Religião para ateus, por ANSELMO BORGES

Este artigo foi publicado no Diário de Notícias de 23 de Junho passado. Ao jornal e ao Anselmo Borges pedimos desculpa pela reprodução do texto aqui no nosso blogue, e pedimos também que aceitem os nossos cumprimentos.

Uma amiga tinha-me oferecido a tradução francesa do livro, com o título: Pequeno guia das religiões para uso dos não crentes. Rapidamente, apareceu também a tradução em português, seguindo o título original: Religion for Atheists. Entretanto, o autor, Alain de Botton, passou por Lisboa, para lançar a obra, que parece ser um êxito.

Alain de Botton assume-se como ateu convicto. Mas é talvez a partir da descrença que melhor se veja os benefícios das religiões, que os ateus deveriam recuperar. Há, de facto, necessidades cruciais sempre presentes, que são a razão das religiões e para as quais a sociedade profana não mostrou capacidade de resposta eficaz: “a necessidade de viver harmoniosamente em comunidade, apesar dos nossos impulsos egoístas e violentos profundamente enraizados” e “a necessidade de enfrentar graus terríveis de sofrimento por causa da nossa vulnerabilidade perante o fracasso profissional, as dificuldades das nossas relações com as pessoas próximas, o desaparecimento dos seres queridos e a nossa própria decrepitude”.


Somos particularmente vulneráveis à solidão. Ora, aí está, por exemplo, a Missa, lugar de encontro de conhecidos e desconhecidos: aí está “a possibilidade rara de saudar um desconhecido sem correr o risco de ser julgado importuno ou louco”. Aí, partilha-se a igualdade: “monarcas e magnatas ajoelham-se e inclinam-se diante da estátua de um carpinteiro”. E, quando os fiéis, numa catedral, entoam o “Gloria in excelsis Deo”, percebe-se que esta multidão é bem diferente das dos centros comerciais: um cântico exaltante que nos leva a pensar que “afinal, a humanidade talvez não seja uma coisa tão miserável”.


No Dia da Expiação, Yom Kipur, os judeus, reunidos na sinagoga, repetirão: “Pecámos, agimos de modo pérfido, roubámos, caluniámos. Agimos de modo obstinado, e mau, e com presunção, fomos violentos, mentimos…”. E é a possibilidade da reconciliação do culpado e da vítima, de quem causou o mal e de quem o padeceu e sofre. É aí também que se situa a confissão católica, com o perdão que chega a partir de Deus e que permite um novo recomeço.


Nas nossas sociedades libertárias, não se tolera repreensões morais, já que a liberdade é considerada a virtude política suprema e cada um deve poder agir à sua vontade. Mas então é o que se sabe e vê. As religiões, porém, são mais realistas em relação ao ser humano e, por isso, sabem dar orientações concretas para os vários domínios da existência. É que, por exemplo, “a insolência e a humilhação afectiva podem ser tão corrosivas como o roubo e o assassínio.”


John Stuart Mill disse que “a finalidade das universidades não é tanto formar magistrados, médicos e engenheiros competentes como formar seres humanos capazes e cultos.” Segundo Matthew Arnold, uma educação cultural autêntica devia inspirar em nós “o amor dos nossos semelhantes, o desejo de dissipar a confusão humana e diminuir a miséria humana” e não devia gerar nada menos do que “a nobre aspiração de deixar o mundo melhor e mais feliz do que o encontrámos”. De facto, a universidade moderna parece quase não se preocupar com inculcar nos seus estudantes “aptidões emocionais ou éticas e, ainda menos, ensiná-los a amar os seus semelhantes e a deixar o mundo mais feliz do que o encontraram.” A razão disso está, segundo Botton, no declínio do ensino das Escrituras: instalou-se a esperança de que “a cultura poderia ser não menos eficaz do que a religião na sua aptidão para guiar, humanizar e consolar.”


Alain de Botton é particularmente sensível à arte sacra e nomeadamente à arquitectura. O feio poderá abençoar a nossa alma? A beleza é “uma versão perceptível da virtude”. O cristianismo não nos deixa qualquer dúvida quanto à finalidade da arte: “é um meio de nos lembrar o que conta”, da ternura à compaixão, da compreensão ao amor e à abertura e encontro com a transcendência.


