GIRO DO HORIZONTE – O bom aluno – por Pedro de Pezarat Correia

Tenho de confessar que começo a ser condicionado na minha análise crítica racional, por uma antipatia irreprimível contra esta camarilha de quem depende o destino da comunidade em que me incluo. Tento evitar que esse sentimento se sobreponha à leitura objectiva da realidade mas a verdade é que eles se encarregam de alimentar dia-a-dia essa repulsa. É que, das coisas a que pior reajo (e já aqui o deixei expresso), é que façam de nós (e portanto de mim) parvos, convencidos que somos uma cambada de mentecaptos.

 

Primeiro foram os desvios colossais, depois os lapsos, seguiu-se a partilha dos sacrifícios, a vida acima das possibilidades, os conluios das comissões de inquérito, as consciências que nenhum evidente desmando consegue inquietar. Esta gente esgota a cartilha do discurso simulado com argumentação viciada. Agora, de cada vez que se aproxima uma nova fiscalização da “troika”, é a avaliação positiva. E vamos ter de suportar isto até à exaustão.

 

Mesmo discordando da terapia até podia aceitar a avaliação positiva se demonstrassem que os sacrifícios estavam a traduzir-se em frutos, que as contas estão controladas, que o défice está estabilizado, a acumulação de dívida abranda, que a economia está em relançamento, que há recuperação de emprego, que temos uma perspectiva do futuro. Enfim, se houvesse um rasgo de competência criativa capaz de inverter uma dinâmica calamitosa. Como sabemos a realidade, que não tem nada a ver com isto, é apenas a da impotente aceitação da não alternativa.

 

O desemprego sobe, porque a lógica neoliberal precisa de altas taxas de desemprego para embaratecer o trabalho para níveis humilhantes (enquanto vir os Catrogas, os Borges, os Nogueiras Leites, os Ulrichs e outros que tais, a falarem de salários baixos, não há lei de mercado que me convença), mas o Governo tem nota positiva. Regressa a emigração como tábua salvadora para milhares de famílias, toma lá nota positiva. As falências de pequenas e médias empresas sucedem-se às dezenas de milhares apesar de uma política sempre a favorecer o capital à custa do trabalho, mas a nota é positiva. Vende-se o património público a preços de saldo, a nota continua positiva. Falha a execução orçamental e a cobrança fiscal porque está seca a fonte onde se cobram os impostos, mas a avaliação é positiva. Aumenta o saldo da balança com o exterior pela razão óbvia de que a procura e o consumo interno estão asfixiados com o alastramento da miséria e o empobrecimento da classe média, mas congratulam-se com a nota positiva. Declara-se guerra ao estado social esvaziando-se as suas componentes emblemáticas, Serviço Nacional de Saúde, Escola Pública, Segurança Social, é positiva a avaliação.

 

Enfim, o país definha cada dia que passa, mas de avaliação em avaliação a nota mantém-se positiva. O Governo recorre a medidas inconstitucionais espoliando os servidores do Estado e pensionistas para executar o plano da “troika”, o Presidente da República finge que não vê e o Tribunal Constitucional põe a Constituição de quarentena em 2012, é positiva a avaliação.

 

O Governo, como mero executor das decisões da “troika”, é o carrasco de uma sentença penosa e, como está a executar fielmente a sua tarefa, justifica avaliação positiva. Congratula-se com isso, louva-se com os resultados, reclama reconhecimento das vítimas, aspira a uma graduação por equivalência sem prestar provas finais. A nota é positiva não porque se estejam a obter bons resultados, mas apenas porque se está a executar a sentença. É o mero cumpridor de ordens, papel do menos qualificado em qualquer estrutura funcional. Entretanto o Presidente da República congratula-se com a credibilidade de um país de cócoras e vai aguardando esperançado a avaliação que se segue.

 

A melhor síntese que li para denunciar esta mistificação obscena foi a de Pedro Adão e Silva, na sua coluna semanal no último Expresso. Diz ele que a “troika” está a avaliar-se a si própria através das notas que atribui ao seu órgão de execução, tentando assim salvar a face perante o falhanço óbvio.

 

O meu tom é provavelmente demasiado ácido, produto da antipatia que esta gente me suscita. Mas, os factos, esses não fui eu que os inventei.

 

23 Julho 2012

 

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