
Entre 1851 e 1871, ocupando diversas pastas em vários governos, foi neste último ano nomeado primeiro-ministro António Maria Fontes Pereira de Melo(1818-1887). Em mais dois governos, ocupou o mesmo lugar de chefe do Governo até 1887. Pertencendo ao Partido Regenerador, foi, como se pode ver por estas datas, uma personagem que ao longo de quase quatro décadas esteve na ribalta da cena política. A sua política de fomento, de desenvolvimento das obras públicas, nomeadamente das comunicações, ficou conhecida por «fontismo».
Foi o alvo preferido do humor cáustico de Bordalo Pinheiro que, inclusivamente, deu o seu nome a uma das suas revistas «O António Maria». Porquê, esta fixação do genial artista?
No seu editorial de apresentação, «O António Maria» afirmava-se como independente. Dizia «ser oposição declarada e franca aos governos, e oposição aberta e sistemática às oposições». Digam-me lá se esta não é precisamente uma posição lúcida e que, nos dias de hoje, faria todo o sentido? O que não sabemos é se haveria poder de encaixe para aceitar uma revista que se chamasse «Passo de Coelho»…
Há semanas atrás, o nosso Vasco de Castro, pintor, cartoonista e escritor, dizia-me que pela primeira vez, desde há muitos anos, não existe em Portugal um jornal humorístico. E Vasco teve o cuidado de especificar que não se referia ao humor que faz rir, mas ao humor que nos leva a meditar. O seu humor, aliás, inteligente e, por vezes, agressivo, corrosivo. Na realidade, mesmo durante a ditadura do Estado Novo, houve pelo menos dois jornais de sátira política e social – Os Ridículos e o Sempre Fixe. A questão que se coloca é: a ausência de esse tipo de imprensa corresponde a uma alteração no gosto do público? Não acredito que assim seja – o sentido de humor, estará um pouco globalizado, condicionado pelas graçolas americanas dos reality shows, mas não desapareceu.
Ponhamos a questão noutro ângulo – será que, desaparecida a ditadura, a graça política deixou de fazer sentido? Não. Por um lado, durante a ditadura, o humor estava submetido ao parecer da Censura, pelo que tinha de ser construído na base do duplo sentido. Quanto à oportunidade do humor, parece-nos maior do que nunca – os governos democráticos fornecem temas em catadupas – as personagens em foco permitem a criação de um bestiário de grande potencial humorístico.
Uma última hipótese – a televisão, as redes sociais, os blogues, roubaram território à imprensa humorística – na sociedade actual, o jornal consagrado ao humor não se ajusta. Não. Em países mais industrializados, com maior poder compra e, portanto, mais distantes desses tempos áureos da imprensa humorística, essa imprensa subsiste. E cito apenas um caso – Le Canard Enchainé – um semanário parisiense, com um tiragem de quase 500 mil exemplares. Fundado em 1915 é um dos mais antigos jornais franceses. Segundo julgo saber, apenas interompeu a publicação durante a a ocupação alemã.
A “Grande Porca”, como Rafael designava a política e a classe que dela vive, precisa, mais do que nunca de ser flagelada. Havemos de voltar a este tema.
