MUNDO CÃO – A ESTRATÉGIA DO ENGANO – por José Goulão

A 18ª cimeira europeia em 30 meses, média elevada imposta pelos ritmos da chamada “crise do euro” e correspondente incapacidade dos dirigentes dos países da União Europeia, às ordens da senhora Merkel, decorreu como se esperava. Até nos atritos existentes – nada de grave, diga-se – que só na aparência podem parecer surpreendentes.

Os participantes falaram agora muito de crescimento e emprego. Está na moda, entrou a martelo nos discursos redondos daquelas conferências de imprensa quadradas em que se repete o conveniente óbvio até se transformar em mensagens mastigadas embaladas nos telejornais pré-cozinhados e deglutidas como comida de plástico.

O que decidiu então a cimeira para fazer crescer as economias e criar emprego? Por de lado uma quantia de 120 mil milhões de euros, verba astronómica pensará o incauto obrigado a sobreviver com algumas centenas de euros, quando recebe. Uma ninharia, uns trocos se tivermos em conta que uma verba dessas é um riacho comparado com o rio caudaloso de dinheiro que escorre para os cofres dos bancos e para actividades especulativas, ou para  os sacos manipulados pelas troikas deste mundo que transformam as dívidas dos países em paraísos de agiotagem, crescendo sem fim enquanto são austeramente “combatidas”.

Uma verba de 120 mil milhões para uma região onde existem 25 milhões de desempregados, muitas economias em recessão, algumas em coma garantido por muitos anos, e canalização obrigatória dos dinheiros públicos para pagar dívidas que continuam a subir. Só nos últimos dia a Espanha pediu 100 mil milhões para dar de comer aos bancos privados sem tratar de impedir que estes continuem a fazer o que lhes apetece. Em dois resgates foram destinados 220 mil milhões à Grécia sabendo-se que este país, há cinco anos mergulhado na recessão, vai continuar submerso por tempo indeterminado, até o povo rebentar de vez com as amarras. Para Portugal são enviados, até ver, 78 mil milhões – sabendo-se que só em juros os portugueses vão ter de pagar pelo menos 38 mil milhões à troika. Juntemos-lhe o resgate da Irlanda e verificaremos, assim em contas muito por alto, que nessas ditas “ajudas” já vão mais de 500 mil milhões, valendo os chamados “mecanismos de estabilização” para “apoio” aos países mais endividados pelo menos outros 500 mil milhões.

O que representam então 120 mil milhões num universo de 25 mil milhões de desempregados para investir “no crescimento e em emprego” comparados com mil milhões destinados a alimentar dívidas, tudo isto em ambiente que continuará a ser dominado pela austeridade? Sim, porque a senhora Merkel não deixou que se abrandasse um pouco que seja a austeridade, contando com isso com o rapidamente conquistado apoio do senhor Hollande, o novo e socialista presidente francês. Bastaram-lhe os tais 120 mil milhões destinados ao “crescimento” para se render à austeridade que tanto condenou até ser eleito. Quem bateu um pouco o pé à senhora Merkel foi o senhor Monti, por ela colocado à frente do governo de Itália, sem eleições, agora aflito porque os especuladores de mercados que ele tanto protege decidiram concentrar-se na dívida italiana. O senhor Monti conseguiu na cimeira que o tal “mecanismo de estabilização” injectasse dinheiro em Itália para moderar um pouco os especuladores; deixou então de bater o pé e tudo ficou na paz do Senhor, neste caso a paz podre da senhora chanceler alemã.

A cimeira europeia de fim de Junho em Bruxelas entrará para a História como a da “viragem” para o “combate ao desemprego”, mantendo-se a austeridade, crescendo a dívida… aumentando o desemprego. Isto porque o tal pacote de 120 mil milhões, além de ter colada a chancela da ineficácia ainda tem como contrapartida a liberalização absoluta dos mercados de trabalho, isto é, aumento do desemprego e do trabalho sem direitos.

 

Enfim, mais uma cimeira de enganos produzida por desqualificados dirigentes políticos e servida por arautos da propaganda disfarçados de meios de informação.

 

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