Onde a Suiça lava mais branco e os europeus ricos querem estar mais limpos – IV
- Inquérito UBS –Série Negra
(continuação)
Despedir os assassinos a prémio
“Emparedar? Uma opção “, exclama um quadro de um banco privado durante uma jornada dos banqueiros que se desenrolou no dia 17 de Setembro de 2009 na cidade de Calvino. Bradley Birkenfeld só tem inimigos entre os seus pares e os nomes de pássaros irrompem por todos os lados quando nos lembramos da sua existência nestes cenários cheios de veludos. Até ao verão de 2008, os media evocam sobretudo animais: a toupeira do fisco, a ovelha cheia de sarna ou a ovelha negra. Com essa mensagem nas entrelinhas: o antigo gestionário de fortunas de UBS é apenas um tipo estranho, isolado, engraçado, não há razão para pânico.
Grave erro, especialmente, tanto quanto se silencia um detalhe cronologicamente de grande importância. O banco UBS contrata Bradley Birkenfeld no final de 2000. Ora, naquela época, o banco já tinha tido contactos com especialistas em pirâmides financeiras para arranjar as montagens fictícias para os seus clientes americanos. Sem mencionar os milhões que investiram nas suas acções “filantrópicas”, em Newport, Verbier ou Miami. Responsabilizar agora apenas este gestor de activos é, portanto, pelo menos um comportamento ligeiro se bem que cómodo.
Enquanto o modelo de negócios de UBS com os seus clientes “não-W9 ” ultrapassava já a linha vermelha, Bradley Birkenfeld usa, é verdade, métodos muito longínquos desse mesmo modelo. Um verdadeiro contrabandista. “Não é muito habitual passar diamantes num tubo de pasta de dentes[1]. As quase totalidades dos gestores respeitam as directivas, mesmo que estas lhes pareçam cada vez mais estranhas a partir de 2007. Mas ele tinha o comportamento de um assassino a soldo “, diz o advogado que defendeu um dos ex-colegas de Birkenfeld nos Estados Unidos.
Ainda assim, na linha do seu chefe para o mercado americano, Martin Liechti, a hierarquia não tem nada a dizer sobre a atitude do americano, nem do seu principal cliente quando ele se instalou nos seus escritórios da UBS em Genebra. Transfuga do Barclays Bank, Bradley Birkenfeld chegou ao banco UBS com o dinheiro do rico Igor Olenicoff e com a sua reputação sulfurosa. Já em 1997, o empresário do imobiliário estava na mira do fisco americano. Impostos atrasados, mas também declarações de rendimento e de riqueza que muitas vezes se aproximam de zero. Na sua defesa, Igor Olenicoff jura que as suas empresas não são as suas! Localizadas em paraísos fiscais como as Bahamas, o fisco americano, o IRS, não teve acesso às suas contas, nem aos nomes dos accionistas. Forbes por seu lado calculou a sua fortuna em cerca de 1,7 mil milhões. A revista Forbes apelidou Igor Olenicoff, como sendo “o milionário de bolsos vazios”.
Curiosamente, o UBS não tem nenhum problema moral em acolher o dinheiro deste homem. Melhor ainda: o banco premeia Birkenfeld com um bónus de entrada de cerca de um milhão. O que leva a que sobre ele se concentrem os olhares de reprovação dos seus colegas em Genebra. Ciúme? Talvez não, mas o lado arrogante do americano não ajudou nada mesmo.
“Cervejas fortes, mulheres fáceis” é a inscrição, sem muita classe, na porta da sua casa em Genebra. Lá fora, o tipo é do jet-set.. Chalet em Zermatt, um carro reluzente de marca alemã. Estamos longe da discrição dos gestores de fortunas na Suíça ou até mesmo do modo de estar que lhe terá sido ensinado na Academia Militar na Norwich University, em Vermont.
Mas isto não é o importante e Igor Olenicoff confia a sua fortuna a Bradley Birkenfeld. No final, calcula o fisco americano, terão sido mais de 200 milhões que estão escondidos pelo banco UBS, para uma economia de impostos na ordem dos 7,6 milhões. Nestas manobras que começam em 2001, Bradley Birkenfeld está associado com um advogado do Liechtenstein, Mario Staggl, um especialista fiscal especialista em montagens fictícias. Acusado pelos tribunais dos EUA, o advogado continua a operar no lado de Vaduz.
Apesar do seu ar de bom vigarista, Bradley Birkenfeld avisou em Maio de 2005 os seus superiores – Marcel Rohner, em primeiro lugar – que as actividades de UBS nos Estados Unidos excedem os limites de aceitabilidade. Sem reacção. Mas porquê de repente estes escrúpulos? Talvez para justificar os seus resultados abaixo das metas estabelecidas pelos seus superiores, resultados que custam a Birkenfeld uma parte dos seus bónus de fim de ano. Incomodado a sério, Bradley levou o seu empregador a tribunal em Genebra e recebeu 500.000 francos suíços de indemnização. Para liquidar as contas, pensava-se na UBS. Nada de mais falso.
Indiferença federal
Com o ressentimento na alma, o americano de facto joga uma aposta bastante forte em Junho de 2007. Sabendo que o seu cliente principal, Igor Olenicoff, estava a ser obstinadamente vigiado pelo fisco americano ele denuncia UBS às autoridades fiscais americanas tendo, debaixo do braço, dezenas de fotocópias que envolviam os seus superiores. Qual o seu objectivo? Tornar-se um informador. Enquanto delator mas a querer obter um estatuto jurídico que lhe permita lavar os seus pecados e também de embolsar, na passagem, 30% do dinheiro evadido que o fisco poderia recuperar. E Birkenfeld bem sabe que estamos a falar de muitos milhões de dólares.