Aí ficam breves apontamentos sobre um livro belo. Raramente se chamou tão bem a atenção para as dimensões humanizantes das religiões.

10 Comments

  1. Para ser franca, acho esta teoria do Alain de Botton um pouco estranha. Embora ainda não me tenha debruçado em profundidade sobre ela, há pouco tempo vi um vídeo em que ele a desenvolvia e fiquei com um nó na cabeça. Pode ser que dias melhores venham relativamente à sua compreensão.

  2. Ora bem, primeiro escrevi o comentário acima e só depois li o texto que aqui se publica e qualquer coisa dentro de mim deu uma volta. Era ainda muito nova e não resisti, devido à forte curiosidade da juventude, a aceitar o convite que me faziam insistentemente para participar nos tais Cursos de Cristandade (friso que eu já me tinha afastado da Igreja há vários anos e que quem me convidou era uma das pessoas que professavam “essas dimensões humanizantes das religiões. ”). De facto, se não reconhecesse a essa pessoa dimensões humanas positivas, nunca lá teria ido espreitar. Para além disso, o mistério em que era envolvido o que nesses “cursos” se passava, deixava-me “em pulgas” e não resisti. Foi um bom curso, acreditem, e nunca me arrependerei de lá ter ido. Fiquei a perceber como funciona a hierarquia e a hipocrisia classista dentro da Igreja católica. Mostraram-me como a inteligência e a cultura dos poderosos é bem usada no sentido dessa falsa igualdade entre “irmãos” que não resiste para além desses breves períodos de fictícia felicidade cristã. Vi o “durante” e o “depois”. Estraguei o segredo a muitos mas fiquei em paz com a minha consciência. Daí que a teoria de Alain de Botton me deixe todas as dúvidas possíveis.

  3. O título era suficiente para eu não ler o artigo. Foi a minha amiga Augusta que me disse para o ler. Concordo com o comentário da Augusta, mas acho-o ainda muito suave, pois o texto é uma lástima, e a tal teoria é um insulto a qualquer cidadão, muito mais se for ateu. A ideia de que ao ateu falta a nobreza do ser humano, nas suas mais variadas relações e na sua estrtutura individual, social e humanista, pelo facto de ser ateu, é primária, desprezível, nojenta. Sobretudo quando, como faz o texto, se pretende comparar essa falta de nobreza com a fonte de nobreza que brota do obscurantismo, da podridão e da hipocrisia das religiões, muito particularmente da religião católica. E por aqui me fico, para não enjoar. Não li nem lerei este ou outros Alain de Botton, porque prefiro gastar o meu tempo a contar as estrelas num céu coberto de núvens.

  4. Potser és oportuna la lectura d’aquest fragment d’una conversa entre Stephen Hessel i el Dalai-Lama. És el Dalai-Lama qui parla:D.-L: […] si l’on veut atteindre un niveau universel, il faut se placer sur un autre plan, le plan d’une éthique séculière […que] respecte toutes les religions et tout autant les non-croyants, qui ont le droit de continuer à ne pas croire. […]S. H.: Avec ou sans Dieu, nous avons une responsabilité en tant qu’êtres humains, et non plus seulement une responsabilité a l’égard de la famille humaine comme il est dit dans la déclaration de 1948. L’interdépendance dont nous parlons nous concerte tous, croyants et non-croyants. Nous avons cette nouvelle fraternité à exercer envers la nature. Nous n’avons pas été à la hauteur de cette responsabilité. Nous avons été “sauvages” avec la nature. […]D.-L.: […] Je me souviens très clairement, il y a de nombreuses années de cela, d’un pasteur allemand qui, un jour où j’abordais ce sujet de l’éthique séculière dans une conférence, m’a contrecarré: “Toute éthique doit être fondée sur la religion.” J’ai retrouvé ce point de vue chez un dels mes amis, musulman; à ses yeux, il n’y avait pas non plus d’éthique sans religion. S’il en était ainsi, on ne pourrait pas envisager un enseignement destiné aussi bien aux croyants qu’aux non-croyants, et donc universel. Par ailleurs, je crois qu’il est possible de développer des qualités humaines comme la compassion, la tolérance et l’intégrité même sans foi, sur la base de valeurs qui ne découlent pas nécessairement de la religion. Je qualifie ces valeurs universelles d’éthique séculière. […] Je le répète: l’esprit peut s’aborder de deux manières: à un niveau religieux, de l’ordre de la foi – et qui ne sera donc pas universel – et a un autre niveau, plus fondamental, universel, propre à tous – l’esprit tel qu’il s’inscrit dans notre corps, qui est propre à tous les humains […]Referència: Dalaï-Lama & Stéphane Hessel: Déclarons la paix! Pour un progrès de l’esprit. Indigene éditions. Montpellier, abril 2012.

