Na nota introdutória a Cantares (1ª edição, Tomar, 1967), Manuel Simões interroga-se: «De facto, ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: – ‘Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se nos torna familiar? ‘. De tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de uma voz que sempre nos acompanhou». Escritas estas palavras, ainda antes do Maio de 68, a voz do Zeca iria acompanhar-nos ainda pelos vinte anos que se seguiram e durante os quais tantas coisas mudaram nas nossas vidas. Agora, vinte e cinco anos após se ter fisicamente silenciado, ela continua a viver dentro de nós, acompanhando-nos como um imperecível eco de expectativas iludidas, de aspirações não realizadas e de persistentes injustiças. Continua sendo a nossa voz.
Ao evocar o nascimento e a infância, Zeca refere «uma luz láctea; uma luz imanente, uma luz muito vital (…) uma larva branca». Em termos menos poéticos, digamos que nos três primeiros anos de vida, enquanto os pais vão para Angola, por uma questão de saúde, ficará em Aveiro, na casa da Fonte das Cinco Bicas, deixado ao cuidado do tio Chico (republicano e anticlerical) e da tia Gegé. Em 1933, somente com três anos e meio, vai para Angola, para onde seus pais tinham ido já em 1930. Seu pai fora colocado como Delegado do Ministério Público em Silva Porto (actual Menongue). Ficará três anos em Angola, ali iniciando a instrução primária. África surge aos seus olhos de criança como «uma coisa imensa, uma natureza inacessível que não tinha fim» (…) «as grandes trovoadas, os gafanhotos, florestas, travessias de rios em barcaças.» Em 1936 regressa a Aveiro, onde ficará ao cuidado de umas tias «afáveis», usando uma expressão do próprio Zeca. No ano seguinte, já com oito anos, irá para Moçambique: «Pouco tempo ali estou, mas é de novo o paraíso» (…) «Eu sonhava nunca mais abandonar aquela terra». Mas a itinerância continua: em 1938 volta a Portugal, ficando em casa de seu tio Filomeno, presidente da Câmara Municipal de Belmonte.
Em 1940 vai para Coimbra ao cuidado de uma tia paterna, a tia Avrilete, matriculando-se no Liceu D.João III. Neste liceu conhecerá António Portugal e Luiz Goes, futuros companheiros de andanças musicais. Entretanto, seguindo novamente a itinerância profissional de seu pai, a família vai de Moçambique para Timor, que em 1942 é invadido e ocupado por forças japonesas. Até 1945, ano em que termina a II Guerra Mundial, Zeca ficará sem notícias dos pais e da irmã Mariazinha (João, seu irmão, viera também para Portugal). Por volta de 1945, começa a cantar serenatas. Gozando do estatuto de «bicho-cantor», não sofre os tormentos praxistas que as trupes reservam aos estudantes liceais. Não sendo demasiado aplicado, é reprovado dois anos e só em 1948, com quase 19, conclui o curso dos liceus. Nesse mesmo ano, casa com Maria Amália de Oliveira. Viaja em digressões com a Tuna Académica e pratica futebol na Associação Académica de Coimbra. Em 1949, dispensa no exame de aptidão à Universidade, matriculando-se na Faculdade de Letras, no primeiro ano do curso de Ciências Histórico-Filosóficas. Integrado no Orfeão Académico, vai a Angola e a Moçambique.
Na Universidade convive com os cantores Augusto Camacho, Fernando Machado Soares e Napoleão, com o guitarrista António Brojo e com os seus companheiros do liceu Luiz Goes e António Portugal. Contacta também duas figuras cimeiras do fado coimbrão – os guitarristas Artur Paredes (pai do grande Carlos Paredes, que virá a conhecer em Grândola, na memorável sessão da Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, em Maio de 1964) e Flávio Rodrigues, o famoso «guitarrista-barbeiro». Para sobreviver, dá explicações e faz a revisão ortográfica do Diário de Coimbra. São editados os seus dois primeiros discos (em 78 r.p.m.).
