Diário de Bordo de 3 de Agosto de 2011

 

 

José Saramago, falando sobre Cavaco Silva, dizia que nas suas intervenções, o presidente assumia uma pose professoral, actuando sempre como numa lição. Porém, acrescentava o Nobel, essas lições eram um amontoado de banalidades. E concluía – “Cavaco Silva é um génio da banalidade”. Pois bem, parece-nos que, embora com o presidente da República, o vazio de ideias atinja proporções exageradas, a etiqueta de “génio da banalidade” se pode aplicar à grande maioria das figuras dominantes da política e da economia nacionais.

 

 

Eduardo Catroga dizia há tempos, justificando os vencimentos chorudos, que pessoas como ele, tinham de ser bem pagas. E insinuava que, caso contrário (se aqui não lhes pagassem aquilo que merecem) emigrariam. Comparava-se mesmo a Cristiano Ronaldo. Pois bem, sejamos claros – Cristiano Ronaldo é um dos melhores jogadores de futebol do mundo – o que sabe fazer, é válido aqui, em Espanha, em Inglaterra, em todos os países onde se jogue futebol. Catroga fora de Portugal o que vale? Sem os apoios políticos, os compadrios, sem o crapuloso jogo de influências, poderia ser mais do que porteiro de um banco em Madrid ou em Londres? Talvez sim, talvez não.

 

 

Miguel Pais do Amaral deveria estar no Guiness – 73 cargos em conselhos de administração – outro “génio da banalidade” que, interrogado sobre uma tão grande acumulação, respondeu que acha alguma piada ao facto de ser o português que mais cargos de gestão ostenta. E, como atenuante, declara ser accionista de todas as empresas onde é administrador. “O que é recomendável em qualquer regra de corporate finance”, acrescentou como justificação.

 

 

Ah bem!  Cumprida essa regra de corporate finance tudo fica explicado. E nós que estávamos a ficar preocupados, interrogando-nos como lhe chegava o tempo para administrar 73 empresas e se não haveria eventuais conflitos de interesses… 

 

 

Sem atingir números tão expressivos, há muitos mais “génios” insubstituíveis a ocupar numerosos cargos em conselhos de administração. Gente que aufere vencimentos milionários porque, tal como os futebolistas, ou são bem pagos ou emigram.

 

 

Quem tenha gerido ou participado na gestão de uma empresa, mesmo de pequena ou média dimensão, sabe as dificuldades que essa tarefa apresenta. Administrar 73 grandes empresas? De facto, Catroga tem razão. Cristiano Ronaldo só consegue jogar no Real Madrid…

 

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