O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.
Um texto a partir de um outro, de Fabius Maximus de 6 de Junho de 2012
(continuação)
2. E quanto à acção mágica do Banco Central?
Vejamos em síntese o que nos diz o Presidente do mais importante banco central nacional do sistema europeu, o Bundesbank. Diz-nos este, como relata o le Monde: “o New York Times relatou as observações feitas pelo Presidente do “Buba” numa uma reunião em Berlim. “Seria fatal eliminar completamente o impacto disciplinar das taxas de juros,” pregou Jens Weidmann, acrescentando: “Quando os Estados começaram a pagar mais cada vez mais caro para obter um crédito para fazerem face aos seus compromissos, aos seus prazos, então endividarem-se torna-se cada vez menos atraente para eles.”
A primeira fase do castigo é a degradação da dívida pública pelas agências de rating. Segue-se um aumento da taxa de juros que um Estado deve sofrer, deve pagar, para vender a sua dívida no mercado. Se estiver muito mal, a remuneração exigida pelos investidores para subscreverem os empréstimos desse Estado em dificuldade torna-se insuportável. Estes foram os casos da Grécia, da irlanda, de Portugal, está já a ser o caso da Espanha e da Itália também, em que os três primeiros, punição das punições já nem sequer vão aos mercados, e a punição prolonga-se depois pelas políticas de austeridade exigidas.
Entre Bernanke e Jens Weidmann, entre Obama e a Comissão Europeia é todo um mundo de diferenças, de modelo, de perspectivas, de futuro, de futuro pelo lado americano, ou de ausência de futuro, pelo lado europeu, é isto que está em jogo.
Mas neste jogo macabro afinal, onde está a Alemanha? Vejamos as necessidades de financiamento para 2012 no quadro da zona euro.
E os dados recentes quanto às taxas e os spreads dão-nos uma boa ideia de quanto paga cada um deles:
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10-year spreads |
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Previous day |
Yesterday |
This Morning |
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France |
1.203 |
1.126 |
1.138 |
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Italy |
4.665 |
4.506 |
4.495 |
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Spain |
5.781 |
5.510 |
5.585 |
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Portugal |
9.182 |
9.042 |
9.054 |
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Greece |
24.887 |
24.617 |
#VALUE! |
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Ireland |
5.985 |
5.851 |
5.890 |
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Belgium |
1.842 |
1.783 |
1.857 |
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Bund Yield |
1.411 |
1.533 |
1.544 |
Os valores são claros, uma Itália à taxa Bund + spread (1,411 + 4,665), uma Espanha à taxa Bund mais spread (1,411+ 5,781). Pagarem-se estas taxas dentro de uma União é pura e simplesmente afirmar que se trata de uma des(União) e nada mais do que isso, mas da qual face à lógica dos mercados ninguém consegue sair. Pensar, como João Ferreira do Amaral que é possível sair de forma ordenada é pensar que na actual conjuntura, com o actual domínio absoluto da lógica dos mercados, há gente ao nível da Comissão Europeia capaz de propor e organizar uma saída ordenada da zona euro. De resto se houvesse gente para isso também haveria gente que não teria deixado levar a situação ao caos que estamos agora a sofrer, também haveria gente capaz de organizar não a saída mas sim a permanência em condições condignas. E temos visto que não há.
Mas recentemente os mercados mostram-nos alguns sinais bem preocupantes quanto à problemática da crise na zona euro. Vimos já os sinais alarmantes da fuga de capitais para a Alemanha ou para a Suíça ou para um outro qualquer paraíso fiscal. Os euros vão directa ou indirectamente parar ao BCE mas agora com os bancos centrais nacionais a funcionarem como refinanciadores de última instância e de quem? Do Banco Central Europeu, exactamente. 1
Vejamos como os mercados vêem esta realidade neste momento:
Os CDS sobre os títulos alemães estão a aumentar o que segundo os analistas dos mercados é duplamente preocupante.
A atenção tem sido dada recentemente aos problemas da periferia da zona euro, mas há sinais de que tensas condições financeiras estão agora a aparecer sobre os CDS dos títulos alemães. A propagação tem aumentado progressivamente como iremos ver.
O spread dos CDS em títulos alemães a 5 anos (pontos base):
Este alargamento do spread dos CDS tem-se verificado no mesmo tempo em que as taxas de financiamento ou refinanciamento têm estado a descer.
Taxa dos títulos a 5 anos:
Esta divergência (títulos/CDS) indica que os preços dos títulos são conduzidos pela procura por papel “seguro” na zona euro, enquanto os riscos sobre os títulos públicos alemães, visíveis nos mercados de CDS, são encarados como estando a aumentar. De certa forma estamos perante uma contradição. Mas estas tornaram-se comuns no ambiente extraordinariamente tenso em que se vive nos mercados. Pode-se, de modo geral, fixar esta diferença, vendendo a descoberto títulos públicos a 5 anos obtidos por empréstimo no mercado Repo, e vendendo CDS contra eles, apostando na sua descida. Assumindo que esta posição é mantida por 5 anos, a tomada de posição especulativa pode assim funcionar. No entanto, o spread pode mesmo alargar mais ainda se, por exemplo, a taxa de rentabilidade do título desce até ao valor zero e / ou os CDS aumentarem…
Para um economista, isso gera todos os tipos de questões como, por exemplo, qual é a “taxa livre de risco” para o euro. E como pode o título alemão ser visto como livre de risco, quando o CDS sobre o titulo público alemão é maior do que o da Verizon, da IBM, da Pfizer, da Microsoft, etc. CDS? Diz-nos o quê? Diz-nos que os mercados financeiros, os investidores, estão a ficar preocupados com os passivos crescentes da Alemanha, associados com a zona euro, estão preocupados também com as responsabilidades assumidas perante igualmente aqueles que na Alemanha colocam o dinheiro que esta depois cede ao BCE. Como assinala um operador nos mercados a um jornalista do Le Monde, Clément Lécombe, os “investidores apercebem-se que a Alemanha não está imunizada contra o risco europeu”. E esta preocupação decorre do facto de que os custos para a Alemanha de um potencial rompimento da UEM seriam então bem mais importantes que os custos da reunificação alemã e estes, não o esqueçamos levaram o tempo de uma geração a absorver. Ou seja, pelas malhas da crise, os países membros estão todos de mãos atadas ou ligadas, de mãos atadas pelos débitos de uns, pelos créditos dos outros, que se a crise continua a romper as malhas sociais de Estado membro a Estado membro, quem é que fica para pagar? Talvez ninguém, mas também não haverá ninguém que POSSA receber, nem a Alemanha, se a zona euro continuar por este caminho. Para dar um exemplo rápido. O INSEE acaba de publicar os efeitos da crise sobre a actividade económica em França e os números são aterradores: “ a França está ainda marcada pela crise ! Daí um não ganhar em termos de bens e serviços não produzidos na ordem dos 140 mil milhões de euros anualmente; daí um não ganhar de receitas para o Estado na ordem dos 70 mil milhões de euros.” E tem sido assim, anualmente!
(continua)



