DIÁRIO DE BORDO, 4 de Agosto de 2012

 

Um dos progressos mais significativos da nossa civilização nos últimos decénios foi sem dúvida o controle da poliomielite, isto é, das condições favoráveis à propagação desta doença viral, altamente contagiosa. Parece que actualmente continua a existir no estado endémico no Paquistão, no Afeganistão e na Nigéria. Este tipo de informações deve ser visto com alguma cautela, pois muitas vezes registam-se avanços e recuos devido a diferentes causas. Um dos factores que perturba a obtenção de bons resultados é a agitação política e social nos países em questão.


Diário de Bordo leu no Expresso de 28 de Julho (há uma semana), numa página designada Fundamentalismo, um artigo com o título Talibãs impedem erradicação da poliomielite no Paquistão. Aos leitores do jornal que leram apenas o cabeçalho terá sido essa a mensagem que chegou. Aos que leram o artigo na totalidade chegou uma mensagem mais complexa. A questão não é menor. Para além de uma situação grave, que afecta significativamente os habitantes do Paquistão e países vizinhos, temos, num jornal respeitável como é o Expresso, um título que sintetiza de uma maneira que não será a melhor, uma situação bastante grave.


O artigo começa por nos informar que um médico paquistanês participou numa operação de espionagem da CIA, que conduziu à morte de Bin Laden, operação essa feita sob a capa de uma campanha de sensibilização pública para os riscos da hepatite B. Foi preso por espionagem contra o Paquistão e condenado a 33 anos de prisão, mas devido a uma acusação de ajudar activistas pró-talibãs feridos, internados no seu hospital. Leon Panetta, chefe da CIA, reconheceu a operação, e sublinhou a sua importância para se encontrar o líder da Al-Qaeda. Entretanto informa-se ainda no artigo, assinado por Javed Rana, que os drones, os aviões não tripulados norte-americanos, mataram mais de 3300 paquistaneses desde 2004, na maioria civis. Sobretudo no nordeste do país, onde a influência dos talibãs é maior, começaram a impedir as acções de vacinação, com o argumento de que servem para espiar e guiar os ataques norte-americanos. No Paquistão, devido a acções desenvolvidas desde os anos 90, com o apoio da ONU, conseguiu-se reduzir a incidência dos casos de poliomielite de 20.000 para 30 anuais, em 2005. Nos últimos anos tem recrudescido, para 198, em 2011-2012, segundo informa Javed Rana. Um chefe tribal terá dito numa assembleia que os drones martirizam mais as crianças que a poliomielite. Daí as restrições que impõem às vacinações. Estas restrições já terão estado na origem de ataques a trabalhadores sanitários. Mas parece que são compreendidas pela população.


As conclusões do chefe tribal e dos talibãs são sem dúvida brutais, próprias de pessoas ignorantes e com pouco respeito pela vida humana. Mas o que dizer de quem usa campanhas de saúde para encobrir acções de espionagem destinadas a preparar ataques a civis e a morte de inimigos? Serão melhores que os talibãs? Diário de Bordo desconfia que não. Talvez até sejam piores. Tem mais dados para medir melhor as consequências das suas acções.

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