DIÁRIO DE BORDO, 25 de Julho de 2012

 

Ontem a Espanha e a Itália impuseram restrições às vendas a descoberto. Citando o Eurointelligence de ontem (no nosso blogue saiu às 23.50),  esta medida  visa conter os ataques especulativos. As vendas a descoberto e os credit default swaps (cds) têm sido dois dos instrumentos que mais estragos têm causado nas finanças e na economia dos países europeus, nomeadamente dos chamados países periféricos. Sobre isto veja-se o que o argonauta Júlio Marques Mota escreveu sobre os cds de 6 a 17 de Dezembro do ano passado, também n’A Viagem dos Argonautas. Alguns dirão que se tratam de restrições à liberdade de comércio, ou falarão em ataque à propriedade privada.


É sabido que a especulação financeira é feita por um número reduzido de investidores, que têm sob as suas ordens um exército de funcionários. As agências de notação trabalham para eles. A economia dos países, nomeadamente dos países mais débeis, é fragilizada por esta especulação, até porque a economia, para se actualizar e competir, precisa do crédito e este está cada vez mais caro, precisamente por causa da especulação financeira. O sistema bancário, enfraquecido pelos jogos na bolsa e pela desconfiança entre os vários agentes, deixou de ligar entre si, e faz subir o preço do dinheiro, pondo assim em causa o sistema de salários baixos/crédito fácil que tem norteado a vida da maioria dos países ocidentais. Os países de economia mais frágil foram os primeiros a ser afectados, como é do conhecimento geral. Mas a onda da crise vai-se propagando. Já alcançou a Espanha e a Itália. Na primeira Mariano Rajoy teve de pedir ajuda, embora tivesse passado meses a dizer que o país não necessitava. Em Itália, onde também há uma reforma administrativa imposta, e se pretende reduzir o número de províncias, fala-se do perigo de as escolas não reabrirem depois das férias do Verão. As agências de notação já começaram a pôr em causa a própria Alemanha, por considerarem estar exposta aos perigos resultantes da crise que impera nos outros países.


É cada vez mais claro, excepto talvez para alguns líderes políticos, que a crise em que vivemos é sobretudo política, mais do que económica e financeira. A maioria dos líderes políticos sabe-o. Não quer é admiti-lo abertamente, para não sofrer as consequências, a começar por ter de aceitar que as políticas que têm levado avante nos últimos decénios (e não só…) são desajustadas, e tinham como objectivo principal, não declarado, mantê-los no poder, e agradar a quem os tem ajudado. A tirada de Passos Coelho sobre as eleições é mais contribuição para o mesmo: ele acha que afectar que não dá importância aos actos eleitorais o vai ajudar a ganhá-los. E entretanto vão continuar a banca a mandar na vida nacional, a especulação em roda livre e os portugueses a perder os seus empregos, a viverem cada vez pior, e os mais novos e os melhores a pensarem em ir para o estrangeiro.

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