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No início de abril passado, recebi um e.mail de Renato Figueiredo, jovem aluno do curso de jornalismo da Faculdade de Artes e Comunicação da Universidade Santa Cecília-UNISANTA, de Santos. Na mesma mensagem, Renato me pedia uma entrevista sobre a Semana de Arte, pois estava preparando um trabalho sobre o evento. Renato Figueiredo e colegas do quarto ano do mencionado curso acabam de publicar o n° 130-abril/2012 do jornal-laboratório do quarto ano de jornalismo da Faculdade que os prepara, Primeira Impressão, numa muito interessante edição sobre os 90 anos da Semana de Arte Moderna. Em seguida, transcrevo as perguntas do jovem futuro jornalista paulista, acompanhadas de minhas correspondentes resposta.
1 – Quais foram os eventos que levaram à realização da Semana? O que motivou os artistas a parteciparem?
A realização final da Semana tem inúmeros e variados exemplos, tantos e tamanhos que chegam a cobrir os vários anos que antecedem o grande evento de fevereiro. Tais exemplos partem desde o seu início na ação dos jovens escritores brasileiros que desde 1909, com a fundação e divulgação do Movimento Futurista italiano (o fulcro de todas as vanguardas), até o conhecimento de outros que se formam na Europa e projetam os movimentos das chamadas “vanguardas históricas “ – Expressionismo, Cubismo, Sensacionismo, Dadaísmo etc. – mantêm profundos contatos com as revoluções estéticas internacionais. Um exemplo dessa ação dos futuros modernistas brasileiros se encontra nas várias viagens que o jovem Oswald de Andrade faz então para a Europa, em particular em contatos com Paris e os movimentos franceses; bem como com o intercâmbio com jovens escritores europeus das nascentes vanguardas, com viagens desses ao Brasil. Como é o caso excepcional das viagens brasileiras de Blaise Cendrars.
Outro eventos importantes para o processo que habitualmente chamamos de “período pré-modernista ou pré-modernismo“ é aquele da interrelação das artes no período das vanguardas, em particular daquelas visuais com a literatura. Este fenômeno de interrelações das artes se demonstram no pré-modernismo com importantes exposições de artistas como Anita Malfatti, Brecheret e muitos outros, exposições estas que sempre contam a ação crítica dos jovens vanguardista em embrião. Esta função de crítico de arte por parte de escritores se fará uma realidade na vida cultura brasileira, tendo em Mário de Andrade um dos seu nomes principais. (Tal prática continua nos tempos, até hoje, com nomes como o de Murilo Mendes, e atualmente com a presença de escritores como Ferreira Gullar, José Roberto Teixeira Leite, Sílvio Castro, etc., atuantes nos quadros da Associação Brasileira de Críticos de Arte-ABCA, com sede central em São Paulo e conexão com a Associação Internacional de Críticos de Arte-AICA, um órgão oficial da UNESCO.
Quanto aos assuntos gerais presentes neste item 1, cf. o meu estudo Teoria e Política do Modernismo Brasileiro, Ed. Vozes, Petrópolis-Rio de Janeiro, 1979; bem como os diversos caps. do volume III da minha (com a colaboração de uma equipe de especialistas brasileiros, portugueses e italianos) História da Literatura Brasileira, 3 vv., Publicações ALFA, Lisboa, 1999-2000.
2 – Qual foi a influência da Semana na época em que ela aconteceu?
A influência da Semana na sua época, isto é, por todo o arco da vida brasileira que constitui aquele que eu denomino em meus vários trabalhos “Período da Modernidade brasileira“, período este que cobre praticamente todo o nosso século XX, tal influência foi rápida, ampla e igualmente global. Os jovens escritores vanguardistas já se encontravam prontos para o grande salto mesmo alguns anos antes de 1922, mas sabiamente adiado para que coincidisse com o ano do 1º. Centenário da independência do Brasil – momento de grandes manifestações e promoções destinadas a uma divulgação mundial – coisa que muito inteligentemente foram consideradas essenciais para o melhor lançamento de um proposta revolucionária como seria o Movimento Modernista. A Semana, com o seu programa fortemente visível à sociedade em geral, foi o batismo de um tal revolucionário surgimento de idéias. Algumas semanas depois que São Paulo e Rio haviam tomado conhecimento do movimento dos moços modernistas, grande parte do país começa a receber as mesmas comunicações. Em pouco tempo essas se fazem praticamente atuantes em várias partes do território brasileiro, em particular no Nordeste , a começar por Pernambuco, e nos demais estados do Sul, apoiados em São Paulo. Com a Revolução de 30, tal divulgação passa a ser mais concretamente nacional, isto porque a política que da Revolução deriva se reconhece inspirada nas lições de modernidade propostas pelos vamgiardistas de 22. Tudo isso foi reconhecido e divulgado nas publicações e depoimentos públicos de Getúlio Vargas. Daí em diante, praticamente até os nossos dias, tal influência se faz consciente e natural. Estes conceitos eu os desenvolvo sempre em diversos livros meus: além dos dois títulos já citados, se confira igualmente em a) A Revolução da Palavra – Origens e estrutura da literatura brasileira moderna, Ed. Vozes, Petrópolis-Rio de Janeiro, 1976; b) Modernização Modernidade – 7 Poetas contemporâneos da Academia Brasileira de Letras, Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2006; c) Machado de Assis e a Modernidade Brasileira, Academia Brasileira de Letras-Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, 2009.
