Por Júlio Marques Mota
(continuação)
2. As respostas que a União Europeia não deu, o que é que ela escondeu
B) Super Bruxelas “salva o mundo, novamente, talvez! – II
Satyajit Das: “Super Brussels” Saves The World, Again, Maybe!
Impossibilidade aritmética …
O custo do apoio feito aos Estados-membros periféricos está a aumentar. O BCE tem fornecido mais de 2 milhões de milhões de euros sob a forma de compras de títulos e de financiamento de bancos europeus. Os Estados-membros da zona euro estão directamente e indirectamente a apoiar os dois fundos europeus de resgate financeiro -FEEF, MEE – em cerca de 1 milhão de milhões. Os bancos centrais nacionais na Alemanha, Holanda, Finlândia e Luxemburgo terão fornecido mais de 700 mil milhões de euros em financiamento para as nações mais fragilizadas.
Mesmo sem acordo sobre as obrigações da zona Euro, eurobonds, a mutualização da dívida é já é um facto tanto quanto os países mais fortes, especialmente a Alemanha e a França, efectivamente têm estado a subscrever, a garantir, estas disponibilidades. Quanto maior for o financiamento para os países mais frágeis organizado pelas instituições oficiais, maior será financeiramente o envolvimento dos países mais fortes. A Alemanha enfrenta já perdas potenciais num valor que estará situado entre 800 mil milhões e 1,4 milhões de milhões (superior a 40% do PIB). A França também enfrenta grandes perdas. A Chanceler Angela Merkel tem sucessivamente sublinhado que a capacidade de financiamento pela Alemanha não é infinita.
A aritmética monetária dos problemas da dívida Europeia parece insustentável.
A UE pode, pura e simplesmente não ter fundos suficientes para realizar o seu programa, a menos que os fundos de resgate sejam aumentados por alguma via, ou o que BCE siga totalmente os passos dos EUA, do Reino Unido e do Japão em levar a cabo uma política monetária expansionista, dita quantitative easing, destinada a monetizar a dívida soberana Europeia. Como estes países têm verificado essas medidas também não representam uma solução simples.
Impossibilidade política …
A curto prazo, o BCE provavelmente irá baixar as taxas de juro e continuar a proporcionar liquidez para gerir o risco de um colapso financeiro. Mas os problemas profundamente enraizados permanecem.
O crescimento da economia real, emprego, investimento, as fugas de capital das nações fragilizadas, tudo isto continua a ser problemático. O resultado económico dos países mais fortes, como a Alemanha ir-se-á degradar. Os problemas do sistema financeiro- empréstimos perdidos, dificuldades de financiamento- vão continuar. Os Estados membros mais fragilizados continuarão a enfrentar enormes problemas na captação de fundos a custos aceitáveis.
Os problemas são politicamente crescentes.
A Cimeira de Junho destacou profundas linhas de fractura entre os países membros da zona euros. A Alemanha, que está substancialmente a ter o encargo dos resgates da dívida Europeia, encontra-se cada vez mais difamado e isolado.
Os jornais espanhóis, italianos e franceses e o comentário político são triunfantes, retratando a Cimeira como uma forte crítica à Alemanha. Os países do norte da Europa, alinhados com a Alemanha, expressaram as suas preocupações acerca as muito fracas condições para ajuda aos países europeus endividados. O diário financeiro holandês Het Financieele Dagblad escreveu que “os países do Sul da zona euro estão a tomar os países do Norte como reféns”.
Enquanto a sua posição política permanece relativamente segura, a Chanceler alemã enfrenta crescente críticas internas por prestar assistência sem que daí e com isso conseguir obter acordo quanto às adequadas e difíceis condições a aplicar pelos destinatários da ajuda.
A Chanceler Angela Merkel insiste em que o dinheiro dos contribuintes alemães não será confirmado e disponibilizado sem que haja condições rigorosas a respeitar. Ela reafirmou que não havia nenhum aumento das garantias alemãs para os fundos de resgate da zona euro e não haveria garantia conjunta sobre títulos de zona Euro para financiar os Estados mais fracos. Ela insiste que o compromisso para se utilizar o FEEF /MEE na compra de títulos soberanos de países que enfrentam a pressão de mercado seria condicional. A Espanha e a Itália poder-se-ão vangloriar de obterem uma ajuda imediata incondicional mas isto não bate certo com a insistência dos holandeses e dos finlandeses em que para estes e para qualquer dinheiro utilizado deve-se exigir o cumprimento de condições rigorosas.
A vontade da Alemanha e dos países do Norte da Europa em continuarem a financiar a existência da zona do Euro pode estar a ficar cada vez mais fraca.
Na Cimeira, a piada do dia foi que a Alemanha perdeu 2-1 para a Itália na semifinal do Campeonato de futebol europeu de 2012 em Varsóvia, mas perdeu por 16-1 na Cimeira da UE em Bruxelas! O Primeiro-ministro italiano Mario Monti, com indiferenciada indiscrição, vangloriou-se que “se tratava de uma dupla satisfação para a Itália” referindo-se às vitórias italianas sobre a Alemanha no futebol e na negociação sobre a dívida.
A Espanha, a Itália e a França também podem viver a lamentar este triunfalismo a irritar os seus financiadores. A zona euro em si parece ser ela própria o perdedor a longo prazo.
Impossibilidade real …
Apesar dos progressos, os líderes europeus recusam -se a reconhecer que uma parte da dívida das nações periféricas é irrecuperável. Nenhum dos passos anunciados melhora a sustentabilidade dos níveis de endividamento dos países afectados, nem o seu acesso aos mercados nem o custo dos empréstimos a contrair nos mercados de capitais a médio e longo prazo. Em última análise, não é possível resolver o problema do endividamento excessivo com mais dívida ou simplesmente mudando de credor.
A Europa está condenada a uma depressão prolongada e contida, enquanto se desembaraça do fardo da dívida.. A alternativa, uma depreciação, uma redução do valor da dívida, (haircut) mas com esta redução ter-se-ia como contrapartida, como efeito, uma perda significativa da riqueza principalmente para muitos investidores e credores europeus, provocando uma contracção económica e um longo período de estagnação económica. Há agora apenas limitadas opções disponíveis.
Para já, os investidores e os membros não-alemães da zona euro estão a comemorar. Seria sensato lembrarmo-nos da observação do escritor americano Edgar Howe: “não há nada tão bem conhecido como o facto de que não devemos esperar qualquer coisa a partir de coisa nenhuma – mas todos nós fazemos e a isso, chamamos-lhe esperança.
