Desde que foi decretada a crise da dívida pública com epicentro na Zona Euro, na sequência da crise financeira mundial que dizem originada no escândalo dos subprimes nos Estados Unidos, alguma coisa mudou para melhor?
Alguma das situações diagnosticadas como sendo as mais graves – Grécia, Portugal ou Irlanda – melhorou?
A estratégia de combate aos problemas alterou-se?
O euro, como moeda única em 17 países, está mais forte e consolidado?
Nada é tão fácil como responder acertadamente a estas perguntas. E a resposta é “não” para todas elas.
Sem perder muito tempo e espaço com o que é do conhecimento geral, três anos, muitas cimeiras, promessas, mentiras e reuniões magnas depois, as dívidas públicas mais problemáticas na Zona Euro, incluindo as citadas mas também as de países estratégicos como Espanha e Itália, continuaram a crescer em termos absolutos e relativos. Indicadores sociais sensíveis, sobretudo o desemprego, atingem níveis assustadores sem que se note qualquer sinal de inflexão apesar das muitas declarações e dos sucessivos planos anunciados para combater o problema.
Apear da persistência e agravamento da crise, os centros de decisão económicos mundiais – aos quais os políticos estão subordinados – continuam a insistir na estratégia estabelecida no primeiro momento: austeridade, liberalização do mercado de trabalho, redução e liquidação dos direitos sociais do trabalho, “rigor orçamental”, tudo na procura da “tranquilidade dos mercados” e da sobrevivência do euro.
Os primeiros indícios que surgem enquanto se esgota o período estival prometem mais do mesmo: mais crise e a mesma estratégia para a “combater”, agravando-a.
Bastam reflexões guiadas pelo senso comum para se perceber que nada disto bate certo em termos da lógica explicada pelos principais dirigentes europeus e mundiais. Por detrás desta degradação que se arrasta enquanto se diz que no próximo ano é que é, tudo vai melhorar, está o que se faz e não se explica, está a estratégia que guia a depredadora ofensiva global contra os direitos do trabalho.
Recordemos as palavras de Alessio Rastani, um destacado quadro do banco norte-americano Goldman Sachs, quando explicou à BBC que “há muito dinheiro a fazer em situação de crise”.
Realista, a explicação é, apesar de tudo, parcial, simplista e conjuntural. Há muito mais por detrás da crise do que fazer dinheiro agora. O que se procura, de facto, com a mentira da estratégia de suposto combate à crise através da austeridade é garantir lucros insultuosos e permanentes através do desmantelamento absoluto do sistema de trabalho que tem existido. O objectivo desta crise, podem estar certos, é transformar o trabalho numa actividade à mercê absoluta dos que o proporcionam, sejam Estados, sejam entidades privadas. Um trabalho sem direitos, sem vínculos, sem segurança, sem horários, aleatório, discricionário, totalmente precário, assente em bolsas de desemprego que mais não são do que updates das degradantes praças de jorna. A ofensiva em curso através da crise é a cavalgada desenfreada do capitalismo, através da ortodoxia neoliberal, para arrasar todas as componentes sociais e de dignificação do trabalho que levaram 150 anos, milhões de vidas humanas e rios de sangue a edificar.
A crise é ela mesma a estratégia para impor o regresso a relações esclavagistas de trabalho. A crise é o regime para a restauração da escravatura. Só assim se explica que os “mercados” e seus servidores na política insistam em impor sacrifícios sociais que agravam a envergadura desses sacrifícios sociais enquanto mentem dizendo que tudo é praticado para assegurar o futuro das vítimas.
Mais alarmante ainda é o facto de a informação, o reconhecimento desta realidade e a reacção das vítimas não estarem, nem de perto nem de longe, ao nível da capacidade devastadora da ofensiva.
