É sabido que não sou um homem de fé. Antigamente, era, após ser catequizado em casa e entre os frades dos Sagrado Coração ou Padres Franceses, o colégio da aristocracia chilena, em que todos os homens da família estudavam. Resisti-me a ir. Era pequeno, mas preferia uma educação em casa e um colégio dominicano, na altura dos meus onze anos em que já no se podia deixar de assistir à escola ou a colégios privados, era necessário aprender na vida pública, entre os pares, os colegas da mesma classe e começar a ser cidadão.
Aprender só em casa era furtar-se ao convívio com a cidadania da nação na que eu habitei durante os meus primeiros vinte anos de vida. A pouco e pouco, a verdade provada ou científica, ganharam a minha racionalidade e um dia qualquer, a divindade deixou de existir para dar passo às realidades históricas provadas. Não era o caso do Senhor Amadeo. Nascido e criado em bairros de trabalhadores em Vieira do Minho a cultivar os seus nacos de terra, a sua vida passou-se no trabalho para o que empregava o seu próprio corpo, a viver do seu próprio trabalho, primeiro como assistente de pedreiro, para continuar, a seguir, como cozinheiro do seu próprio restaurante na vila mais rica de Portugal, Cascais. A sua escola foi o trabalho e o que aprendia entre os seus colegas que cultivavam a terra como ele, a seguir na construção e dos seus irmãos, amassando, com o decorrer do tempo, uma importante importância de dinheiro que investia em atividades que davam lucro para viver, como comprar casas en sítios baratos em Santarém e entregar a sua descendência e resguarda-los de uma possível morte dele, cedo na vida, por causa de tanto trabalho. Acabou por ser um homem rico, criar como devia a sua própria família, que passaram a ser profissionais formados com graus académicos e politécnicos. Tanto trabalho, que nem tempo se daba para tomar conta da sua saúde. Saúde que, como todo membro do bom povo português, piorou aos seus setenta e três anos, sem saber que estava doente, pelo seu empenhamento em conquistar o mundo do trabalho. Em dois meses foi-lhe diagnosticado de doença terminal e mais nada mais havia que fazer.
Foram dois meses eternos de luta pela vida e contra a morte, que, sem saber como nem quando, levou-o entre os justos. O surpreendente do Senhor Amadeo, a minha ficção metafórica para o trabalhador que produz bens a bem da nação, era a contradição entre a vida eterna após a morte, a ressurreição final no dia do julgamento ao som da trompeta que o anuncia, no dia em que toda a humanidade falecida, erguesse e anda para ouvir a sua sentença: céu, inferno ou purgatório, esse sítio de repouso da alma, criada no Século XVI no Concílio de Trento, para atrair fieis com temor da divindade e não fugirem dos católicos, como tantos tinham feito antes com Lutero nos países germânicos, Calvino nas nações latinas e Knox e os Tudor, nas ilhas britânicas. Essa a minha metáfora do trabalhador surpreendeu-me. Em Portugal, digam que sim o que não, todos acreditam na ressurreição, como a metáfora que uso do povo na morte da minha ficção O Senhor Amadeo: sabem que a separação de corpo e alma e da família, é apenas por um tempo, bem mais curto que o tempo que gastaram em estar vivos. Acabo por não entender: se sabem que há ressurreição, a tristeza acontece, como diz Freud no seu texto sobre Luto e Melancolia de 1912, como a tristeza profunda de perder a um ser querido durante um tempo. A ressurreição é um facto no que todos acreditam, mas que parece impossível durante o tempo do luto. O bom povo português, que se esmera no seu trabalho, entra direitinho ao céu a esperar do som da trompeta, como diz nos seu texto da Apocalipse o evangelista São João, discípulo predileto do Cristo é quem acredita em viver de novo e cuidam dos seus mortos como o povo Pehuenche do Chile. As famílias operárias devem guardar o seu luto, porque reconforta, e pensar que, a seguir à morte, acontece a Ressureição, como narra Lucas no seu Evangelho e a morte e ressurreição de Lázaro. A minha ficção Amadeo, ressuscita em breve. É o apoio ao luto e a melancolia, reconfortada na missa do sétimo dia à qual todos assistem. A Ressureição fica mais perto e o luto diminui, aparecendo apenas a melancolia. Vivam os trabalhadores que falecem rebentados pela falta de dinheiro que apenas os ricos da nossa nação guardam para si e não partilham com a maioria dos portugueses que rebentam, sem saber como nem onde, viva às suas famílias, que respeitam os rituais de consolação e nós, não crentes, observamos com respeito e choramos com eles, sem apoio. Salvo seja o da família do trabalhador rebentado.
Raúl Iturra lautaro@netcabo.pt Um dia qualquer de Julho de 2012.
