O Brasil está festejando, por todo este 2012, os 90 anos da histórica “Semana de Arte Moderna“, realizada em São Paulo, de 13 a 19 de fevereiro de 1922. Na sinopse do cap. 39, vol. III (Lisboa, 2000), da minha História da Literatura Brasileira, eu assim me exprimo a respeito do evento:
“A Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 19 fevereiro de 1922, é uma manifestação formal programada pelos jovens escritores de vanguarda de São Paulo e do Rio de Janeiro, no Teatro Municipal da capital paulista, para oficializar o Movimento Modernista já em organização desde 1917. A Semana se realiza na forma de happening modernista de literatura, artes visuais e música, segundo o modelo do dadaísmo. Dela participam os escritores e artistas jovens, mas de certa forma, também a própria cultura oficial, contra a qual o happening modernista se dirigia. A oficialidade cultural não só não ignora ação e mensagens da Semana, mas a contrasta. Deste choque, o Movimento Modernista parte para a sua segunda fase, conclusiva e afirmativa, da qual deriva a teoria e a prática da modernidade artística brasileira.”
Como é próprio de toda sinopse, esta minha expõe de imediato os pontos centrais referentes ao grande evento artístico-cultural de 1922. Inicialmente ficam determinadas, com precisão histórica, as datas de início e fim da festiva programação: 13 a 19 de fevereiro de 1922, bem como a sua sede, o magnífico Teatro Municipal da desde então grande metrópole paulistana, assim como os seus partecipantes ativos: escritores, artistas de todos os setores, musicistas. Porém, e de certa maneira, também os representantes e órgãos de divulgação da cultura oficial que contrastam fortemente o evento, de certa forma exaltando-o, como correspondência direta e imediata de tais proclamadas oposições.
Em seguida, a sinopse define a Semana como um happening, um
barulhento e ressonante processo expositivo dos jovens vanguardistas brasileiros, segundo o modelo típico do Dadaísmo de Tristan Tzara. De todos estes fatores, o Movimento Modernista parte para a definitiva teoria e prática da modernidade artística, modernidade a partir de então endereçada igualmente à totalidade da vida nacional.
Os cinco dias da Semana movimentaram a vida burguesa de São Paulo e desde logo deram, pela escolha mesma de sua sede, o Teatro Municipal paulista, de diretas intenções de logo em seguida alargar sua faixa de ação do eixo tradicional São Paulo-Rio de Janeiro, como em verdade acontece com propagação para Minas Gerais e o daí para o centro do país; para o sul, cobrindo os demais estados da região, com o foco maior em Porto Alegre; para o nordeste e o norte, concentrando-se no Recife e daí irradiando-se para os maiores centros da grande área, sempre ativa, norte-nordeste.
A Semana foi uma programação realizada pelos jovens vanguardistas paulistas, com a comparticipação daqueles do Rio, que amadureceu por diversos anos, possivelmente começando com a explosiva exposição da pintura expressionista de Anita Malfatti, em 1917. Logo em seguida explode igualmente a arte revolucionária da escultura de Brecheret, e o cenário de exposições e debates das novas concepções para as artes visuais passam a ocupar o cenário expositivo principalmente de São Paulo, mas igualmente naquele carioca. Já antes a ação dos jovens vanguardistas revelavam uma predisposição: a afirmação de uma interrelação entre as diversas artes, a literatura, as artes visuais e a música. A literatura tem a dimensão predominante no ânimo vanguardista dos jovens escritores brasileiros, mas eles sabem igualmente dedicar-se à descoberta de novos valores de artistas plásticos e musicais.
Com o crescente aumento da repercussão de tais manifestações, os escritores paulistas passam a considerar indispensável a formalização do nascimento do sempre preparado Movimento Modernista. Com moderno sentido do valor da divulgação das ideias por meio dos usos mediais, em geral fixados na divulgação dos jornais quotidiano, bem como de uma correspondente discussão dos projetos expostos, ainda que já prontos em 1921, ou mesmo antes, os futuros modernistas decidem de apresentar o programa do Movimento revolucionário em 1922. Isto porque então o inteiro país estaria concentrado e atento nas festas pelo 1° Centenário da Independência brasileira, bem como o ano ficaria marcado por uma grande exposição mundial, comemorativa do grande evento nacional.
