EM COMBATE – 102 – por José Brandão

Nunca senti que a linha da vida, tivesse estado tão perto da morte. Não há vez nenhuma, que veja a fotografia da viatura acidentada, toda a fumegar, que não imagine ali o pobre do soldado Matos, cortado ao meio pelo roket, que as lágrimas não me rolem pela cara abaixo. É muito difícil a gente esquecer-se de uma situação destas, mesmo que já tenham passado várias décadas. Será que sou diferente dos outros? Parece-me que não, pois tenho, cabeça, tronco e membros como os outros. Enfim, seja lá o que for. Finalmente, procedeu-se ao reboque da viatura inutilizada, que o seu condutor tinha baptizado com o nome de “Paulucha”. Nunca cheguei a averiguar o porquê deste nome. Seria em homenagem a um seu ente querido? Talvez.

 

Seguidamente, fomos recolher as viaturas que tinham ficado a cerca de 2 km, mas já em incidentes. Foi assim, o meu baptismo de fogo. Foi logo pra doer, e bater bem no fundo.

 

Dia 22 – Emboscada à saída de Bissorã para Mansoa. 5 guerrilheiros inimigos mortos com armas abandonadas. A 816 levantou duas minas. Um milícia morto.
Noite de 22 para 23 de Setembro. Golpe de mão à área de Jogudul.

Dia 25 – Saída de Mansoa para Bissau.

 

Outubro

Dia 9 – Coluna e escolta de Bissau para Mansoa, Bissorã e Olossato com passagem pela ponte Maqué. Viaturas e muita lama. Operação a Jracunda.
Dia 10 – Saída de Olossato. Emboscada. Passagem por Bissorã, Mansoa, Safim, Nhacra e Bissau.
Dia 24 – 1º Grupo de combate vai para Massabá, 3º para Bissorã e o 2º para Olossato. Construção da ponte de Maqué.
Dia 25 – Dormida no abrigo da ponte de Maqué. Muitos mosquitos e vinho.
Dia 26 – Saída de Olossato para Bissau. Bissorã, Mansoa, sem picagem de estrada por ser noite. Chegada a Bissau às 22 horas.

Novembro
Dia 30 – Saída de Bissau para Ingoré do 2º Pelotão. Passagem por Safim, João Alandim, Cacheu, Bula, S. Vicente e Ingoré.

Dezembro
Dia 2 – Verificação e montagem de armadilhas na fronteira.
Dia 4 – Patrulhamentos na zona de Carabana Cherie.
Dia 6 – Chegada da companhia a Ingoré. 2º Grupo de combate emboscado até às 20.30 horas e jantar às 22 horas.
Dia 8 – 1º pelotão vai para Barro. 5 guerrilheiros mortos. Uma Mauser automática apreendida.
Dia 10 – Picagem da estrada ate ao Sedengal. Há noite emboscados na pista.
Dia 13 – Patrulhamento à zona de Carabana Balanta. Dois guerrilheiros presos no acampamento de Naga.
Dia 15 – Patrulhamento à zona de Carabana Balanta.
Dia 17 – Emboscados na estrada do Sedengal.
Dia 20 – Montagem e verificação de armadilhas. Emboscados na pista.
Dia 22 – Emboscada desde as 4 da manhã às 15 horas. Fome e calor.
Dia 24 – Dia de Natal. Festa de despedida da 788. Ronda ao quartel. Bebedeiras em Ingoré.
Dia 28 – Faço anos a 28 de Dezembro e neste dia fiz 22 anos. Mas, a guerra é a guerra. E, neste dia, a companhia foi fazer uma operação junto à fronteira do Senegal tendo sido baptizada com o nome de “Dragão”.

 

Diz-se que fizemos 5 mortos ao inimigo, nunca os vimos, mas diz-se, enquanto que, da nossa parte, apenas um soldado nativo levou um tiro na boca, tendo sido evacuado para Bissau. Que sorte a dele e que acontecimento raro, dizia-mos nós uns para os outros.

 

Dia 30 e 31 – Emboscados na pista e ponte de Ingoré.

 

 

Ao fundo – ponte de Ingoré

 

 

 

 

 

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