A ViIDA DOS SONS”: deseja-se menos cinzenta e mais multicolor (VII) – 4 – por Álvaro José Ferreira

1974 (Continuação)

8. Falecimento do pianista e compositor norte-americano Duke Ellington; de nome verdadeiro Edward Kennedy Ellington, nasceu a 29 de Abril de 1899 e deu uma enorme contribuição ao jazz e à música americana em geral, combinando o blues, o jazz e o som das grandes “big bands” de swing; a sua orquestra manteve-se no topo da popularidade de 1926 a 1974 e a edição de discos continuou para além da sua morte, pois deixou um numeroso rol de canções por gravar ou novas versões de temas antigos; com mais de 200 discos gravados, é impressionante como conseguiu manter tão abundante produção num elevado nível de qualidade; filho de um mordomo da Casa Branca, começou a ter lições de piano aos sete anos de idade, compondo os primeiros temas na adolescência; abandonou o liceu em 1917 para se dedicar inteiramente à música, fundando uma banda, os Washingtonians, que se mudaram para Nova Iorque em 1923; nos anos imediatamente seguintes, o grupo gravou diverso material, sob vários pseudónimos, para editoras diferentes pelo que, ainda hoje, a sua obra surge com diversas chancelas; o grupo foi aumentando gradualmente de dimensão, sob a liderança de Duke Ellington; tocavam no chamado estilo “jungle”, com arranjos minimalistas e uma presença forte da trompete: um bom exemplo disto é a primeira canção assinada por Duke, “East St. Louis Toodle-oo” [>> YouTube], gravada inicialmente para a Vocalion Records em Novembro de 1926; no ano seguinte, a canção seria reeditada pela Columbia, tornando-se no primeiro single do grupo a figurar nas tabelas de vendas; a banda de Ellington mudou-se então para o Cotton Club, em Harlem, no ano de 1927: a sua permanência nesse clube de renome, durante três anos, granjeou-lhe ampla notoriedade e popularidade, graças à transmissão radiofónica das actuações da banda; no ano de 1928, sob a designação de Harlem Footwarmers, são editados dois singles de grande êxito: “Black and Tan Fantasy” [>> YouTube] / “Creole Love Call” [>> YouTube] e “Doin’ the New Low Down” [>> YouTube] / “Diga Diga Doo” [>> YouTube]; no ano seguinte, a banda toca no musical da Broadway “Show Girl”, com música de George Gershwin; em Fevereiro de 1931, o grupo deixou o Cotton Club, para iniciar uma digressão que, em boa verdade, só terminaria com a morte do líder, 43 anos depois; durante as décadas de 30 e 40, a Duke Elligton Orchestra tocou em teatros, clubes de jazz, na rádio e fez diversas digressões pelo estrangeiro, sendo conhecida pelo grande número de solistas talentosos que a compunham: em 1943, Ellington conduziu a sua banda no primeiro de nove concertos anuais no Carnegie Hall, em Nova Iorque e, em Julho de 1956, teve uma performance histórica no Festival de Jazz de Newport, com “Diminuendo and Crescendo in Blue”, muito graças à soberba prestação do saxofonista tenor Paul Gonsalves [>> YouTube] [no Concertgebouw, Amsterdão, 1958 >> YouTube]; entre os temas mais famosos do seu vastíssimo repertório contam-se “Black Beauty” [>> YouTube], “The Mooche” [>> YouTube] [ao vivo >>YouTube], “Rockin’ in Rhythm” [>> YouTube] [ao vivo >>YouTube], “Mood Indigo” [>> YouTube] [ao vivo >> YouTube], “It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got that Swing)” [>> YouTube] [com Louis Armstrong >> YouTube], “Sophisticated Lady” [>> YouTube] [ao vivo >>YouTube], “Solitude” [>> YouTube], “In a Sentimental Mood” [com John Coltrane (saxofone) >> YouTube], “Echoes of Harlem” [>> YouTube], “Caravan” [>> YouTube] [ao vivo >>YouTube], “Drop Me off at Harlem” [>> YouTube] [com Louis Armstrong >> YouTube], “I Let a Song Go Out of My Heart” [>> YouTube], “Prelude to a Kiss” [>> YouTube], “Boy Meets Horn” [>> YouTube], “Satin Doll” [>> YouTube] [ao vivo >> YouTube] e “Take the a Train” [>> YouTube] [>> YouTube]; Duke Ellington compôs também obras conceptuais, algumas de grande envergadura: de grande envergadura: “Black, Brown and Beige” (1943) [parte 1 >> YouTube] [parte 3>> YouTube], [“Blues in Orbit” >> YouTube], [“Come Sunday”, com Mahalia Jackson >> YouTube], “Liberian Suite” (1948) [I. Like the Sunrise >> YouTube, Dance No. 1>> YouTube, Dance No. 2 >> YouTube, Dance No. 3 >> YouTube, Dance No. 4 >> YouTube, Dance No. 5 >> YouTube], “Such Sweet Thunder” (1957) [1. “Such Sweet Thunder”>> YouTube] [10. “Madness in Great Ones” >> YouTube] [16. “A-Flat Minor” >> YouTube] [19. “Suburban Beauty” >> YouTube], “A Concert of Sacred Music” (1965) [>> YouTube], “Concert in the Virgin Islands” (1965) [1. “Island Virgin” >> YouTube], “Far East Suite” (1967) [1. “Tourist Point of View” >> YouTube] [2. “Bluebird of Delhi (Mynah)” >> YouTube] [3. “Isfahan” >> YouTube] [5. “Mount Harissa” >> YouTube] [6. “Blue Pepper (Far East of the Blues)” >> YouTube] [7. “Agra” >> YouTube] [8. “Amad” >> YouTube] e “New Orleans Suite” (1971) [1. “Blues for New Orleans” >> YouTube] [2. “Bourbon Street Jingling Jollies” >> YouTube] [3. “Portrait of Louis Armstrong” >> YouTube] [4. “Thanks for the Beautiful Land on the Delta” >> YouTube] [5. “Portrait of Wellman Braud” >> >> YouTube] [6. “Second Line” >> YouTube]; a Duke Ellington se devem igualmente as bandas sonoras dos filmes “Anatomia de um Crime” (“Anatomy of a Murder”, 1959, de Otto Preminger) [>>YouTube] [>> YouTube] e “Paris Blues” (1961, de Martin Ritt) [>> YouTube]; a grandiosidade das comemorações do centenário do seu nascimento, em 1999, mostrou que Duke Ellington continua a ser visto como o maior compositor de jazz: apesar de se tratar de um género conhecido por privilegiar a improvisação em detrimento da composição, Duke Ellington foi talentoso o suficiente para impor a sua lógica criativa, sempre sem deixar de dar espaço aos membros da sua banda para desempenhos solistas, dotando assim o jazz de um sentido académico e institucional;

