Diário de bordo de 7 de Julho de 2012

 

Desconseguir é um verbo criado em Moçambique. O significado é evidente. A maioria dos dicionários não o regista, salvo alguns dos mais recentes, como o de Houaiss. Na sua simplicidade, envolve toda uma filosofia de aceitação das limitações, uma autocrítica benigna. Usa-se muito na primeira pessoa do singular – Desconsegui! responde-nos alguém a quem se pediu um favor, a quem se encarregou de um recado ou mesmo quem se distribuiu uma tarefa.

 

Este governo está a desconseguir tudo aquilo a que se propôs. Uma maioria dos votos expressos nas últimas eleições e que representa uma minoria do eleitorado, conduziu ao poder um partido que apenas mereceu o voto positivo de 2 159 742 votos num universo de 9 624 133 eleitores. Dir-se-á – “todos os governos são eleitos da mesma forma”. É verdade. Mas alguma coisa está mal quando menos de 60% dos cidadãos eleitores  participa num acto que se transformou na única ocasião em que a vontade democrática do povo se faz ouvir. Diríamos que, ao permitir que sucessivos governos constituídos por gente como a que está em S. Bento, o sistema democrático desconseguiu.

 

No fundo, somos nós todos que desconseguimos.

 

Mesmo apupando, vaiando o presidente da República (expressão máxima do patético desconseguimento nacional) ou assobiando Passos Coelho, é a nós mesmos que, como povo soberano, não fomos capazes de conseguir encontrar representantes da nossa vontade colectiva, é a nós mesmos, dizíamos, que estamos a vaiar. Deixámos que uma pandilha de aldrabões, uma cáfila de trafulhas, um bando de patifes, se alcandorasse aos postos cimeiros da governação. E na “oposição responsável” está já a marinar uma equipa de estofo semelhante. Vamos deixar que isso aconteça? Vamos mais uma vez desconseguir?

 

 

 

 

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