EM COMBATE – 107 – por José Brandão

 

BULA – TREINO OPERACIONAL

 

Desembarcados em 2 de Maio de 1967, permanecemos em Bissau, instalados no “600” e em 5 daquele mês, numa sexta-feira, o nosso pelotão (o terceiro) arrancou em coluna militar pela estrada de João Landim, em direcção a Bula; nesse mesmo dia, efectuámos uma patrulha em redor de Bula.
Passo a resumir a actividade do 3º Pelotão durante esse período (Treino Operacional):
Em 6 – Sábado – Escolta a S. Vicente (sem contactos)
Em 8 – Segunda – Efectuámos escolta a recolha de cibos e à noite saída nocturna em redor de Bula;
Em 9 – Terça – Experimentámos as armas na bolanha próximo de Bula e à noite, nesse mesmo local efectuámos uma emboscada, sem resultados
Em 10 – Efectuámos ronda em redor de Bula;
Em 12 – Patrulhamento de cerca de 18 km;
Em 15 – Patrulha às tabancas nos arredores de Bula;
Em 18 – Quinta-feira – Colaborámos na operação conjunta com outros pelotões à zona do Queré onde sofremos um ataque, e ocorreu o Baptismo de Fogo do 3º Pelotão – o primeiro baptismo da Companhia; – Contacto na zona de Late, a leste de Encheia.
Em 19 – Efectuámos segurança em S. Vicente à coluna de transporte de cibos para o aquartelamento de Naga
Em 22 e 23 – Emboscada em Binar (segurança)
Em 25 e 26 – Operação a zona de Binar
Em 28 – Escolta à recolha de lenha na estrada de Có
Em 29 – Patrulhamento na estrada e zona de Có
Em 30 – Ronda em Bula
Em 1 de Junho de 1967 – Recolha de cibos na estrada de Binar
Em 2/06 – Picou-se e estrada para S Vicente bem como a Pista da avioneta em Bula.

Entre 1 e 7 de Junho a CArt 1688, com excepção do 3º Pelotão, deslocou-se por Binar para Biambi assegurando aquele sector em substituição do CCAV 1485
O 3º Pelotão, no dia 4 de Junho ( Domingo) deslocou-se para Encheia
Este foi o Treino Operacional dispensado à CArt e teve lugar no sector de Bula, entre 5 de Maio e 7 de Junho de 1967

 

ENCHEIA E SUAS CARACTERÍSTICAS

 

No nosso tempo, Encheia, era uma pequena localidade à beira do Rio Mansoa, com três casas comerciais, um Chefe de Posto com mais ou menos 6 a 8 cipaios, cujas famílias dispunham de habitações dentro do arame farpado.

 

Existia uma casa de pedra e cal, onde residia o Chefe de Posto, nativo, no qual não tínhamos grande confiança, um antigo armazém de recolha de produtos destinados à Casa Gouveia e que funcionava como camarata de alguns militares; um antigo Posto médico onde estavam instalados o Alferes, um sargento e três furriéis. Tudo o resto era improvisado.

 

Não havia luz eléctrica, existiam nos quatro cantos do aquartelamento uns petromaxs que se ligavam de noite; os soldados estavam instalados numa arrecadação ampla onde existia o posto médico e arrecadação de mantimentos, um pequeno abrigo junto à saída para a pista um outro do outro extremo e alguns soldados instalaram-se em antigas pocilgas e galinheiros.

 

Em resumo; este aquartelamento funcionava como posto avançado de Biambi, não oferecia condições de segurança, e só um exemplar desempenho de psico, permitiu passarmos cerca de seis meses sem qualquer ataque ao aquartelamento, o que só veio a acontecer quando para ali se deslocou uma Companhia, a render o 3º Pelotão.

 

Só quando os fuzileiros patrulhavam o rio Mansoa e pernoitavam em Encheia, nos sentíamos seguros pelo menos do lado do rio. Estas situações ficavam-nos caras pois tínhamos que lhes fornecer pão fresco e por vezes algumas bebidas.

 

 

 

As Casas comerciais existentes na época eram:

 

O Velho Naim, e o Danif (bastante mais novo); ambos libaneses: o primeiro, homem talvez com mais de 70 anos, radicado há muito na Guiné, vivia com uma nativa, e jogava com um pau de dois bicos; o Danif, era um aventureiro que quando rebentou a guerra no Médio Oriente, abandonou tudo para ir em defesa do Líbano. O Danif quando foi embora foi substituído por um outro, português, que levou para lá uma cabo-verdiana pela qual se perdeu de amores, tendo feitio um desfalque e incendiado o estabelecimento. Foi preso e levado para Bissau.

 

Como seria de esperar esta Casa Comercial era pertença da CUF com a designação de Casa Gouveia.
Havia ainda uma outra casa comercial, sita em frente da casa do Naim, dum nativo, leproso e que praticamente só negociava em cachaça

 

Para terminar esta minha pequena introdução sobre Encheia, resta acrescentar que o nosso Alferes, num determinado dia, deu ordem de prisão ao Chefe de Posto, chamou a Encheia elementos da PIDE e o homem lá foi detido, parece que recambiado para os Bijagós, sob prisão.

 

Mais tarde, os furriéis pelo seguro foram pernoitar para os abrigos, um gerador foi instalado mesmo ao pé do abrigo da minha secção (o tal que os Leões Negros, dizem que se abateu num determinado dia roído pelas formigas baga-baga)

 

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