No 15.º aniversário da morte de COSTA FERREIRA – por António Gomes Marques

 

Comemora-se hoje o 15.º aniversário da morte de Costa Ferreira, data que, a começar por alguns dos seus amigos e a acabar nas gentes do teatro poucos recordarão. Quantos espectáculos de teatro se realizarão hoje em Portugal completamente indiferentes ao contributo deste homem exemplar para o teatro português e para o teatro em Portugal?

 

Conheci Costa Ferreira em 1961, ano também da fundação do Teatro Moderno de Lisboa, de que foi um dos societários. Desde então o diálogo foi permanente, diminuindo pouco a pouco nos seus últimos cinco anos de vida por a doença não permitir que fosse de outro modo.

 

Apesar de tudo, ainda lhe ouvimos algumas palavras uns dias antes deter expirado. Morreu a invocar os seus pais e rodeado do casal que mais o acarinhou nos últimos 40 anos da sua vida, a Otília e o Manuel. Eram 16 horas do dia 29 de Julho de 1997. Não temos qualquer dúvida de que, se não fossem os cuidados da Otília e do Manuel, o António Joaquim da Costa Ferreira nos teria deixado bem mais cedo. No dia 10 de Junho desse ano havia completado 79 anos.

 

O lema da vida de Costa Ferreira pode resumir-se numa afirmação de seu pai, o General Costa Ferreira, que o dramaturgo, encenador e actor transcreve nas suas memórias, «Uma Casa com Janelas para Dentro»: «…não tenho a pretensão de endireitar o mundo, mas sim o firme propósito de não me deixar entortar».

 

Volto a reler as cartas que, regularmente, me escrevia para Moçambique, onde cumpria o serviço militar obrigatório na guerra colonial. A Frelimo havia-se aproximado da localidade onde me encontrava e, do facto, dei conhecimento ao C. Ferreira, logo ele concluindo, naturalmente, que a minha segurança poderia correr perigo, temendo também o meu amigo que eu não soubesse defender-me contra os que lutavam pela libertação do seu país. Atente-se no que C. Ferreira me escreveu na sua carta datada de 22/2/970:

 

«Eu só senti pessoalmente o perigo físico uma noite em Paris e há cerca dum ano aqui em Lisboa no tremendo tremor de terra. Traumatizado, nas noites que se seguiram tinha para adormecer que fazer a aceitação da minha impotência. O seu caso é outro: v. tem de se aceitar como elemento irresponsável dum mecanismo social que o transcende e como peça dum mecanismo funcionar mecanicamente para se defender, matando se for preciso. Em Paris esqueci-me de dizer que fugi, não como uma lebre, o que seria vaidade, mas como um urso que também é capaz de correr bastante. Aí é diferente, você e a sua arma fazem um conjunto que não vale a pena criticar e que tem de ser eficiente para que a peça não se estrague. Não será nunca v., ser pensante e responsável, quem mata, mas o mecanismo no qual v. está integrado. Perante essas circunstâncias tem o dever para consigo próprio de se defender. Mentalmente aceite a situação imaginando as consequências todas, mesmo as humanamente mais repugnantes. A consciencialização dentro dum raciocínio materialista é sempre o caminho certo. Estou convencido que você como indivíduo no meio social em que é obrigado a viver só pode inteligentemente ter esta atitude.»

 

A transcrição foi longa mas bem demonstrativa da formação filosófica e política de C. Ferreira, sustentáculo da coragem de que sempre deu provas nas mais variadas situações.

 

Desde a mais tenra idade, Costa Ferreira tinha a paixão do teatro. Viria, no entanto, a licenciar-se em Junho de 1943 em Ciências Histórico-Jurídicas por amor de seus Pais, tranquilizando-os assim. A sua paixão poderia agora realizar-se com mais facilidade, a sua felicidade poderia agora tornar-se possível dado que não traria tanta preocupação àqueles que mais amava, sendo este outro dos ensinamentos que a vida exemplar de C. Ferreira nos dá – nunca construir a nossa felicidade à custa da infelicidade dos outros.

 

Após alguns anos como advogado e sempre ligado ao teatro, quer como crítico quer como actor, no teatro de amadores e no teatro experimental, quer também como autor, C. Ferreira toma a decisão de abandonar a promissora e proveitosa carreira de advogado, com proventos equivalentes na altura ao vencimento de um Ministro, e ingressa no teatro profissional. Aqui, o carácter de Costa Ferreira vai naturalmente impor-se. Prosseguia a sua luta pela verdade contra os que da verdade se arrogam detentores dentro da profissão que mais desejava.