9. Falecimento do psiquiatra e psicossociólogo norte-americano Jacob Moreno; filho de judeus romenos, Jacob Levy Moreno nasceu em circunstâncias curiosas: a bordo de um barco, durante uma viagem entre Bucareste e Espanha, em 1889; não tendo sido registado pelos pais, só em 1925, ano em que emigrou para os Estados Unidos da América, obteve uma data oficial de nascimento (18 de Maio de 1889) e um estado civil; passou a infância e adolescência em Viena, vindo a formar-se em Medicina na universidade local; em 1910, propõe a grupos de crianças situações de improvisação teatral, o que já indicia o seu interesse pelos problemas de grupo e sua dinâmica, uma espécie de premonição do futuro psicodrama; a sua primeira intervenção verdadeiramente estruturada data de 1913, quando ajuda prostitutas a organizarem-se enquanto grupo: juntou oito mulheres e três homens falando-lhes de coisas banais mas acabando por ir dar aos problemas da profissão; nestas “reuniões” o objectivo principal para Moreno era «encorajar as mulheres a serem aquilo que na realidade eram: prostitutas»; Moreno considerava muito importante que no grupo ocorresse «uma psicoterapia de grupo em que não só o médico assistente, como também cada “paciente”, poderia agir diante de outro “paciente” como agente terapêutico»; a esta entreajuda mútua deu Moreno o nome de encontro, uma espécie de empatia total entre os membros do grupo: «[…] aproximar-me-ei de ti e tomarei os teus olhos para os pôr no lugar dos meus, e tu tomarás os meus olhos para os pôr no lugar dos teus, e eu ver-te-ei pelos teus olhos e tu ver-me-ás pelos meus»; para Moreno, o psicodrama é «um método que confere, através da acção, autenticidade à alma possibilitando a sua catarse»; a Jacob Moreno se deve também a criação da sociometria e do teste sociométrico, que consiste em pedir a todos os membros de um grupo que designem, entre os companheiros, aqueles com quem desejariam encontrar-se, ou que prefeririam evitar, numa determinada situação; criou ainda um instrumento de análise – o sociograma – método simples mas eficaz de obter esclarecimentos bastante precisos sobre a estrutura dos grupos; Jacob Levy Moreno faleceu em Beacon, no estado de Nova Iorque, a 14 de Maio de 1974, deixando um importante contributo no campo da psicoterapia de grupo e da psicologia social; entre as suas obras mais importantes contam-se “Who Shall Survive?: A New Approach to the Problem of Human Interrelations” (1934), que teve uma edição revista, em 1953, sob o título de “Foundations of Sociometry, Group Psychotherapy and Sociodram”, e “Psychodram”, em 3 volumes (1946, 1959 e 1969);

