Texto para uma bênção a esta Europa já às portas da morte – XI

Por Júlio Marques Mota

 

O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.

 

Um texto a partir de um outro, de  Fabius Maximus de   6 de Junho de 2012 

 

(continuação)

 

2. E quanto à acção  mágica  do Banco Central?

 

 

A perda de PIB potencial aqui ilustrada é algo que nos obriga a questionar como é possível que os povos europeus tenham durante tanto tempo suportado a crise que não criaram. E o mais grave ainda está para vir. Com efeito, se adicionarmos agora o agravar da crise pela situação de Espanha e de Itália, se adicionarmos os efeitos de repercussão sobre as outras economias já deprimidas percebemos o drama brutal que as políticas de austeridade estão a impor, de rendimentos não ganhos a toda a Europa. E a Itália, com Monti, já está a dançar a dança que os mercados querem, já está a tocar a música que eles pagam para ouvir, Monti já está a prometer mais privatizações, mais políticas de austeridade e com isso serão mais rendimentos que deixarão de ser gerados, mais receitas que pelo Estado deixarão de ser arrecadadas. E, entretanto o serviço da dívida continua a aumentar, mas a cobrar como? E as dívidas serão pagas, serão recebidas, a partir de quê?  Daí a minha pergunta. Daí a minha interrogação, se ao fundo deste plano inclinado em que a Europa parece estar lançada quem haverá disponível para pagar, quem haverá capaz disponível para  poder vir a receber?

 

 

Entretanto, a solução para a crise está ao alcance de  uma mão, de uma ordem, da alteração de uma alínea dos Tratados, de uma outra visão da sociedade é certo, a dar a certeza de que tudo isto seria evitável. Pelas ferramentas possíveis a criar, como os eurobonds, por exemplo, como por exemplo, a suspensão temporária do TCE para em alternativa se criarem politicas expansionistas e depois da crise passada, criar novas estruturas que tornassem a situação de hoje impossível de voltar a acontecer. De resto, como assinalaram muitos autores desde há muito  tempo a criação dos eurobonds, em euros, uma vez que os títulos são emitidos em euros, não levantaria problema de maior, poderia eventualmente até ser apenas suficiente a garantia a dar  pelo  BCE   de que garantia os títulos emitidos dentro da zona euro. Talvez até só isso bastasse em vez da política de punição expressa por Jens Eidmann e aplicada pelas Troikas ou exigida pela Comissão Europeia, mas que conforme se mostrou com ela, poderemos todos vir a ser punidos, inclusive a Alemanha.

  

Dito de uma forma metafórica, prisioneiros no Hotel Califórnia, prisioneiros desta casa Europa de onde nestas condições ninguém pode sair. Os Eagles tinham razão  quando cantavam:


You can checkout any time you like,

but you can never leave!

 

Julgamos que os mercados de capitais estão a começar a mudar de agulha, a quererem  que a Alemanha, e na minha simples opinião pelas razões apontadas, venha a deixar a zona euro. O argumento aqui o deixamos em inglês, para que não haja nenhuma hipótese de distorção pela tradução, aqui deixamos a reprodução de declarações de Charles Dumas, economista-chefe no  Lombard Street Research e reproduzido por  Max Julius de Citywire.uk:

 

Why Germans and Dutch will exit ‘suicide pact’ eurozone


Germany and the Netherlands are likely to quit the eurozone rather than swallow an indefinite number of ‘unrequited transfers’ to the union’s crisis-stricken nations, according to Charles Dumas, chief economist at Lombard Street Research.

Speaking at an event in central London, he said that before joining the single currency, German incomes had stayed level but their purchasing power had increased as the Deutschmark appreciated. With the weaker euro, the economist said, they have seen ‘tremendous’ wage restraint, leading to huge growth in German firms’ market share but ‘no serious growth of the economy’ and a squeeze on disposable incomes. Meanwhile, consumption rose elsewhere in the eurozone, he said.

‘So what you’re actually dealing with here… is a German population which has had a rotten deal – and that’s why they’re all so angry’ noted Dumas, who is also chairman of the macroeconomic forecasting consultancy. Branding the monetary union a ‘suicide pact’, he continued: ‘So what this exercise in uniting Europe has achieved is to divide Europe.’

Dumas [noted that] the ‘Club Med’ nations needed about 5% of gross domestic product in annual debt refinancing ‘more or less indefinitely’.

This would amount to €150 billion a year, of which Germany would have to stump up just over €60 billion, France a little under €50 billion and €15 billion from the Netherlands, he said. And this would be on top of the shortfall in consumer spending, in addition to the fact that wages and consumption may have to be held down in the future, Dumas warned.


Sublinho aqui o que nos querem dizer: mais ou menos indefinidamente estaremos sempre a comer na mão dos alemães, 5% do PIB! Inacreditável.

 

Adicionalmente devemos sublinhar dois erros crassos na argumentação:

  1. Diz o especialista Dumas : With the weaker euro, the economist said, they have seen ‘tremendous’ wage restraint, leading to huge growth in German firms’ market share but ‘no serious growth of the economy’ and a squeeze on disposable incomes. Como é evidente o que esteve em jogo não foi um euro fraco, o que esteve em jogo foi a política mercantilista vinda desde os tempos de Schroeder  e aprofundada por Merkel. Tratando-se de um modelo com dinâmica nas exportações a afirmação do especialista ronda a mais pura demagogia, Mais os salários reais são baixos na sua opinião porque o euro desde a sua criação tem estado subavaliado e portanto um fraco nível de despesa gera necessariamente um crescimento não sustentado.
  2. Como segundo ponto, podemos estar de acordo que o crescimento não é sustentado pela procura interna mas não o é não porque o euro esteve fraco, mas sim pela política de repartição do rendimento seguida pelo governo alemão, a partir do ataque desencadeado por Schroeder, com as leis Hartz,  ao Estado-Providência.  Poderemos dizer que estamos a partir da aí com uma política mercantilista  agressiva, assente exactamente num euro forte e na deflação dos salários, tomando como espaço de referência para as suas exportações exactamente a zona euro e, depois, a China.

(continua)

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