 

Ao falar de Costa Ferreira não podemos dissociar o homem do criador. O seu comportamento ético é uma constante presença, quer se pense no cidadão ou no criador. Como criador podemos ver que o teatro está sempre presente, embora a sua incursão no campo da ficção novelística, «Uma Família e Duas Repúblicas», não deva ser esquecida e, com notável destaque, na crónica romanceada, «Uma Vida em Cinco Dias», o melhor livro que em Portugal se publicou sobre o Maio de 68, e no campo das memórias com «Uma Casa com Janelas para Dentro», que nenhum historiador que sobre o nosso século se debruce poderá, em nossa opinião, ignorar – obra-prima lhe chamou Carlos Porto. Foi dos autores mais representados na década de 50, período áureo do Teatro Português. É bom recordar a feroz censura que se exercia sem qualquer disfarce. Assim, para se chegar ao público, razão de ser do teatro, havia que usar de muita imaginação, mais ainda se se queria continuar independente e do lado dos que contra a ditadura continuavam a lutar. C. Ferreira de modo algum poderia deixar de ser coerente consigo próprio. A crítica que dos mesmos ideais comungava compreendeu; críticos houve, no entanto, ligados ao regime que tentaram lançar a confusão dizendo bem. Podemos dizer que era uma forma inteligente de actuar.

Jorge de Sena, o tão brilhante e tão injustamente tratado escritor, estava entre os críticos de teatro mais exigentes e, há que dizê-lo, dos que melhor serviu o Teatro Português e o Teatro em Portugal. Mas não há bela sem senão. A amizade que o ligava a C. Ferreira terá levado Jorge de Sena a ser mais exigente e mais exigente também por lhe reconhecer grande talento. Este facto, ligado à percepção que C. Ferreira tinha de quererem transformá-lo num dos intelectuais protegidos pelo SNI, levou-o a escrever «Os Desesperados» e «O Quarto»,peças naturalmente proibidas pela censura e que as companhias portuguesas continuam lamentavelmente a ignorar, apresentando-nos, muitas vezes, textos sem qualidade. E para quando a reposição de «Trapo de Luxo»?

 

Retiro «Os Desesperados» da estante e leio a dedicatória de Costa Ferreira, datada de 3 de Fevereiro de 1966:

“Para o António Gomes Marques com os votos de que através desta peça sinta os limites das possibilidades naturais do autor e através deles as que lhe foram impostas pela época histórica em que viveu.”

Do C. Ferreira encenador, lembremos o que lhe disse Bernardo Santareno: «Você é sobretudo claridade». Mas essa claridade, como ele próprio disse, «era a tal janela aberta para dentro, por onde deve entrar toda a luz necessária para que as personagens se aproximem de nós e os conceitos se distanciem em noções concretas, objectivas, úteis.».

 

O 25 de Abril de 1974 apanhou o Costa Ferreira a encenar «Os Desesperados», com Amélia Rey Colaço na protagonista, “Bela, a «pega» reformada e estrambótica que anela sair de si, comungar com os outros, ajudar seja a quem for, essa mesma criatura, que foi objecto inerte de caricaturas de amor, agora habitada pela solidão e por esse urgente amor intacto que a leva ao encontro dos seres mais vários resume em si uma condição e uma situação”, como escreve Urbano Tavares Rodrigues no prefácio à edição da colecçãode teatro da Minotauro, de Dezembro de 1961. Mas a alegria do 25 de Abril foi bem superior ao desejo de ver representada a sua peça, escrita a pensar em Amélia Rey-Colaço para a protagonista; Costa Ferreira propôs a anulação do espectáculo, apesar da discordância de alguns amigos, entre os quais eu me encontrava, por, disse ele, não querer apresentar uma peça sua, em que predomina o tom desesperado, num momento de alegria e de libertação para o povo português. E assim ficou inédita uma peça de teatro português que, ainda hoje ou sobretudo hoje, merece os aplausos e a reflexão dos espectadores.Deve também acrescentar-se que Amélia Rey Colaço suspendeu a companhia, atendendo ao momento histórico que se vivia.

 

A Costa Ferreira foram prestadas algumas homenagens públicas que muito o sensibilizaram. Mas a melhor homenagem que se lhe pôde e pode prestar é representá-lo, como o fez o CDIAG, da Amascultura, levando à cena, em 1992, «Onde Está a Música?», numa encenação de Rui Mendes, emcuja estreia Costa Ferreira, já bastante debilitado, esteve presente, tendo, inclusivamente, assistido ao ensaio-geral.

 

Há 2/3 anos fui contactado pelo Luís Francisco Rebello dizendo-me que queria falar comigo sobre a obra do Costa Ferreira, dado que a Imprensa Nacional-Casa da Moeda tinha mostrado abertura para a publicação de todo o seu teatro, que espero venha a acontecer apesar de L. F. Rebello, entretanto, nos ter deixado. Falámos sobre as peças e tive a oportunidade de lhe entregar uma cópia de um dos mais belos textos de teatro português que conheço, «O Fim da Paciência», segundo uma novela de José Saramago, com adaptação de Costa Ferreira e do próprio José Saramago, que o Rebello desconhecia. A publicação da obra teatral de Costa Ferreira será um acto cultural de extrema importância e uma forma de o país colmatar um pouco a dívida que tem para com esta grande figura do teatro português.

 

Na fotografia: Costa Ferreira com Armando Cortez em O Tinteiro.

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