fica a 60 km de Bissau. A viagem correu bem, sem incidentes, embora muito perigosa. O quartel não era muito mau, mas os 13 furriéis tiveram que dormir num quarto que, à partida, só devia ser para duas pessoas. Evidentemente, que no dia seguinte fomos procurar alojamento em casas particulares, aquilo a que se chamava quartos civis. Recordo-me do sargento Baião, natural de Évora e que já estava no fim da comissão me ter dito, que naquele quarto, estiveram alojados militares que tinham contraído tuberculose, em virtude de terem participado numa das maiores operações levadas a cabo na Guiné, e que a alimentação estaria longe de ser razoável. Na óptica dele, este teria sido um dos motivos porque contraíram a doença. Embora nos tivesse dito, que estivéssemos descansados, que tudo tinha sido desinfectado, nenhum camarada lá quis dormir, mais do que uma noite.

 

Dia 29 – Emboscada ao 1º Pelotão na estrada de Bissau. Fomos em seu socorro.
Dia 30 – Escolta à ponte de Bráia.

Setembro
Dia 7 – Operação “Vaca” na região de Encheia.
Dia 9 e 14 Golpes de mão à área de Jogudul.
Dia 17 Partida de Mansoa para Bissorã. Segurança ao quartel e ronda ao mesmo.

No dia 20 de Setembro de 1966, o meu pelotão e uma secção de milícias, receberam ordens do capitão Costa Gomes, para ir recolher lenha à mata e trazê-la para o quartel. Tínhamos um mês de Guiné. Éramos aquilo a que se chamava de “periquitos”, por termos pouco tempo de guerra. Estávamos na época das chuvas. Saímos do quartel, a pé para picagem da estrada, pois era uma zona muito perigosa e havia que ter o máximo das cautelas.

 

Da coluna faziam parte duas viaturas para o transporte da lenha, e um Unimog que tinha montado um abrigo, em chapa de ferro, bem grossa, com uma metralhadora, para nos dar apoio, caso viesse a ser necessário, pois quer o apontador da metralhadora, quer o condutor, eram militares já com provas dadas, uma vez que já tinham 17 meses de Guiné, enquanto que nós, tínhamos um mês e ainda não tínhamos dado um único tiro. A coluna deixou a estrada, que tínhamos acabado de picar e embrenhámo-nos no mato. O capim era mais alto do que as viaturas.

 

Andamos cerca de 2 km. Chegados ao local para recolher a lenha, as viaturas começaram a ficar atascadas.

Quanto mais se tentava tirar dali as viaturas, maior era o lodaçal e as baterias das mesmas, cada vez mais fracas, até que deixaram de funcionar.

 

– E agora? Bom, só há uma maneira de sairmos daqui, diz o alferes Manso. E pergunta? – Quem é que se oferece para ir ao quartel buscar baterias?

 

– Eu que me encontrava junto dele, disse-lhe: Vou eu meu alferes. Mal parecia que o não fizesse, uma vez que os outros furriéis, estavam ligeiramente afastados a cuidar da segurança.

 

– Então, está bem. Leve os seus homens e vá. Olhe, Matos! Como já picámos a estrada quando viemos para cá, já não é preciso picá-la novamente, e assim, depressa lá se põe no quartel. Logo no início da marcha, o condutor do Unimog, que por coincidência também se chamava Matos, diz-me:

 

– Ó meu furriel, sente-se aqui ao meu lado, sempre vai um bocadinho mais descansado.

– Não. Eu nunca largo os meus homens, e agora, também não. Sabe, nem me sentia bem eu ir aí montado e os moços a pé. Mas olhe, você é que pode ir andando, e quando chegar ao cruzamento, quando virámos prá qui, o meu amigo espera por nós, e depois, uma vez que já picámos a estrada, é só andar rapidamente para o quartel.

 

– Estava longe de imaginar, que seria a última vez que falava com o moço. O condutor, assim fez. Adiantou-se em relação ao grupo, talvez, não mais de 50 metros. Quando estávamos já muito perto da viatura, sofremos uma emboscada, de que resultou a morte do condutor, o apontador da metralhadora gravemente ferido e um soldado milícia, também ferido, embora este, sem gravidade. Apesar de gravemente ferido, o Cabo apontador da metralhadora, acho até que nunca soube o seu nome. Que falha imperdoável esta! Não admira, era periquito… O moço, ainda fez várias rajadas, até que a arma se encravou. Era uma Breda, daquelas da época da Guerra Mundial. Mal o tiroteio começou, dois ou três milícias foram a correr ao quartel buscar reforços, enquanto que outros, foram ao encontro do alferes e dos restantes camaradas que tinham ficado junto às viaturas, e um ou dois ficaram comigo a responder ao inimigo invisível. Recordo-me de ouvir uma série de obscenidades, ditas pela rapaziada do Norte, pois eram todos Nortenhos. Enquanto eu, revoltado com o que nos tinha acabado de acontecer, gritava bem alto. “Venham cá seus cabrões… filhos da puta”. Eu sei lá…Foi uma sorte eles não terem vindo, senão tinham-nos apanhado à mão. É que eles fizeram o disparo e fugiram. O tiroteio, não durou mais de 2 minutos. Vimos depois o local, donde tinha sido disparado o roket, que vitimou o soldado condutor, Matos. Do outro lado da estrada, a uma distância não superior a cinco metros, entre muitas, havia uma árvore, cujas pernadas faziam uma forca, e foi aí que o inimigo assentou o lança-roket, para mandar a roquetada. Quando os soldados milícias chegaram ao quartel e disseram que morreu o Matos, os camaradas da minha companhia, que não sabiam o nome do condutor, pensaram que se tratava do Furriel Matos. A notícia, rapidamente se propagou como o fogo de um rastilho. Nem queriam acreditar. Efectivamente, também podia ter sido eu, caso me tivesse sentado ao lado do condutor. Mas o destino não quis que isso acontecesse. Quem sabe, até se houve ali a mãozinha da Nossa Senhora da Boa Nova, a padroeira da minha terra. Fosse lá o que fosse, ainda hoje me parece um milagre. Não tinha que ser. Todos os anos, recordo o dia de S. Mateus, por este ser um dia que muito me marcou e continua a marcar na minha vida. Por mais que o tente esquecer, ele vem-me sempre à memória. Acho que a partir daí, comecei a ficar um pouco “apanhado do clima” ou “cacimbado”, como se dizia na Guiné.

 

Passaram cerca de 30 minutos, quando chegaram os reforços. Já tinha acabado o tiroteio. Não faltaram os abraços dos camaradas e palavras de conforto. Por outro lado, chorava-se a morte dum camarada. Ajudado por um ou dois soldados, retirei o ferido de dentro do abrigo da viatura. Com lágrimas de revolta, conjuntamente com os soldados que tinham ficado comigo, começámos a recolher o que foi possível recolher do resto do corpo do infeliz condutor, para as juntar ao que restava no assento da viatura. Que cena horrível e macabra, que jamais poderei esquecer.

Leave a Reply