De Nova Iorque a Paris, passando por Madrid ou algures, os mesmos vampiros de sempre:

a alta finança, os mesmos funcionários menores, os governos nacionais. Uma nova série.

 

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

4. A caminho da mediocridade, sobre  JP Morgan

 

James Kwak


Eu não tenho escrito sobre a debacle de JPMorgan porque, bem, toda a gente anda a escrever sobre o assunto. Trata-se de um tema de que eu gosto, que me atrai, e que entanto  se tem  tornado numa surpresa para todos  que o acontecido se tenha dado  no JPMorgan, neste que é, supostamente, o melhor e mais competente de todos os  grandes bancos. Por exemplo, Lisa Pollock de Alphaville, que escreveu  uma  das mais detalhadas analises  do  que aconteceu, perguntou: “mas isto  pode realmente acontecer sob o olhar do Presidente Jamie Dimon?” Dawn Kopecki e Max Adelson na Bloomberg referem-se  “à cultivada reputação do risco de JPMorgan”. Artigos sobre o pedido de demissão de  Ina de Drew são muito bons  mas é a sublinharem  o seu sucesso em lidar com a crise financeira de 2007-2009.


“Mulheres altamente inteligentes tendem a casar com homens que são menos inteligentes do que elas.” Porquê? Será que os homens inteligentes não querem competir com as mulheres inteligentes?


Não. Isto deve-se  a que  se pegarmos  em dois resultados de uma  distribuição aleatória, e se o  primeira  for de valor alto, é quase certo que o segundo é de valor baixo, ainda que os dois  resultados  estejam de algum modo correlacionados.. Este exemplo é tirado directamente de Thinking, Fast and Slow by Daniel Kahneman, que estou finalmente a ler.


O resultado de alguém que pode estar a fazer seja o que for, irá então caminhar para a média e com esta também a poder descer, por esta mesma razão de se estar a fazer seja o que for, e assim irá mostrar então um caminho para a mediocridade. Se o que fizer for bem feito, é porque se trata de uma combinação de competência e de sorte. Se JPMorgan se portou bem ao longo da crise financeira é então porque se tratou de uma  combinação de competência  e de sorte. Lembrem-se que JPMorgan não tinha um tão grande portfólio de activos tóxicos como o tinham os seus concorrentes porque já chegou tarde para a festa e só retrospectivamente podemos atribuir este bom resultado à suposta competência de Jamie Dimon. Na minha opinião JPMorgan nunca foi tão bom quanto as pessoas (como os seus defensores e os seus  críticos) pensavam que ele era e  portanto, não devemos ficar surpreendidos por ele ter perdido exactamente  2 mil milhões  (e apurem-se os resultados).


A coisa mais preocupante não é o que os comentadores sentiram por esta ilusão estatística. É sim o facto de que as pessoas dentro de JPMorgan parecem ter também caído nela. Esta foi a resposta de Dimon a uma pergunta sobre se o Chief Investment Office se tinha tornado mais agressivo, como é relatado por Bloomberg:


“Eu não chamaria a isso ser “mais agressivo”. Eu poderia dar-lhe um nome melhor“, Dimon disse ontem aos analistas o seguinte:  “Nós juntamos  diferentes tipos de pessoas, pessoas talentosas e outras que às primeiras se assemelham .” Até muito  recentemente, têm sido cuidadosas e  bem sucedidas, disse ele.


Uma coisa é certa, diga o Presidente do JPMorgan o que disser, não é de repente que as pessoas se transformaram de boas em más, de um dia para a noite. O que acontece é que elas saem de uma situação de sorte para uma situação de azar. Elas são as mesmas pessoas. São as mesmas pessoas a fazerem as mesmas coisas.

 

“Dentro do JPMorgan, a liderança ficou bloqueada segundo dois altos responsáveis da empresa”, o que também foi divulgado pela Bloomberg. Se isso for verdade, isto é uma má notícia para todos nós. Uma coisa é se, como muitos de nós pensamos, o JPMorgan estava a tentar conscientemente assumir maiores riscos (como tem sido amplamente documentado, Dimon forçou o Investment Office Chefe a assumir maiores posições especulativas com fins lucrativos), enquanto  o negava  às entidades reguladoras e à  imprensa. Isso é o que esperamos.


Outra coisa é se o banco não sabia que tipo de riscos é que estava a assumir e em que dimensão. Isso implica que os altos quadros de JP Morgan começaram a acreditar nos seus próprios exageros, ou seja, que realmente são bons, que não há aqui nenhuma questão de sorte. E isso deve levar a que fiquemos todos muito preocupados.

 

James Kwak,  Regression to the Mean, JPMorgan Edition, 14 de Maio de 2012. (Tradução livre)

 

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