EM COMBATE – 114 – por José Brandão

Emboscada Nocturna no Olossato.

 

A 21 de Agosto de 1969, o 3.º pelotão foi incumbido de fazer a protecção nocturna do aquartelamento. Todos os dias era escalonado um grupo de combate para fazer o patrulhamento nocturno aos arredores do quartel, com a conjugação de emboscadas nos locais de possível infiltração do inimigo com intuito de desencadearem ataques às nossas instalações. Neste dia coube-me a mim e ao meu grupo essa missão. O patrulhamento nocturno não era propriamente uma pêra doce.

 

Especialmente em dias sem lua, não se via um palmo diante do nariz, os mosquitos atacavam de noite sem que pudéssemos utilizar os habituais repelentes pelo seu intenso cheiro que poderia ser detectado, isto sem contar com o vício dos fumadores que desesperavam por não poder acender os cigarros, pela luminosidade e cheiro que produziam, denunciando a nossa posição ao inimigo. A experiência que já possuíamos nesta altura tinha demonstrado que, nas deslocações diurnas, o inimigo tinha vantagem porque conhecia perfeitamente o terreno e, nas deslocações, podiam perfeitamente dispersar-se para melhor nos combater, visto as nossas tropas se deslocarem invariavelmente unidas e em fila. Éramos pois um alvo facilmente detectável e muito simples de emboscar. Nas deslocações nocturnas o inimigo já não tinha vantagem em se dispersar, com receio de dispararem uns contra os outros, em contrapartida as nossas tropas, que continuavam a movimentar-se em fila, quando detectava o inimigo podia facilmente orientar o seu fogo na direcção correcta e com toda a sua intensidade.

 

Senão vejamos, só no primeiro ataque a Có o inimigo se deslocou de noite para nos atacar pela manhã, enquanto em todos os outros cinco ataques, a deslocação foi feita de dia para efectuarem os ataques ao anoitecer. Eu, se fosse o inimigo, procederia da mesma forma, se verificasse que as tropas portuguesas patrulhavam os arredores do aquartelamento durante a noite. Em conclusão, esta nossa forma de actuação era dura para quem saía, mas era segura para quem descansava no quartel. Assim, neste dia, pelas 19,30 horas, já noite, o 3.º grupo de combate detectou a aproximação de um grupo inimigo, avaliado em cerca de 20 elementos, armados de Lança Granadas Foguete, Morteiro 60 e várias armas automáticas, que caiu na nossa emboscada, sendo violentamente atacado pelas nossas tropas.

 

A surpresa do ataque, não permitiu ao inimigo qualquer tipo de reacção efectiva, sendo-lhe feita uma perseguição imediata onde, em debandada, abandonou no terreno 1 LGF RPG-2, 3 granadas de LGF RPG-2, 1 Pistola-metralhadora PPSH, 50 cartuchos de PPSH e 50 cartuchos de espingarda. O inimigo sofreu dois mortos e vários feridos, tendo as nossas tropas sofrido unicamente um ferido ligeiro. Como a perseguição durante a noite não era muito eficiente e tornava-se até perigosa, porque a certa altura já não se sabia quem era turra ou milícia, pedi ao quartel que efectuasse fogo de morteiro pesado para a posição do contacto, ao mesmo tempo que fazíamos uma retirada rápida do local para não apanharmos com as granadas em cima. O tiro de morteiro do quartel mostrou-se muito certeiro e eficiente, não deixando ao inimigo qualquer vontade em regressar. Devido à pouca visibilidade, só no dia seguinte de manhã, um grupo de milícias encontrou no terreno a restante parte do material abandonado pelo inimigo e se pôde avaliar com mais rigor o resultado do confronto da noite anterior. Análise recente feita a esta operação: Devo confessar que, na altura, julguei que aquele grupo IN se deslocava no terreno com destino a outras paragens.

 

Já durante a compilação dos factos mais importantes da companhia, que deram origem à publicação do livro “Memórias de Campanha de CCaç 2402”, dei pela particularidade dos ataques aos aquartelamentos coincidirem com ausências do nosso comandante de companhia, poderíamos tirar proveito da estratégia do inimigo, simulando uma ausência e emboscando o inimigo com todo o potencial que tivéssemos disponível.

 

 

Leave a Reply