A PERPELEXIDADE DOS PLANOS
O sentimento patriótico está a degenerar num grave sentimento oportunista para os bem instalados na administração colonial, e pode conduzir à degradação das relações entre desiguais que labutam à míngua dos poderes obscuros, o que é extremamente desolador e frustrante para os mais moralizadores.
Por mais bem urdidos que sejam os relatórios oficiais sobre a situação da guerra, a realidade não pode ser encoberta por muito tempo; pois mais de metade das vitórias descritas nos comunicados oficiais são fictícias e incrivelmente pouco convincentes para a população. Inventam-se assaltos a acampamentos inimigos que nunca existiram; o pouco espólio de guerra resultante das operações de assalto é conseguido pela acção de tropas especiais e alguns grupos de tropas do Exército mais ousados, em alguns casos com uma boa dose de sorte; mas a ousadia conjugada com o azar tem custado uma desmesurada quantidade de militares mortos. Para um exército activo de mais de cinquenta mil homens, o material apreendido é demonstrativo de fracos resultados operacionais.
Aparentemente a guerra está perdida, não pelo fraco empenhamento das tropas no terreno, mas por outras razões muito objectivas e vergonhosas que se conhecem:
A corrupção económico-financeira é latente ao nível de alguns chefes administrativos; o desvio de dinheiros e de materiais para fora do circuito militar começa a ser notório em alguns sectores de apoio logístico às linhas da frente; o florescer dos novos empreendedores na construção civil está intimamente ligado à corrupção nas forças armadas coloniais; quantas vezes a mesma viatura pesada atingida pelo rebentamento de minas foi substituída por uma nova, sem que a nova chegasse ao seu destino – porque tinha sido desviada para trabalhos particulares dos oportunistas e corruptos. E o material de guerra, perdido por negligência ou desviado para outros fins, que tem sido abatido à responsabilidade dos militares que tiveram o azar de morrer nas zonas de guerra!
Qual poderá ser o moral de uma tropa de intervenção cujas estruturas logísticas fornecem a alimentação aos soldados a 24$00 por dia e aos cães a 32$00 por dia?…
E, que vontade de arriscar a vida podem ter os combatentes que palmilham centenas de quilómetros para assaltar um eventual acampamento inimigo, com resultados sem expressão, quando os poucos meios aéreos de apoio e para evacuação de mortos ou feridos andam a servir de recreio e na caça grossa, transportando os chefes de sector ou oficiais de operações?
Então, quando é sabido que em determinada zona de Cabo Delgado tem aumentado a perigosidade, com a restrição de meios de apoio, ninguém se afoita para avançar. Pois os exemplos de consequências trágicas são diversos, tal como numa operação a norte de Diaca, onde os oficiais de operações tinham indícios da existência de um acampamento inimigo e determinaram o avanço de três companhias de tropas especiais (pára-quedistas, fuzileiros e comandos) para o assalto. Os resultados foram desanimadores para tanta tropa em acção: apenas um machambeiro preso – tratava-se de um acampamento de apoio logístico a pessoal da Frelimo. E, três dias depois desta operação, determinaram que apenas uma companhia era suficiente para efectuar o reconhecimento do Vale de Miteda, e assaltar um acampamento da Frelimo lá existente. Mas já havia informações de prisioneiros, e os indícios de movimentos intensos na zona atestavam-no, que seria aí que estavam localizadas as principais bases dos guerrilheiros entre o rio Rovuma e o rio Messalo.
Para aí intervir, todos comandantes de companhia se retraíram e com alguma razão. Por incrível que pareça, a intervenção nessa zona foi entregue a uma só companhia! Foram os pára-quedistas que tiveram de avançar na operação com o objectivo oficial de encontrar e aniquilar os inimigos que se presumia estarem numa base operacional ali instalada.
Os responsáveis da logística do Exército aproveitaram a passagem dos pára-quedistas pelo destacamento de Miteda para mandar quatro camiões de reabastecimento com alimentação e água; pois, nas duas tentativas anteriores com tropa do Exército, não chegaram ao destino, por efeito dos ataques do inimigo que, além de destruírem as viaturas e as respectivas cargas, ainda causaram alguns mortos e feridos à tropa.
E os pára-quedistas lá seguiram na sua missão, cuidadosos e avisados, fazendo o percurso apeados, nas zonas consideradas menos seguras, atentos às minas que pudessem estar no caminho e a quaisquer movimentos do inimigo. Feito o percurso de Mueda a Miteda sem percalços significativos, chegaram àquele destacamento ao princípio da noite. Na chegada, a ausência de pessoal nos postos de vigia causou alguma estranheza; mas não demorou a perceber-se o estado de espírito do pessoal ali destacado! Pareciam todos cacimbados a sair de dentro duma camarata coberta de chapa, onde as camas estavam abaixo do nível do terreno adjacente. Receberam os pára-quedistas como se fossem divindades estranhas, com rezas, abraços e choros, tal era o seu estado depressivo.
Pudera! Com os principais alimentos esgotados havia semanas, comiam batatas assadas na fogueira; de vez em quando, uma amostra de carne de algum bicharoco que ficava nas ratoeiras que os furriéis e um primeiro-sargento tinham montado fora do arame farpado. Ah! Ainda conseguiam comer algum pão que faziam com a pouca farinha que lhes restava. De resto, notava-se uma amarga agonia à espera do fim!

