Análises sobre a crise, olhares sobre a Europa, olhares sobre o crime que contra esta os seus dirigentes estão a cometer

Selecção, tradução e introdução por Júlio Marques Mota

 

1. Portugal – Por favor, quando sair desligue as luzes! – IV

 

Edward Hugh

 

(continuação)

 

Então, onde estão os problemas?

 

Bem, é essa a pergunta que se faz em relação às boas notícias. Apesar do alto nível de desempenho do programa, o país continua a enfrentar graves “desafios”  uma vez que  implementar  as reformas e aplicar as políticas de austeridade é uma coisa e alcançar o crescimento e a redução da dívida é mesmo outra coisa. Não sem surpresa, a economia está em profunda recessão. O FMI espera que a economia se contraia em 3,3% em 2012, e que volte ao crescimento mas de forma tímida em 2013 (0,3%). Mas, como o próprio Fundo reconhece, há fortes riscos de derrapagem relativamente às previsões para 2013, e não é improvável que a economia venha mais uma vez a contrair-se.

 


Igualmente preocupante, o desemprego já começou a subir acentuadamente, levantando algumas questões sobre a possibilidade de uma “viragem à grega” em termos de protestos e de manifestações. Além do sofrimento social causado, este aumento do desemprego está a ter duas consequências graves. Os objectivos iniciais quanto ao défice não vão agora ser cumpridos mesmo com estes cortes salariais do sector público e a juventude de elevada formação está a deixar o barco nacional em números crescentes. 

 

 

Como diz o FMI na sua revisão do programa de Abril, o país está a realizar um grande ajuste macro económico com apenas uma “restrita caixa de ferramentas ” disponível (um eufemismo presumo, para se referir à impossibilidade de desvalorizar).

 

O relatório do FMI, aliás, foi bastante franco e realista sobre os problemas que o país enfrenta, o que não é habitual, e foi muito mais explícito sobre as questões do que no seu relatório com a Roménia que eu li na semana passada.


Por um lado, eles afirmam que “os indicadores de competitividade estão a mostrar  alguns sinais de melhoria com a queda dos salários em alguns sectores e uma melhoria considerável no défice da sua  conta corrente em 2011” …. ainda …. “Apesar deste progresso, permanecem desafios formidáveis… o exercício simultâneo da austeridade orçamental, das  reformas estruturais e da desalavancagem  da economia –  objectivos que podem trabalhar  de forma cruzada –  aumenta o risco de que os objectivos do programa em querer  reduzir rapidamente os desequilíbrios macroeconómicos continuem,  no curto prazo, a  não serem possíveis de alcançar.  “.


 

Mas em termos macroeconómicos estamos aqui a falar de quê?

 

Bem, em primeiro lugar e apesar das melhorias acima mencionadas, o país ainda continua a ter a sua balança comercial deficitária.

 

 

 

E enquanto o défice em conta corrente foi substancialmente reduzido, o FMI ainda estima uma contracção de 4% do PIB para 2012. Mais revelador ainda, eles vêem o país como estando a ser incapaz de reduzir o défice abaixo dos 3% do PIB antes de 2018. Para realmente começar a ter um crescimento sustentável baseado nas exportações e continuando a redução da dívida em curso (o que o FMI chama de  “estabilidade externa”) teremos de ter, lembremo-nos,  o movimento da conta corrente a alcançar a posição de superavit, e de assim permanecer. Desde modo será que estamos agora frente a um caso de árvores de fruto muito pequenas e baixas  que foram já apanhadas? De toda a maneira,  e tendo em conta os avisos do FMI, não parece irrealista supor que Portugal vai precisar de algum tipo de apoio para a sua correcção em todo o resto da década. Isso é o que significa ter uma “restrita caixa de ferramentas “, pensamos nós.


A retoma das exportações  portuguesas  pós 2009 foi forte.

 

 

Mas da mesma forma que a maioria das outras economias da periferia, a desaceleração do  crescimento no mercado europeu e dos países emergentes está  a tornar cada vez mais difícil sustentar   esta melhoria  relativamente ao  desempenho das exportações. De facto, a taxa de crescimento das exportações tem estado a diminuir  e agora caiu já no território negativo  assumindo uma base inter-anual. 

 

 

Obviamente, as exportações portuguesas subirão uma vez mais quando o crescimento global começar a recuperar, mas de quanto é eles poderão aumentar sem uma mudança muito maior ainda nos preços relativos? Como parte da sua terceira revisão do programa o FMI realizou um estudo quanto à competitividade e como resultado o Fundo estimou que a diferença de competitividade será de cerca de “13-14 por cento a partir de 2010”, notando de passagem, que “a diferença actual tem até agora sido apenas marginalmente reduzida (por cerca de 1 ponto percentual) “.


Usando uma abordagem na análise da estabilidade externa que se centra na redução da posição líquida do investimento internacional também se verifica que para “reduzir em  metade a posição líquida do investimento internacional em Portugal, que é altamente negativa, (cerca de -52 por cento do PIB), seria necessário uma depreciação da taxa de câmbio real de cerca de 13 por cento “.


Ambas as formas de olhar a questão parecem dar um resultado semelhante – que é necessário  a melhoria da  competitividade em cerca  de 13%  – e dado que  também se verifica  que “desde o pico em 2009, o ajustamento  nos custos unitários do trabalho tem sido bastante limitado. Em particular, a partir do terceiro trimestre de 2011, a taxa de câmbio efectiva real baseada nos custos unitários terá variado apenas 2-3 por cento abaixo do seu valor de pico de 2009 ” e mostra bem claramente que há ainda um longo caminho a percorrer.


 

 

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