Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 78 – por Manuela Degerine

Um Café na Internet

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

George Sand no equilíbrio da vida

 

 

É uma mulher de género novo. Quer criar os filhos, ser escritora e dona da sua vida, a personalidade leva-a a transgredir, saltar barreiras, passar os limites, não só nos romances publicados, mas também por abandonar o marido, adotar um pseudónimo masculino, vestir roupa de homem, colecionar os amantes, aderir à revolução… Para tal não bastava ser baronesa, nem descendente de Maurice de Saxe, o que pode algumas vezes, de certos pontos de vista, ter ajudado, cumpria sobretudo ser senhora de energia, talento, teimosia e generosidade colossais.

 

 

“Diário Íntimo”, editado pela Antígona em 2004, numa tradução de Carla da Silva Pereira, junta vários textos autobiográficos que George Sand escreveu ao longo de trinta e cinco anos. A leitura destas cento e cinquenta páginas é uma lição de vida. Em 1834 vemo-la desejar a morte, após a rutura com Alfred de Musset, dominada pela monomania da paixão. Os amigos dão-lhe conselhos contrários. Delacroix: “Quando eu próprio me sinto assim, não me deixo tomar pelo orgulho; não nasci romano. Entrego-me ao meu desespero” (p. 49). Sainte-Beuve: “disse que precisava de me distrair”. (pp. 53-54). Ela adota enfim uma estratégia para provar a boa conduta: “Longe de mim os mariolas; quero ver artistas: Liszt, Delacroix, Berlioz, Meyerbeer. Não sei quantos mais ainda. Serei um homem entre os homens.” Acrescenta, mais adiante: “Trabalharei, sairei, tudo farei para me distrair, para me escudar contra o desespero, o mais funesto conselheiro que existe e, quando tiver conduzido esta vida íntegra e cauta o tempo suficiente para provar que sou capaz, irei ao teu encontro e pedir-te-ei, ó meu amor, um aperto de mão” (p. 69). No entanto logo volta a recair: “A hora da minha morte está prestes a soar.”
 

George Sand não é contudo mulher que morra de amor e, em 1837, durante o verão em Nohant, já aprendeu a saborear o “hic et nunc”: “Magnífico dia. Sol esplêndido, soberania da cor.” (p.88) E, a seguir: “Estás vivo. A questão não é saber se é para teu prazer ou para a tua infelicidade, para teu bem ou para a tua desgraça. Quem o poderia decidir? Estás vivo, respiras. O céu é belíssimo” (p. 89). (George Sand fala a si mesma no masculino.)

 

Quando Liszt e Madame d’Agoult lhe fazem companhia, ouve o pianista, admira Madame d’Agoult, analisa a sua própria relação com um pássaro caído do ninho: “Por que é que este animalzinho te parece tão adorável?” (p. 118) Um mês depois define a conduta que gostaria de seguir: analisar as causas “acidentais e quotidianas” das crises, cuidar da saúde física para não fragilizar a psíquica, ser clemente, ser modesta, ser paciente…
 

“Diário Íntimo” conclui-se com um texto de 1868 no qual George Sand, com sessenta e quatro anos, faz o balanço do presente.

 

“Graças a um qualquer capricho do destino, sinto-me muito melhor de saúde, mais forte e mais ágil do que nos tempos da juventude; ando mais a pé, passo melhor a noite – tenho noites óptimas e por isso me levanto sem esforço. Conservei-me macia como uma luva. Os meus olhos já não enxergam as coisas; tenho de usar óculos e encontrei um par que me permite distinguir entre as ervas e a areia os pequenos objectos de história natural que são o meu regalo. Banho-me na água gelada e corrente com um prazer supremo, nunca me constipo. Já nem me lembro de ter reumatismo. Preenche-me uma calma absoluta, uma velhice tão casta de espírito como o é no procedimento diário; nenhum remorso de juventude, nenhuma ambição de glória, nenhum desejo de dinheiro, à excepção do que espero deixar aos meus filhos e netos. Sem dissabores relativamente aos amigos. Um único desgosto: o género humano, cada vez pior, as sociedades que parecem virar costas ao progresso, mas quem sabe o que esconde tal atonia?” (p.158)

 

Concluímos a leitura deste “Diário Íntimo” mais confiantes nas nossas capacidades. A Roda da Fortuna pode não girar de modo favorável, os sentimentos dos outros não se harmonizarem com os nossos, o corpo não nos acompanhar, o espírito ainda menos, muito depende todavia de nós: da nossa atenção, da nossa teimosia, da nossa coragem, do nosso equilíbrio, da nossa transigência (ou intransigência), da nossa capacidade para aprender com erros, vitórias, limites, frustrações… E talvez cheguemos ao tempo dos balanços, que é oficialmente a idade da reforma, com a calma, a vitalidade e a curiosidade que lemos neste texto de George Sand. Vale a pena tentarmos.

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