3 – É possível ver influências das mudanças que ela trouxe hoje em dia?
A resposta, em coordenação com quanto ja afirmado acima, é absolutamente sim. Isto tanto nos campos literário e artísticos, bem como na política que hoje guia o Brasil na direção daquilo que eu – no meu livro ainda inédito, com publicação programada para ainda este 2012: Poesia do Social e do Socialismo brasileiro (Séculos XIX e XX).
Tudo isso, nos seus variados ângulos, se encontra nos meus livros já citados.
4 – Houve repercussão internacional da Semana?
Certamente houve uma repercussão internacional da Semana e do consequente Movimento Modernista. A começar por Portugal, com os vários Modernismos portugueses (vários porque, ao contrário daquele brasileiro, marcadamente diversos entre eles). E aqui é de particular importância as ações de escritores como Ronald de Carvalho, Cecília Meireles etc. Quanto à França, notável é a divulgação de reciprocidade feita pelo já citado Balise Cendrars, mas igualmente por outros escritores, como Bernanos que no Brasil serviu como embaixador oficial da França. Quanto à Itália, tudo começa com Marinetti que por duas oportunidades visitou o Brasil; para alargar-se posteriormente com Ungaretti que nos anos da década de 30 ensinou literatura italiana na Universidade de São Paulo. E na Espanha, na Suiça, na Alemanha.
5 – Qual a sua opinião sobre as declarações feitas pelo poeta Lêdo Ivo no ensaio “Os modernismos do século XX, onde ele alega que a Semana de Arte Moderna de 1922 é erroneamente considerada o acontecimento mais importante da vida cultural brasileira do século passado? Há alguma base na ideia de que o evento foi ganhando proporções maiores do que as devidas?
As idéias divulgadas pelo meu querido amigo Ledo Ivo no ensasio citado correspondem à necessidade sentida pelos jovens escritores da Geração de 45 quanto a uma própria afirmação, bem como a do período por eles inaugurado. Naturalmente com o passar dos anos e com as conquistas que esses mesmo escritores paulatinamente alcançaram tais radicalidades cedem o posto a uma melhor e mais coerente visão da nossa modernidade. Então, tanto a posia, quanto a crítica de Ledo Ivo assumem dimensões notáveis e estáveis.
6 – Existiram outros eventos desse tipo que, em alguma época marcaram de forma semelhante a cena cultural do país?
Entre modernização e modernidade decorre a história cultural do Brasil enquanto nação. Sendo o Movimento Modernista de 22 a origem de toda a nossa modernidade, dificilmente poderemos equacionar outros exemplos da fase histórica da Modernização como semelhante em intensidade ao Movimento de 22. Permanecendo somente no plano literário, direi que o surgimento do Simbolismo brasileiro, com a poesia de Cruz e Sousa, mostra um tipo de impacto semelhante, ainda que sempre distinto. Por isso mesmo, eu sempre considero que, nas origens da Modernidade literária brasileira, o nosso Simbolismo poético pode e deve ser considerado como fonte essencial da vanguarda modernista.
7 – O que o levou a se interessar pelo estudo deste tema?
O meu interesse por este tema não o vejo isolado, mas como parte integrante de meus projetos para uma melhor definição de uma literatura brasileira autônomo, independente e fortemente criadora. Neste sentido chamo de novo a atenção para a minha bibliografia pessoal, elaborada entre os meus títulos gerais como os mais finalizados aos temas que podem responder às suas perguntas, caro Renato.