10. Falecimento do escritor guatemalteco Miguel Ángel Asturias; nascido a 19 de Outubro de 1899, na cidade da Guatemala; concluídos os seus estudos secundários, ingressou no curso de Medicina, que trocou em 1917 pelo de Direito, na Universidade de San Carlos da Guatemala; ainda estudante tomou parte activa numa insurreição contra o ditador Manuel Estrada Cabrera, que havia complicado a vida a seus pais; em 1922, funda com outros estudantes a Universidade Popular, destinada a formar estudantes mais desfavorecidos, sendo ele próprio um dos docentes; forma-se em 1923 com a tese “El problema social del indio”, após o que ruma à Europa com o intuito de prosseguir os estudos, matriculando-se na Sorbonne, onde concluirá o curso de Antropologia, em 1928; descobrindo as traduções francesas de manuscritos maias, desenvolve particular interesse por aquela cultura pré-colombiana, que o induz à tradução para o castelhano do livro sagrado “Popol Vuh”, projecto iniciado em 1925 e a que se dedicará ao longo de quarenta anos; por essa altura, Miguel Ángel Asturias começa a colaborar como correspondente com vários órgãos da imprensa sul-americana, e nessa qualidade tem a oportunidade de viajar por toda a Europa, o Egipto e o Próximo Oriente; publica “Lendas da Guatemala” (“Leyendas de Guatemala”, 1930), obra sobre os mitos e as lendas nativas, que lhe granjeia uma certa reputação literária, sobretudo depois da tradução francesa ter sido galardoada com o prémio Sylla Monségur; em 1933 regressa à Guatemala, onde trabalha como jornalista, mas não deixando de se dedicar à escrita: publica então o livro “Sonetos” (1936); a partir de 1945, ocupa o cargo de adido cultural, primeiro no México e depois na Argentina, Paris e San Salvador; na década de 50, um novo ocupante da cadeira da presidência da Guatemala retira-lhe a nacionalidade, circunstância que o força ao exílio, primeiro na Argentina e no Chile e depois na Europa; encontra-se em Génova quando publica o romance “Mulata de Tal” (1963), com o qual obtém uma acrescida reputação literária; em 1966, o novo presidente eleito da Guatemala, Julio César Méndez Montenegro, reabilita-o e nomeia-o embaixador em França; galardoado com o Prémio Nobel da Literatura em 1967 [>> YouTube], Miguel Ángel Asturias viria a falecer em Madrid, a 9 de Junho de 1974, sendo sepultado no cemitério de Père Lachaise, em Paris; a sua bibliografia inclui, entre outras e além das já citadas, as seguintes obras: “O Senhor Presidente” (“El Señor Presidente”, 1946), romance que recria as perseguições do ditador Estrada Cabrera à sua família; “Homens de Milho” (“Hombres de Maíz”, 1949), romance tido como a sua melhor obra, e que descreve a rebelião de um grupo de índios que, tentando defender a sacralidade de uma montanha, é dizimado pelo exército; e a chamada “Trilogia da Banana”, composta pelos volumes “Viento Fuerte” (1950), “El Papa Verde” (1954) e “Los Ojos de los Enterrados” (1960), que relata os dissabores dos trabalhadores de uma plantação bananeira; influenciada pelo surrealismo de André Breton e incindindo sobre a realidade profunda da cultura guatemalteca, a produção romanesca de Miguel Ángel Asturias será precursora do chamado realismo mágico hispano-americano, que tem no colombiano Gabriel García Márquez um dos seus maiores expoentes;

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