Assim decidido, abre-se a Semana de Arte Moderna, de 13 a 19 de fevereiro de 1922. No Teatro Municipal de São Paulo dá-se o grande evento, com uma intensa programação: centralizando tais manifestações, ficam organizados 3 Festivais, distribuidos nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro, com conferências de escritores e concertos musicais de compositores e executantes de vanguada. Paralelamente, a Semana se desenvolvia com exposições estáveis, por todas as dependências do Teatro paulistano, exposições de pintura (Anita Malfatti, Di Cavalcanti, John Graz, Ferrignac, Zina Aita, Vicente do Rego Monteiro), desenhos de Martins Ribeiro, J. F. de Almeida Prado; esculturas de Brecheret, Haarberg; arquitetura de Antônio Moya, Georg Przirembel.
Os três Festivais acaloravam todas essas manifestações.
1° Festival – segunda-feora, 13 de fevereiro
1ª. parte:
1.1 Conferência de Graça Aranha, “A emoção estética na arte moderna“. A mesma vinha ilustrada com execuções musicais a cargo de Ernani Braga e leituras de poesia por Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho.
1.2 Concerto de música de câmara com composições de Villa-Lobos (Sonata II, para violoncelo e piano, de 1916, execução de Alfredo Gomes e Lucília Villa-Lobos; Trio Segundo, para violino, violoncelo e piano, de 1916, execução de Paulina d’Ambrosio, Alfredo Gomes e Frutuoso de Lima Viana).
2ª. parte:
2.1 Conferência de Ronald de Carvalho, “A pintura e a escultura moderna no Brasil”.
2.2 Solos de piano por Ernani Braga – a) “Valsa mística”, da Simples Coletânea, 1917; b) “Rondante”, da Simples Coletânea, de 1919; c) As Fiandeiras, de 1921.
2.3 Otteto – Três danças africanas: a) “Farrapos” – Dança dos moços (1914), “Kankukus” – “Dança dos velhos” (1915), c) “Kankiikis” – “Dança dos meninos” (1916). Executantes: Paulina d’Ambrosio e George Marinuzzi (violinos), Orlando Frederico (alto), Alfredo Gomes (violoncelo), Alfredo Carazza (basso), Pedro Vieira (flauta), Antão Soares (clarino). Frutuoso de Lima Viana (piano).
2° Festival – quarta-feira, 15 de fevereiro
1ª. parte:
1.1 Palestra de Menotti del Picchia, ilustrada com textos de poesia e prosa de Oswald de Andrade, Luís Aranha, Sérgio Milliet, Tácito de Almeida, Ribeiro Couto, Mário de Andrade, Plínio Salgado, Agenor Barbosa e números de dança por Yvonne Daumerie.
1.2 Solos de piano: Guiomar Novaes – a) E. R. Blanchet: Au jardin du vieux Serail (Andrinople, b) Villa-Lobos: O Ginete do Pierrozinho, c) Claude Debussy: La soirée dans Granade, d) Claude Debussy: Minstrels.
Logo depois de curto intervalo: palestra de Mário de Andrade, no saguão do Teatro.
2ª. parte:
2.1 Renato Almeida, Perennis poesia.
2.2 Canto e piano – Frederico Nascimento Filho e Lucília Villa-Lobos: a) Festim Pagão (1919), b) Solidão (1920), c) Cascavel (1917).
2.3 Quarteto Terceiro, para cordas (1916). Violinos: Paulina d’Ambrosio e George Marinuzzi; alto: Orlando Frederico; violoncello: Alfredo Gomes.
3° Festival – sexta-feira, 17 de fevereiro
1ª. parte:
Villa-Lobos 1. Trio Terceiro, para violino, violoncelo e piano (1918); 2. Canto e piano: Mário Emma e Lucília Villa-Lobos. Historietas de Ronald de Carvalho (1920);
3. Sonata Segunda, para violino e piano (1914).
2ª. parte:
Villa-Lobos 1. Solos de piano por Ernani Braga: a) “Camponesa cantadeira”, da Suite Floral (1916), b) “Num berço encantado”, da Simples Coletânea” de 1919, c) Dança Infernal (1920). 2. Quarteto Simbólico (Impressões da vida mundana), para flauta, saxofone, celesta e harpa ou piano, com vozes femininas em coro oculto (1921).
No dia 19 de fevereiro de 1922, em meio a grande entusiasmo e incontidas
discussões, concluiu-se a Semana de Arte Moderna. E a partir dela surgia para o Brasil uma nova idade de modernidade.
