Subscrevi o Manifesto do Movimento Sem Emprego.

Por Júlio Marques Mota

 

A todos os desempregados, tenham ou não assinado o Manifesto do Movimento Sem Emprego, dedico este conjunto de peças, a saber: 1.  Quando o povo se revolta; 2. Na Europa, o desemprego juvenil explode; 3.  Falências bancárias: os indignados levam à justiça os financeiros e os políticos e, por fim, um texto  apresentado na Câmara dos Lordes na Inglaterra, a Declaração de John Eatwell,  e tomando como referência as politicas de austeridade que lá, como cá também,  estão a ser duramente aplicadas e a atacar de forma altamente violenta o futuro da própria Inglaterra.  Quanto aos dois  últimos textos  sugiro que os desempregados os possam apresentar directamente  ao Presidente da República, exigindo-lhe dois tipos de debate nacional sob a sua égide: um  quanto às politicas de saneamento financeiro e de criminalização dos responsáveis pelos dinheiros esfumados que agora teremos todos de pagar e um outro debate quanto às políticas de austeridade que ele, como Presidente, tem sancionado. Para o efeito não vale a pena chamar nenhum dos ignorantes em Economia que compõem o actual executivo, desde Álvaro Santos Pereira a Gaspar, pelo Expresso assim chamado, e muito menos ao licenciado de tempos livres que assume o cargo de Primeiro-Ministro. Do ponto de vista económico este último texto fala por si, e tem a vantagem de ser um texto vindo de um país por onde o nosso Presidente se andou a doutorar.


Contrariamente ao que dizem dele, o nosso Presidente pode assim mostrar claramente os seus conhecimentos actuais nesta área, a Economia, contrariamente aos nomes anteriormente citados que ou, nunca devem ter aprendido, como é o caso do nosso primeiro-ministro, ou de tudo o que bem aprenderam, e foi muito,  desavergonhadamente se fazem esquecidos, como é o caso do ministro da economia, meu antigo aluno, ou pior ainda, por mais tenebroso poder vir a ser, como é o caso do ministro de Gaspar assim chamado, pois está a querer-se transformar num Nero menor do século XXI, deitando fogo à economia do país, até porque Gaspar entende que o mundo tem que se adequar ao seu modelo de visão da realidade mesmo que esta sua visão não tenha nada a ver com o próprio mundo. Por isso a ignorância assumida deste ministro poderá vir a ser bem pior que a dos outros personagens citados , uma vez que face aos desajustamentos sucessivos entre a realidade e o “seu mundo de autista” haverá então que torcer a realidade, isto é a vida de todos nós, para que a realidade se ajuste então ao seu modelo, à sua visão do mundo. É o que Gaspar, pelo Expresso assim designado, tem vindo a fazer, política de austeridade sobre política de austeridade, até encontrar as contas do seu equilíbrio “mental” ou orçamental, sei lá. Como a cada pacote de medidas a economia real cai ainda mais, as receitas públicas caem então fortemente e a conclusão dele é imediata: as medidas de austeridade não foram suficientemente fortes para poder obter os resultados desejados. E a sua consequência óbvia é então, mais política de austeridade. E a sequência continua, até nós deixarmos!    

 

Por mero acaso, hoje, deparo-me com um texto fabuloso sobre as políticas de austeridade na Inglaterra, na Europa, algures, assinado por um grande economista inglês, John Eatwell, hoje membro da Câmara dos Lordes, na Inglaterra e actualmente Presidente do  Queens’ College em  Cambridge. Por este texto passa fundamentalmente o problema que vai levar milhares de jovens à rua no dia 30 de Junho. Por isso a todos eles, aos que subscreveram o manifesto, aos que ainda o não subscreveram e aos desempregados que não o subscreverão por ignorância, dedico o esforço feito com toda esta peça de reflexão sobre o momento que passa. 


Um texto que com uma clareza espantosa mostra à evidência a desonestidade intelectual dos neoliberais a governar em Londres, em Lisboa, em Madrid e sobretudo em Berlim e Bruxelas. Com este texto, mostra-se à evidência o absurdo das políticas de austeridade impostas por Bruxelas e Berlim e desejadas por fiéis servos dos mercados de capitais e de um modelo de sociedade, caracterizado por um neoliberalismo puro e duro que à democracia vira as costas sistematicamente.


No documento em presença questiona-se como é que os estados terão dinheiro para refinanciar o FMI, terão dinheiro para refinanciar a banca e não têm dinheiro para financiar o futuro do respectivo país, investindo principalmente na criação de emprego e na formação séria da sua juventude, o nosso futuro, afinal. Mais grave ainda em plena crise a contracção do investimento público a que praticamente todos os países têm sido obrigados a praticar levará a baixar o ritmo do PIB potencial no futuro, a capacidade produtiva dos dias de amanhã, com efeitos negativos a serem criados sobre as despesas, sobre os rendimentos, sobre as receitas dos respectivos Estados. Por outro lado, com o crescimento das taxas de juro já a nível usurário será a dívida também ela  a crescer. Deste modo, está assim  criada uma situação de efeito de bola de neve em período de crise, ou seja, em que pagamos cada vez mais e deveremos ainda cada vez mais, em que   cada vez teremos menos emprego e mesmo menos produção para o poder fazer, menos possibilidade de pagar, portanto. Basta olhar para a situação portuguesa para percebermos bem o respectivo texto.


Devemos responsabilizar os responsáveis por tudo o que se está a passar  e do meu ponto de vista pessoal a responsabilidade maior passa por Bruxelas que decidiu optar  por servir os mercados de capitais e não as populações, não os povos europeus, não o seu projecto, e em que estes  são assim apanhados numa situação de tenaz, por um lado com os mercados e a sua ganância, por outro com as autoridades europeias e os seus valetes nacionais com uma extrema vontade em os servir e neste conjunto de valetes estão claramente Álvaro Santos Pereira, Gaspar, Passos Coelhos e tantos outros da mesma estirpe que em lugares bem remunerados  estão colocados, desde o banco de Portugal à Caixa Geral dos Depósitos, para citar apenas dois casos. 


Eatwell chama a atenção para a diferença entre o final da segunda grande guerra, com os ratio da dívida pública bem superiores aos de hoje e mesmo assim homens com coragem, com o verdadeiro sentido de servirem o seu povo, reconstruiram a Europa, criaram sistemas nacionais de saúde, criaram sistemas de ensino condigno, criaram situações de reforma na velhice, tudo o que os senhores no poder andam agora apressadamente a destruir, em nome das políticas de austeridade, em nome da necessidade de pagar aos mercados o que estes lhes exigem. Se nessa altura estivessem à frente os homens como Durão Barroso, David Cameron, Rajoy, Passos Coelho, Merkle e outras figuras do mesmo calibre estaríamos possivelmente quase ao nível da barbárie, quase ao nível da idade da pedra, tal é a violência por todos eles mostrada para destruir a Europa social que levou décadas a construir.


Aos desempregados de ontem, de hoje e de amanhã também se não se contrariar fortemente a aplicação das medidas de austeridade, à  juventude de hoje e a todos os que com ela estão nesta hora amarga,  para todos,  alguns  textos a exigirem profunda reflexão aqui vos deixo.


E boa leitura.


Júlio Marques Mota

 

(continua amanhã, à mesma hora)

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