Companhia de Artilharia 1688
GUINÉ
1967-1969
A CArt 1688 pertence ao Batalhão de Artilharia 1913, que teve como unidade mobilizadora o Regimento da Artilharia Pesada 2 de Vila Nova de Gaia, sendo constituída por pessoal mobilizado da região a norte do Douro e arredores do grande Porto, na sua maioria.
A concentração para a formação do Batalhão começou a efectuar-se em 4 de Janeiro de 1967, a fim ser ministrada a especialidade de atiradores.
Entre 4 de Janeiro e 27 de Fevereiro, por um pequeno período de 5 dias, a Companhia deslocou-se, em caminhada nocturna, para o Aquartelamento da Carreira de tiro em Espinho onde ali permaneceu efectuando tiro de G3 com alvo, sem alvo e em progressão.
Treinou-se também o tiro de bazuca com disparos em direcção ao areal.
Procurou-se mentalizar todo o soldado a dar o melhor do seu esforço na aprendizagem ministrada.
Em 27 de Fevereiro de 1967 a Companhia deslocou-se para Viana do Castelo a fim de tomar parte do IAO que terminou em 7 de Abril de 1967, após duas semanas de acampamento na Serra de Agra.
Esta dose dupla ficou a dever-se a alterações na ordem de embarque de tropas para o Ultramar dado o incêndio na Serra de Sintra onde morreram vários militares de um contingente que se encontrava prestes a embarcar.
Após o gozo de licença das normas militares, a 25 de Abril de 1967 após a cerimónia de entrega de Guiões e desfile na cidade de Viana, em comboio, que eu quase considerava mais próprio para transporte de animais do que de seres humanos, de noite (como que à sucapa) embarcámos rumo a Lisboa onde se chegou de madrugada ao Cais de Alcântara.
TERÁ VALIDO A PENA TANTO ESFORÇO E SOFRIMENTO?
Bissau, surgiu aos nossos olhos, no cair da noite de 1 de Maio de 1967, quando o “Uíge”, no meio da foz do Rio Geba, ancorou. Não poderia atracar porque o porto comercial não permitia pelas suas condições o ancoradouro de navios de grande porte.
As luzes da iluminação pública de Bissau, pareciam as de uma aldeia grande da Metrópole, só se destacando o reclame luminoso da Casa Gouveia.
Entretanto, começaram as várias companhias, que durante seis dias atravessaram o Atlântico a bordo do “Uíge”, a desembarcar para batelões e rio Geba acima, seguiram aos seus destinos.
Só a nossa Companhia ali permaneceu chegando a ordem de desembarque só no dia 2, rumo ao Aquartelamento designado por “600” onde ficámos a aguardar o nosso destino final.
As nossas cabeças, pouco ou nada politizadas, quase tendo sido lavadas cerebralmente, esperavam encontrar anúncios e publicidade da CUF.
Só e apenas aqueles que tiveram acesso ao ensino superior, ou aqueles poucos que detinham levemente noções politicas que lhes chegavam por via da divulgação à sucapa clandestina do Avante, sabiam que o esforço que ali, este punhado de jovens lusitanos, se propunham oferecer à Pátria, não era mais do que defender e contribuir para o crescimento do grupo CUF.
Ao fim e ao cabo, era a continuação e manutenção de uma escravatura encapotada.
A Guiné, sempre foi uma zona ou região que sofreu logo no início dos séculos XIII e XIV a pressão do povo
MANDÈ
Por via disso ainda hoje o litoral tem hábitos muito diferentes dos do interior.
Foram os MANDINGAS e os FULAS, que ao se espalharem pelo território da Guiné-Bissau já pelo séc. XIX que criaram raízes e hábitos que ainda hoje persistem.
Depois de várias vicissitudes, tomadas de posição, a posição dos portugueses e espanhóis foi fortalecida pelas divisões internas, permitindo o alargamento do comércio de escravos.
Tendo Portugal aderido ao fim do comércio de escravos, e com o afastamento dos espanhóis Portugal procurou sedimentar a sua influência naquela região o que nunca conseguiu totalmente.
Depois de uma certa acalmia provocada pela atitude do Cap. Teixeira Pinto, a pacificação tomou uma certa organização e entendimento generalizado.
Com a devida autorização do governo da Metrópole, o Grupo CUF assegura o monopólio de todo o comércio externo da Guiné. Isto não era mais do que a continuidade de uma escravatura de um povo, nas suas terras, que tudo quanto produziam era encaminhado para os Postos Comercias da Casa Gouveia (parecia mal ao mundo ser tudo CUF) e tudo quanto o povo nativo necessitava para se alimentar ou vestir ou outros de lazer, eram provenientes da CUF e vendidos a peso de ouro nos vários Postos da Casa Gouveia.
Era tudo isto que esta juventude, vinha defender. Em nome da Pátria, morrer se necessário.
Terá valido a pena? Julgo que não. Só ficou a camaradagem dos momentos difíceis a amizade que permaneceu ao longo dos anos e ainda floresce.
Publicada por Escrivão Mor


