MUNDO CÃO – A NATO TRAVESTIDA – por José Goulão

 

 Depois de ter perdido pela terceira vez uma votação no Conselho de Segurança das Nações Unidas, através do indigno direito de veto, é certo, mas tantas vezes por ela usado ao longo dos tempos, a Administração dos Estados Unidos da América anuncia que passará a agir “fora” das Nações Unidas em relação às questões da Síria.
Di-lo com a irresponsabilidade própria de quem se considera impune, senhora do destino dos países e da vida dos cidadãos do mundo. Di-lo assumindo-se, de facto, como um império que fez e desfaz regras, decide lançar guerras e promover golpes de Estado em defesa daquilo a que chama “os interesses da democracia” ou os “interesses da civilização”, assim confundidos abusivamente com os seus próprios interesses e das minorias que representa.

Uma pequena correcção às palavras do primeiro parágrafo.  O império não anuncia. O império já actua na Síria fora do contexto das Nações Unidas, o que não acontece pela primeira vez – os factos da Líbia ainda são recentes, estão até em desenvolvimento. O império lançou na Síria uma operação militar clandestina – evitando deixar a NATO mais uma vez a descoberto na prática de ilegalidades – a que até deu nome: “Vulcão de Damasco e sismo na Síria”

A realidade já indiciava qualquer coisa do género. De que modo poderiam grupos de mercenários desorganizados e sem comando unificado, como têm actuado até aqui os destacamentos do chamado “Exército Sírio da Liberdade”, atacar de um momento para o outro o coração do regime de Assad, dar batalha em Damasco e desafiar o poderoso exército sírio – poderoso, sem dúvida, porque a realidade das últimas décadas tem sido a de um país tecnicamente em guerra com Israel?

O tampão censório internacional é potente, mas existem jornalistas que o são, não se conformam com a indigna metamorfose do seu ofício ao serviço da mentira e da propaganda. Vão ao fundo e voltam com informações: 40 a 60 mil mercenários islamitas, a maior parte oriundos da Cirenaica na Líbia, mas também grupos da A-Qaida e do clã saudita dos sudeiris, foram infiltrados na Síria sobretudo a partir da Jordânia na maior operação de guerra encoberta apadrinhada pelos Estados Unidos desde o fim dos anos setenta, quando o pai Bush ainda chefiava a CIA e o cenário da agressão imperial era a América Central.

“Vulcão de Damasco e sismo na Síria” é o nome. O ataque ao núcleo de segurança do regime cometido ainda não se sabe bem como, fala-se em atentado suicida mas não se descarta a possibilidade de utilização de um drone furtivo (nesse caso propriedade imperial), é interpretado como o “ponto de viragem” na ofensiva pela mudança de regime na Síria, trocando uma ditadura familiar por uma ditadura de interesses económicos e geopolíticos. O comando unificado do “Exército Sírio Livre” é assegurado pela Turquia; o Qatar tem responsabilidades no comando de grupos islamitas radicais.

Estamos perante uma nova guerra, esta entre o exército regular da Síria e um corpo expedicionário formado por legiões estrangeiras de mercenários uns islamitas, outros fiéis à velha devoção do dólar, e outros as duas coisas, na verdade uma intervenção da NATO travestida, “fora da ONU”, é claro, ou seja, fora de lei. Se por acaso em algum noticiário bem falante ou numa qualquer escritura “de referência” vos disserem que o “Exército Livre da Síria” é composto principalmente por “dissidentes” do exército regular não acreditem. Não é informação, é propaganda. Afinal isto é uma guerra…

 

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