Mas passam a faltar as luvas para o antigo quadro da UBS pois o seu cliente Igor Olenicoff faz uma confissão em Dezembro de 2007. Para aliviar a sua pena e ser condenado por um delito menor, Olenicoff responsabiliza o seu conselheiro, e o verdadeiro alvo das autoridades norte-americanas, o banco que ajudou a esconder a sua fortuna e os seus rendimentos. Desde então, está-se perante uma situação bastante difícil para Bradley Birkenfeld apresentar o seu pedido de perdão com a colaboração por si oferecida ao fisco americano. E tanto mais quanto depois da sua saída de UBS, o americano continua com as suas actividades de gestão de fortunas de Union Charter, uma empresa que ele co-fundou, em Genebra. A equação torna-se pois simples: quanto menos ele balança, menos a pena em jogo – até cinco anos no máximo –será pesada.
Negligência federal
No início de 2008, em Washington, Daniel Reeves, o Inspector de IRS, nem quer acreditar no que está à frente dos seus olhos. O volume do processo UBS é de tal forma volumoso que contém centenas de páginas. Uma colheita sagrada. Há material para ordenar a prisão de Martin Liechti, responsável pela gestão de fortunas no banco UBS nas Américas, aquando da sua passagem pelo aeroporto de Miami em 23 de Abril. Qual o motivo? Para ser ouvido como …testemunha durante três meses.
Na Suíça, é certo, esta prisão abala. A de Bradley Birkenfeld em Maio também. Mas estas informações deixam rapidamente de ser grandes caixas nos jornais. Logicamente assim, porque o banco UBS, o navio de referência do mercado financeiro suíço, está a deixar meter água, muita água mesmo. Uma perda de 19 mil milhões de francos suiços no mercado americano dos produtos (sub-prime), demissão do seu homem forte, Marcel Ospel que renunciou, substituído pelo consultor de banco, Peter Kurer, e supressão de 5500 postos de trabalho, são coisas que se colocam no horizonte para o mês de Julho de 2009. O pedido de assistência judicial feito a Washington em Berna, em 11 de Junho de 2008, passa despercebido enquanto UBS é levada na tormenta da pior crise financeira desde a década de 1930. Este pedido de ajuda tem a ver com mais de 250 clientes do banco, acusados de terem maciçamente utilizado empresas-écrans para burlarem o fisco.
Em 1 de Julho, frente à Comissão de economia e das receitas do Conselho dos Estados, o Vice-Presidente da Confederação Helvética, o radical Hans-Rudolf Merz, tranquiliza os presentes quanto à UBS. Os políticos perguntam-lhe sobre o caso de Birkenfeld e, nomeadamente, sobre este pedido de ajuda vinda dos Estados Unidos. Estóico, o chefe das finanças considera que “a questão entre a justiça americana e a UBS é um assunto privado”. Um refrão que um outro radical, o Presidente Fulvio Pelli, também canta desde há duas semanas: “os processos nos Estados Unidos devem ser resolvidos a nível jurídico, não ao nível político. O que se passa nos Estados Unidos não coloca em perigo o sigilo bancário mas, admite, isto enfraquece o banco UBS.» Eis pois o que preocupa a maioria dos membros da Comissão: será que o grande banco aguenta até ao Outono?
Hoje, sabe-se, a resposta é sim. Graças ao dinheiro do Tesouro Federal e do Banco Nacional Suíço (BNS) que continua a deter 21,5 mil milhões de dólares em activos podres de UBS. No final do Verão 2008 contudo, uma ajuda deste calibre significa o domínio do delírio, do sonho.
Naquela época, na verdade, os dirigentes do banco e do mercado financeiro, o Conselho Federal e aqueles que o rodeiam repetem o que Hans – Rudolf Merz afirmava já aos conselheiros dos Estados: “o UBS é forte, está mesmo sobrecapitalizado. Em meados de Setembro, o Presidente dos banqueiros helvéticos Pierre Mirabaud esclarecia que “UBS está recapitalizado e está suficientemente forte para resistir à tempestade.” Um mês depois, o perito económico dos socialistas em Berna, a conselheira nacional e o antigo chefe do grupo no Parlamento Hildegard Fässler, diziam, também, que na Suíça com o UBS, “estamos numa posição verdadeiramente confortável.” Uma mentira bem perigosa.
A posteriori, este passar em revista é cruel. E é pior para os peritos, para os professores e para os outros media de que uma maioria barra com um certo verniz científico as mensagens tranquilizadoras vindas de Zurique e de Berna. O cúmulo da cegueira foi alcançado em 16 de Outubro de 2008 por um editorialista de Temps e na NZZ am Sonntag, quando as autoridades federais roubaram com a ajuda de UBS milhares de milhões: “deve-se estar a conduzir uma propaganda descarada contra o sistema bancário suíço, quando este tem sido capaz de se reestruturar sozinho, sem o Estado. Esta é uma vantagem que nos trará muito dinheiro, sem ter que reinar o sigilo bancário. Depois disto, Beat Kappeler ficou extasiado.
(continua)
[1] Faz-se aqui referência ao transporte de diamantes para o multimilionário de origem russa e amigo de Boris Ieltsine, Igor Olenicoff, que foi feito por Bradley Birkenfeld. Para esse efeito, este último utilizou uma pasta de dentes cheia de diamantes, apanhada no aeroporto pelo scanner da Polícia.
