TRABALHO DE CAMPO E OBSERVAÇÃO PARTICIPANTE EM ANTROPOLOGIA – 3 – por Raúl Iturra

 

3.0 PROBLEMA DAS LÓGICAS

Surge um desencontro nas técnicas de conhecimento, que tem várias consequências, se se quer conhecer os outros. Mas, e não necessariamente ligado às tecnologias do saber, há também um desencontro de lógicas: o investigador, treinado nos métodos da cultura europeia, transporta consigo uma maneira de ver o social derivada da sua prática histórica e que pode resumir-se na designação de lógica da racionalidade individual. As formas reprodutivas dos grupos selvagens, ou mesmo de grupos nativos de povos europeus mas que não partilham as formas de conhecer dá cultura erudita, estão sistematizadas numa lógica onde as relações de estatuto são mais importantes que as da acumulação de bens.

 

Por outras palavras, e pondo a questão em termos extremados, há as formas de idear o material a partir do lucro, e há as formas de idear o material a partir de categorias ético-económicas; as primeiras resultam na predominância do cálculo na regulação das relações sociais, cálculo esse que procura otimizá-las; as outras, regulam as relações sociais através de estruturas onde as pessoas são classificadas em estatutos diversos — e que chamamos parentesco, religião, política — onde o que interessa é a função. No nascimento da observação participante, o observador, vindo do mundo do lucro e do cálculo para o mundo das categorias, não podia agir senão na base dum raciocínio dedutivo, especialmente porque já se tinha constatado que estudar os selvagens pelo radar das teorias ou das induções tinha sido um desperdício ou uma etapa desnecessária.

 

Neste novo desencontro há por um lado uma reafirmação da necessidade de observar e observar dedutivamente e, por outro, a definição do que é que deve ser observado e porquê. É preciso agora debruçarmo-nos sobre este ponto. Como é que se fabrica o texto? Se o que o observador vai estudar é uma sociedade onde o estatuto da pessoa, ou melhor, das pessoas, define o comportamento social, um elemento obrigatório é o estudo das relações de parentesco. Por um lado, a estrutura do parentesco define o lugar social dos indivíduos uns em relação aos outros, ao mesmo tempo que os relaciona com o conjunto dos bens.

 

Pessoas e bens são os recursos que produzem a vida material e as ideias. Já Radcliffe-Brown (1924) anotava que as relações de parentesco situam cada indivíduo num lugar definitivo, ou pelo menos determinado, dentro do conjunto, assim como definem o que cada um pode receber e dar aos outros; é bem conhecido o seu exemplo de que a palavra mãe na língua Thonga indica o indivíduo do qual provém um outro, indica que o filho tem direito aos bens dela e define a série de interdições entre o filho, a sua mãe e todos os parentes que sejam contabilizados como semelhantes à mãe — os irmãos e irmãs dela, todos os quais são também mães. Godelier (1977) e Meillassoux (1972) elaboraram as bases da forma de relacionar o sistema de parentesco com um acesso ordenado aos recursos, enquanto Goody (1976 e 1983) fazia o mesmo para a Europa, histórica e atual.

 

Entretanto, Bloch (1973), Bourdieu (1972) e Iturra (1980) mostram como, nalgumas regiões do mundo, o parentesco é submetido a manipulações e, em consequência, a redefinições conjunturais dos indivíduos nos diversos estatutos da relação, conforme os objetivos a atingir em circunstâncias sócio históricas precisas. O trabalho de campo de  Julian Pitt-Rivers (1954), Eric Wolf (1966) e Brian O’Neill (1985), entre vários outros, acrescentam, às estruturas a estudar, os conceitos de amizade, vizinhança e parentesco por conveniência. Edmund Leach, no seu excelente trabalho sobre a Birmânia (1954) e Ceilão (1961 h), infelizmente mal conhecido, e os trabalhos de Max Gluckman (1965) sobre direito e jurisprudência, Lozi e Barotse, ensinam o modo corno as relações políticas estão baseadas em relações sociais criadas ad hoc através de várias gerações; e o próprio Meyer Fortes (1953) se ocupa da maneira como o tempo redefine a estrutura das relações sociais entre os Tallensi e os Ashanti. Esta rápida e necessariamente sinóptica visão do método para estudar o parentesco — que, para além do mais, é também fruto de outras propostas de estudo genealógico cujo campeão é Rivers (1911, 1913)— pretende apenas dar conta de como é que o parentesco governa um povo e de como é que o povo governa intelectualmente o seu parentesco. À estrutura de relações que define a distância social entre as pessoas, sobrepõe-se o traçado das alianças permitidas, proibidas, preferidas e forçadas entre categorias de pessoas, ao mesmo tempo que, sobre este traçado, as relações são reelaboradas conjunturalmente e os mitos justificadores ou orientadores são refeitos. Sem ouvir cuidadosamente as histórias genealógicas e os contextos culturais que as produzem, não era possível conhecer a racionalidade com que um grupo social se orienta. Como é que as categorias rituais, a estrutura de autoridades e obediências, as referências totémicas estão imbricadas no conjunto social do parentesco? E até que ponto aquilo que na sociedade que observa se chama crença é, na sociedade observa-a, um elemento prático do convívio social? É com vista a descobrir o tecido de direitos e obrigações, mútuas ou não, que são visíveis no parentesco, que se usa o conjunto dos outros instrumentos de pesquisa e, desde logo, a análise dos factos que dão origem ao próprio parentesco, que é uma estrutura resultante da construção cultural que os homens fazem de cada vez que têm que produzir a sua vida — e continuá-la. O que se observa, porém, é urna realidade onde as ideias são expressas em processos de comportamento que agem sobre a vida material, a qual, por sua vez, é um fator dinamizador e genético das ideias próprias da cultura em causa.

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