  5. Sinceramente, não posso deixar de dizer isto: não ao padre Anselmo Borges que se deve pedir desculpa pela reprodução do texto, mas aos leitores do blogue. Este texto tem afirmações inacreditáveis como, por exemplo, dizer que a multidão que está nas missas é bem diferente da dos centros comerciais … só se for pela primeira estar hipnotizada e os outros estarem em movimento. De facto, não vale a pena pormo-nos a analisar frase a frase porque qualquer uma serve para “excomungar” este texto, como aquela que diz “Aí, partilha-se a igualdade: “monarcas e magnatas ajoelham-se e inclinam-se diante da estátua de um carpinteiro”. Absolutamente risível!

  6. És curiosa -per utilitzar un terme amable- l’afirmació que l’escassa i difícil presència dels valors d’una ètica universal en tots els àmbits de l’educació és deguda a la decadència de l’ensenyament de les Escriptures. Aquest punt de vista, tan miop (tan integrista), té, dissortadament, un bon nombre d’adeptes al món occidental, fins i tot en les nacions que blasmen els sistemes de creences d’altres països i els consideren “fonamentalistes”, sense adonar-se del propi “fonamentalisme”. (No han sabut llegir en l’Escriptura allò de “veure la palla en l’ull de l’altre i no veure la biga en el propi ull”.) Potser hi ha hagut altres factors, però si alguna cosa ha contribuït a una insuficient presència de l’ètica a les aules o fins i tot al seu rebuig, ha estat el fet que les religions s’hagin apropiat dels valors intrínsecs a la dignitat humana i n’hagin fet patrimoni exclusiu. La societat, i amb especial intensitat a partir de la Revolució francesa i de totes les dinàmiques que va desfermar i que ens van llegar les formidables convulsions socials i ideològiques dels segles XIX i XX, ha reclamat, insistentment i radicalment, la propietat d’uns principis ètics universals. I, curiosament, en aquesta defensa ha hagut d’enfrontar-se a les institucions i a les persones que pretesament defensen aquesta mateixos valors, però que ho fan des d’estructures de poder i ideològiques de tipus eclesial i des de sistemes de creences basats en la confessionalitat, i que, per tant, els consideren patrimoni exclusiu i excloent. Un patrimoni sobre el qual se sosté la seva estructura de poder i d’influència social. Aquesta patrimonialització exclusiva dels valors –que és fruit d’una apropiació- considera inviable la pretensió de defensar-los des d’altres posicions i, especialment, des de posicions no creients o des de l’universalisme i l’humanisme. (Els mites clàssics ja ens parlen del càstig a qui va gosar robar el foc dels déus.) Però és aquesta secular patrimonialització exclusiva per part dels sistemes confessionals allò que ha alimentat, en la societat, la idea que l’ètica és patrimoni de la religió i, per tant, incompatible amb els principis de la laïcitat.No té res a veure, per tant, amb la decadència de “l’ensenyament de les Escriptures”.

  7. Como criação humana, o que impressiona é a facilidade com que as religiões, institucionalizadas, em particular as de afirmação monoteísta duma Verdade única, se esquecem e afastam das “dimensões humanizantes”, e das pessoas.Crer que a ética é intrinsecamente de natureza religiosa, e não pode ter existência fora daquelas é germinal do mesmo totalitarismo integrista que tem conduzido a não considerar sentido na vida dos não crentes e a pensar os incréus como indignos, sobre quem os abusos são permitidos, porque “não gente” que não pode ser salva.Abençoadas as palavras do Dalai Lama em boa hora transcritas pelo Josep.

  8. É caso para dizer: Graças a Deus que este texto chegou aqui;)) De vez em quando fazem falta escritos destes para lançar a discussão sobre o que é dado por adquirido por muita gente para quem tudo o que a Igreja afirma constitui lei incontestável.

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