E quando a ignorância parece ter-se transformado em profundo conhecimento, por Júlio Marques Mota

Em tempos numa aula de Finanças Internacionais projectei uma tabela da OCDE com taxas de câmbio com cerca  de 30 países relativamente ao dólar e entre estes estavam todos os países da zona euro.


Muitas taxas de câmbio. Chamo um aluno ao quadro e depois de ele me explicar que cada uma daquelas taxas representava a quantidade de moeda nacional por unidade dólar, disparei-lhe uma pergunta demasiado simples, para ser considerada pergunta: Mas há tantos países com a mesma taxa de câmbio face ao dólar! Não acha que haverá aí engano? E  em vez de alguma irritação comigo pois não seria pergunta que se fizesse, uma vez todos estes países com a mesma taxa de câmbio tinham a mesma taxa de câmbio face ao dólar porque tinham a mesma moeda, o euro, a resposta deixou-me a mim, assim como  a toda a turma, completamente siderados. E a resposta foi: também acho que há engano. Tentei  acarinhar o aluno em questão, aproveitei para mostrar a todos o custo brutal de Bolonha, que é o de fazer de cada Universidade uma fábrica de ignorantes,  e ao messo tempo aproveitar  a situação  para sugerir algumas leituras de base para o aluno não cometer erros como aquele.


Anos mais tarde, na semana passada, escrevi um texto longo, muito longo, sobre a zona euro, sobre a Europa à beira da morte, onde em termos de síntese minimalista, se dizia que na zona euro se alimenta a ideia de que de um momento para outro poderemos ter tantas as moedas quantos os países considerados, ou mais ainda, haverá neste contexto de crise e no imaginário das pessoas potencialmente tantas taxas de câmbio quantos os spreads verificados face au Euro alemão. Olhemos para a tabela enviada diariamente pelo nosso amigo Mário Nuti :

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10-year spreads

 

 

 

 

 

 

 

Previous day

Yesterday

This Morning

France

1.047

1.023

1.019

Italy

4.530

4.750

4.751

Spain

5.316

5.386

5.490

Portugal

9.418

9.410

9.747

Greece

24.186

23.971

#VALUE!

Ireland

4.994

5.001

5.409

Belgium

1.484

1.532

1.533

Bund Yield

1.271

1.25

1.249

 

 

 

 

 

De uma noite em que deitamos sossegados podemos na manhã seguinte ficar bem desfalcados, roubados, sem saber por quem. No nosso texto afirmava-se:  

 

 

“Hoje parece não haver dúvidas de que já houve uma corrida aos bancos na Grécia, de que está a haver uma caminhada aos bancos em  Espanha e em Portugal a caminharem para a Alemanha ou para outras zonas relativamente mais abrigadas, os países que na zona euro têm  estado ao abrigo da crise da dívida pública. Ignorando por agora a aquisição de títulos da dívida alemã, temos aqui um fenómeno curioso. Os depósitos fogem dos países ditos agora periféricos, fogem para o centro, para os bancos privados destes países que os colocam junto dos bancos centrais nacionais. Estes por seu lado colocam-nos junto do BCE que por seu lado os empresta aos bancos centrais da periferia. Aparentemente nada dizer excepto que há por aqui um vasto terreno a ser minado. Os capitais ao fugirem de Portugal, Espanha ou Itália, ficam ao abrigo dos bancos alemães que desse ponto de vista estão duplamente garantidos, garantidos da falência dos bancos, garantidos do risco cambial, pois que se ruptura da zona euro vier a existir, a nova moeda em que venha a ser transpostos, convertidos, , novos marco por exemplo, não serão desvalorizado mas antes valorizado face à moeda nacional do país de origem que a ser criada será imediatamente desvalorizada. Sendo verdade este quadro, não há bela sem senão, pois neste caso é o Bundesbank que está a funcionar de refinanciador em última instância do próprio BCE e em último caso é o Bundesbank que fica a arder em caso de incumprimento. É assim que se compreende a exigência da União Europeia, do BCE, de que se podem admitir todos os esforços possíveis aos povos europeus para pagarem a crise mas nunca aos bancos que sofram os efeitos das suas próprias  políticas, porque em caso de incumprimento quer dos Estados quer dos Bancos quem poderá, em última instância, vir a apagar é o Bundesbank, é a Alemanha! É assim que se compreendem todos os jogos de chantagem que foram feitos sobre a Irlanda, sobre a Islândia,  etc.   

