a alta finança, os mesmos funcionários menores, os governos nacionais. Uma nova série.
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota
4. A caminho da mediocridade, sobre JP Morgan
James Kwak
Eu não tenho escrito sobre a debacle de JPMorgan porque, bem, toda a gente anda a escrever sobre o assunto. Trata-se de um tema de que eu gosto, que me atrai, e que entanto se tem tornado numa surpresa para todos que o acontecido se tenha dado no JPMorgan, neste que é, supostamente, o melhor e mais competente de todos os grandes bancos. Por exemplo, Lisa Pollock de Alphaville, que escreveu uma das mais detalhadas analises do que aconteceu, perguntou: “mas isto pode realmente acontecer sob o olhar do Presidente Jamie Dimon?” Dawn Kopecki e Max Adelson na Bloomberg referem-se “à cultivada reputação do risco de JPMorgan”. Artigos sobre o pedido de demissão de Ina de Drew são muito bons mas é a sublinharem o seu sucesso em lidar com a crise financeira de 2007-2009.
“Mulheres altamente inteligentes tendem a casar com homens que são menos inteligentes do que elas.” Porquê? Será que os homens inteligentes não querem competir com as mulheres inteligentes?
Não. Isto deve-se a que se pegarmos em dois resultados de uma distribuição aleatória, e se o primeira for de valor alto, é quase certo que o segundo é de valor baixo, ainda que os dois resultados estejam de algum modo correlacionados.. Este exemplo é tirado directamente de Thinking, Fast and Slow by Daniel Kahneman, que estou finalmente a ler.
O resultado de alguém que pode estar a fazer seja o que for, irá então caminhar para a média e com esta também a poder descer, por esta mesma razão de se estar a fazer seja o que for, e assim irá mostrar então um caminho para a mediocridade. Se o que fizer for bem feito, é porque se trata de uma combinação de competência e de sorte. Se JPMorgan se portou bem ao longo da crise financeira é então porque se tratou de uma combinação de competência e de sorte. Lembrem-se que JPMorgan não tinha um tão grande portfólio de activos tóxicos como o tinham os seus concorrentes porque já chegou tarde para a festa e só retrospectivamente podemos atribuir este bom resultado à suposta competência de Jamie Dimon. Na minha opinião JPMorgan nunca foi tão bom quanto as pessoas (como os seus defensores e os seus críticos) pensavam que ele era e portanto, não devemos ficar surpreendidos por ele ter perdido exactamente 2 mil milhões (e apurem-se os resultados).
A coisa mais preocupante não é o que os comentadores sentiram por esta ilusão estatística. É sim o facto de que as pessoas dentro de JPMorgan parecem ter também caído nela. Esta foi a resposta de Dimon a uma pergunta sobre se o Chief Investment Office se tinha tornado mais agressivo, como é relatado por Bloomberg:
“Eu não chamaria a isso ser “mais agressivo”. Eu poderia dar-lhe um nome melhor“, Dimon disse ontem aos analistas o seguinte: “Nós juntamos diferentes tipos de pessoas, pessoas talentosas e outras que às primeiras se assemelham .” Até muito recentemente, têm sido cuidadosas e bem sucedidas, disse ele.
Uma coisa é certa, diga o Presidente do JPMorgan o que disser, não é de repente que as pessoas se transformaram de boas em más, de um dia para a noite. O que acontece é que elas saem de uma situação de sorte para uma situação de azar. Elas são as mesmas pessoas. São as mesmas pessoas a fazerem as mesmas coisas.
“Dentro do JPMorgan, a liderança ficou bloqueada segundo dois altos responsáveis da empresa”, o que também foi divulgado pela Bloomberg. Se isso for verdade, isto é uma má notícia para todos nós. Uma coisa é se, como muitos de nós pensamos, o JPMorgan estava a tentar conscientemente assumir maiores riscos (como tem sido amplamente documentado, Dimon forçou o Investment Office Chefe a assumir maiores posições especulativas com fins lucrativos), enquanto o negava às entidades reguladoras e à imprensa. Isso é o que esperamos.
Outra coisa é se o banco não sabia que tipo de riscos é que estava a assumir e em que dimensão. Isso implica que os altos quadros de JP Morgan começaram a acreditar nos seus próprios exageros, ou seja, que realmente são bons, que não há aqui nenhuma questão de sorte. E isso deve levar a que fiquemos todos muito preocupados.
James Kwak, Regression to the Mean, JPMorgan Edition, 14 de Maio de 2012. (Tradução livre)
