“A Vida dos Sons”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (III) – por Álvaro José Ferreira

4ª e última parte

 

 

10. Edição do álbum “Cantaremos”, de Adriano Correia de Oliveira; é o primeiro disco de Adriano que conta com a colaboração de José Niza, que assina a música de três temas, um sobre poema da galega Rosalía de Castro (“Cantar de Emigração e dois sobre poemas de António Gedeão (“Fala do Homem Nascido”e “Lágrima de Preta” ; completam o alinhamento duas recriações do cancioneiro açoriano, com arranjos de Carlos Alberto Moniz (“O Sol Préguntou à Lua” e “Sapateia”, três canções sobre poemas de Manuel Alegre (“Saudade, Pedra e Espada”, “Canção Para o Meu Amor Não se Perder no Mercado da Concorrência” e a sublime “Canção com Lágrimas”), e ainda “Cantar Para Um Pastor” (poema de Matilde Rosa Araújo), “Como Hei-de Amar Serenamente” (poema de Fernando Assis Pacheco) e “A Noite dos Poetas” (poema de António Barahona da Fonseca); a voz cristalina e melodiosa de Adriano Correia de Oliveira cantando alguns dos mais belos espécimes da poesia portuguesa e o magistral acompanhamento da viola de Rui Pato fazem de “Cantaremos” um dos mais preciosos tesouros do nosso património discográfico;

 
 
 
 
 
 
 

 

11. Edição do álbum “Traz Outro Amigo Também”, de José Afonso; gravado em Londres, nos Estúdios Pye, com Carlos Correia (Bóris), na viola, em substituição de Rui Pato (que estava impedido pela PIDE de sair do país), e Filipe Sousa Colaço, na segunda viola e pandeireta, o disco é, nas palavras de Viriato Teles, «um imenso poema de fraternidade a que não falta a raiva de quem se sabe cercado; uma raiva que tem a sua expressão mais evidente nas interpretações de “Os Eunucos” (cuidadosamente subintitulado “No Reino da Etiópia”) e do soberbo e angustiante poema de Jorge de Sena, “Epígrafe para a Arte de Furtar”»; este é o registo de José Afonso em que surgem, pela primeira vez e de forma explícita, as referências a África, mais concretamente a Moçambique (onde leccionou durante três anos), em “Avenida de Angola” e “Carta a Miguel Djéjé”; além do tema-título, “Traz Outro Amigo Também”, e das belas recriações do cancioneiro tradicional “Maria Faia” e “Moda do Entrudo”, merecem ainda destaque: “Canto Moço”, “Canção do Desterro (Emigrantes)”, “Verdes São os Campos” (a terceira visitação do cantor à lírica camoniana) e a belíssima “Cantiga do Monte” .

 

 

 
 
 
 
 
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Todos (ou quase todos) estes itens podiam ser devidamente ilustrados, ora com registos do arquivo da RDP (entrevistas, adaptações de peças de teatro e de obras romanescas, recitações de poemas, etc.) ora, no caso de repertório musical, com gravações discográficas.

 

Não cabia tudo em 50 minutos? Problema nada difícil de resolver: em vez de uma única edição (lacunar, espartilhada e cinzenta), façam duas – mais completas, desafogadas e variegadas.

Renova-se o pedido: deseja-se que “A Vida dos Sons” seja menos cinzenta e mais multicolor.
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