 

E depois acrescentámos:

 

De uma forma agregada  vejamos então a evolução das responsabilidades dos PIIGS face ao BCE, vejamos o aumento das disponibilidades alemãs sobre o BCE.

 


 

Não há pois dúvidas que a complicar mais a situação de crise, estamos perante uma hemorragia de meios das economias mais fragilizadas para as mais fortes. Acredito que apenas uma crise forçará a que se dê uma mudança radical. A centelha mais provável: a corrida aos bancos em grande escala num ou mais dos países agora vergonhosamente apelidados de  PIIGS.  Este é um final comum para uniões monetárias e pode já ter começado. A Grécia tem estado sujeita a constantes saídas de fundos. Uma corrida aos bancos pode já ter começado em Espanha e é desta realidade que nos falam os gráficos acima.   Podemos ir um pouco mais longe e ver por onde é que outros portos, outros países, outros paraísos fiscais, jogam nesta dinâmica e lembremo-nos de Setembro último, da enorme fuga de capitais para a Suíça, fora da zona euro portanto, que levou o governo suíço a intervir garantindo uma taxa limite de 1,20 CHF por euro e juros de portagem, ou seja taxas de juro negativas, o mesmo é dizer, a representar o custo de estarem a proteger  a fortuna de quem transferia o dinheiro para a Suiça, à procura de porto de abrigo. Mas isto significou  exactamente uma escalada, uma fuga da zona euro para um porto de abrigo, já não em euros, já sem o perigo da ruptura da própria zona. Vejamos então graficamente a evolução das disponibilidades sobre o BCE, logo de depósitos em euros feitos junto do BCE, exactamente pela lógica acima:  os euros fogem para a Suíça e não me  estou a lembrar das malas cheias de dinheiro a fugirem para a Suíça de que falaram o Público e o Expresso, são convertidos em francos suíços, os bancos nacionais suíços colocam os euros junto do Banco Nacional da Suíça e este deposita-os junto do BCE. O carrocel a que nos referíamos acima. “

 

Hoje o Financial Times em artigos conexos chama-nos a atenção para um documento do Crédit Suisse em que a situação de Espanha é ilustrada  pelo seguinte gráfico quando à fuga de capitais :

 

 

 

Neste gráfico  mostra-se   que a fuga de capitais à procura de euros mais fiáveis, de outros portos de abrigo, que não Madrid,  é  terrível, fogem a uma taxa anualizada de 50% do PIB,  e trata-se da fuga de  euros de residentes espanhóis depositados em Madrid, ou de euros de outros países que estavam convertidos em títulos  de Espanha , todos eles  a deixar a Espanha exangue quanto a capitais e a consequência que  disso é imediata é que paga quem não pode fugir, ou seja, é  o povo espanhol quem  paga e para isso, Rajoy,   para saciar os capitais,  aumenta e sob pressão da Comissão Europeia as políticas de austeridade ainda mais, enviando a Espanha para um suicídio político.   A Espanha está  claramente a perder a sua liberdade, situação que podemos representar pelo cartoon abaixo:

 

 

 

E tudo isto se passa num país que tem  uma taxa de desemprego de 25% e com uma taxa de desemprego nos jovens dos 16 aos 25 anos de 50% e com a procura agregada em perfeita queda!! Se não é crime contra a Humanidade o que é então?  Mais austeridade significa mais recessão, menos receitas, mais défice, menos emprego e compreende-se a posição do Credit Suisse em que se afirma, o que deixamos em inglês: “a matter of time before the Spanish banking bailout will need to be extended to a full Spanish sovereign bailout”.

 

E o meu aluno de então, de ignorante que era mostrou, talvez, que sabia bem mais do que nós! Eram, não, não, são afinal moedas todas elas diferentes com o mesmo nome e que raio de União Monetária, é esta, então?  E, para já, e por tudo isto, ainda há a capacidade de gritar.

 

 

 

 

Coimbra, 14 de Julho de 2012.

 

Júlio Marques Mota

 

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