Uma série, Uma viagem ao mundo da alta finança.

Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

(continuação)

4. Bancos Suiços – O fim dos anos casino – II

 

Cyril Jost

 

 

Em menos de três anos, as coisas mudaram dramaticamente. Sob a impulsão de Patrick Odier, Presidente de ASB desde Setembro de 2009, os bancos tem escolhido a via pragmática: renunciar aos activos não declarados e concluir rapidamente acordos visando a regularizar o passado. O acordo dito  Rubik possibilita – por exemplo no caso da Alemanha que já o assinou, mas onde ainda não foi  ratificado – permite o levantamento de uma taxa liberatória na fonte e de 25% sobre o capital anteriormente dissimulado.


O que é poderá provocar uma fuga maciça de capitais para fora da Suíça, como o previa  Ivan Pictet? Não é isto o que pensa hoje o SBA. “Nós perderemos talvez alguns capitais, especialmente no quadro da regularização da gestão de activos, mas isso não é uma mudança no modelo de negócios, disse Patrick Odier. Os clientes estão especialmente gratos porque se lhes oferece uma solução para os regularizar “.


Este discurso optimista, pode ser encontrado em todos os que trabalharam para impor Rubik junto dos banqueiros. A começar pelo Conselheiro Federal responsável das Finanças, Eveline Widmer-Schlumpf, que comentou o recente enfraquecimento da importância do sector financeiro no PIB: “a baixa (entre 2007 e 2010 ) ocorreu quando os bancos podiam ainda gerir o dinheiro não declarado. Com a estratégia de dinheiro limpo, estou convencido de que poderemos mudar noutra direcção. “

 

Alfredo Gysi, CEO da BSI (ex-Banco da Suíça Italiana) e iniciador do projecto Rubik, refere-se à experiência feita aquando da amnistia fiscal italiana em 2009: “Espero perdas especialmente no segmento dos pequenos depósitos, que irão regressar ao seu próprio país. Pelo contrário, as famílias ricas continuar a permanecer na Suíça. “

 

 

Nada foi ainda jogado. Como explicar essa expectativa, enquanto os banqueiros suíços gritam alto e bom som, até há muito pouco tempo, que em caso de desaparecimento do sigilo bancário uma pessoa rica poderia facilmente movimentar o seu dinheiro para outro paraíso fiscal utilizando, por exemplo, o sistema anglo-saxónico de trust?

 

“Estou convencido de que o sector financeiro possa continuar a crescer.”

 

“O mundo mudou em muito pouco tempo”, insiste Patrick Odier. As normas da OCDE já são aplicáveis em todo o mundo. Para Alfredo Gysi, “haverá sempre menos alternativas, pois todos estarão em pé de igualdade.” Quanto ao trust utilizado como uma ferramenta virtual para proteger a sua herança, “isto já deixou de funcionar.”


No entanto, está tudo ainda muito incerto. A ABS, na documentação que acompanha o acordo liberatório Rubik entre a Suíça e a Alemanha, estima que “é difícil fazer previsões” sobre futuras transferências de activos para o exterior. Em 2009, Helvea tinha estudado o impacto provável do cumprimento pela Suíça com as normas internacionais em matéria de tributação de bens.

 

O cenário optimista prevê uma perda de 10% dos activos europeus no UBS e no Credit Suisse e de 20% para as instituições menores. O cenário pessimista, este previa uma redução de 50% dos fundos nos grandes bancos e de 75% entre os menores. “Eu não sei se Rubik é realmente uma boa ideia, disse Hans Geiger, professor emérito da Suíça Banking Institute, da Universidade de Zurique. Quando falo com peritos fiscais ou advogados, eu percebi que eles têm muitas dúvidas. “Oficialmente, todo o sector bancário está completamente atrás de Rubik. Mas, em privado, os interlocutores são muito mais prudentes.


A tudo isto se acresce também uma outra grande incógnita: nada indica que Rubik evitará a prazo que a União Europeia venha a impor a troca automática de informações, o que é visto pelos banqueiros helvéticos como a pior das violações ao sigilo bancário. Evocar este tema o é assunto um tabu dentro da profissão. Mas visto do estrangeiro Rubik é visto para muitos, como um combate de rectaguarda.

 

Recentemente, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, mas também o Comissário Europeu da Fiscalidade Algirdas Semeta, exprimiram-se publicamente contra Rubik. E o acordo com Berlim, que supostamente deve passar no parlamento alemão no início do próximo ano, poderá ter de ser renegociado devido à oposição dos deputados sociais- democratas.

 

(continua)

 

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