Selecção, tradução e introdução de Júlio Marques Mota
Nota de leitura
Na longa série sobre a Europa às portas da morte defendemos a tese, aparentemente estranha, de que esta situação pode já não estar a servir para ninguém, nem mesmo para os países nórdicos que depois de nos prenderem para durante muitos anos, verificam agora que também se estão a prender a eles próprios, defende-se também a ideia que há por aqui um crime organizado pelas Instituições Regionais e Internacionais como o BCE, a Comissão Europeia, o FMI e pelo seu braço armado, a Troika. Trata-se, no nosso ponto de vista, de um crime planeado e aplicado sobre todo o continente através das ferramentas do modelo neoliberal de que resultam diversas quadraturas do círculo. Hoje, precisamente, deparamo-nos com dois textos que, de certa maneira, vão no mesmo sentido, dois textos, cada um deles de um prémio Nobel, Krugman e Stiglitz, pelo que os colocamos imediatamente à disposição dos viajantes que seguem os trajectos da nossa barca, nesta Viagem dos Argonautas.
Júlio Marques Mota
O BCE deseja morrer
Paul Krugman
O euro pode ser salvo? Não é fácil. Eu acho que o problema do euro envolve três níveis: bancos em grandes dificuldades a que se sobrepõe a problemática da dívida pública e a esta também se sobrepõe um profundo problema de competitividade criado pelos movimentos de saída dos capitais entre 2000 e 2007. Salvar o euro requer que haja um resgate credível da banca, uma suficiente intervenção sobre os títulos da dívida pública espanhola e italiana para manter os rendimentos geríveis e uma taxa de inflação suficientemente alta na Alemanha de modo a evitar que o Sul venha a enfrentar a necessidade de uma deflação, o que é já impossível.
Eu não espero que a Europa venha a aceitar todo este programa ao mesmo tempo. Mas que façam basicamente o mais importante para evitar que a crise venha a explodir, mas para isso precisamos de acção suficiente dos decisores políticos para dar esperança de que uma solução se está já a construir e assim tranquilizar os mercados.
Então o que o BCE faz hoje? O mínimo possível. Mesmo em Frankfurt, acho que eles perceberam que não reduzir as taxas significaria que estaríamos completamente à beira da crise total; mas não houve nenhum esforço para caminhar para além da curva, nenhuma mensagem sobre o muito mais que está por fazer, que deve ser anunciado.
E com certeza, o rendimento dos títulos está-se a mover para a zona do colapso total.
O euro deve ser salvo. E agora tenho dúvidas que o queiram na verdade fazer, que o queiram na verdade salvar.
Paul Krugman, ECB Death Wish, 6 de Julho de 2012.
Nota de Tradução.
Dois gráficos da Bloomberg sobre os títulos da dívida pública a dez anos, o primeiro sobre Espanha, o segundo sobre Portugal. Elucidativos.


